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O Rio de Janeiro continua lindo
Cultura 3 min. 08.07.2020

O Rio de Janeiro continua lindo

O Rio de Janeiro continua lindo

Cultura 3 min. 08.07.2020

O Rio de Janeiro continua lindo

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Crítica de cinema – “Coisa Mais Linda”.

Se gosta de telenovelas vai gostar de “Coisa Mais Linda” um série da Netflix cuja segunda temporada acaba de surgir na plataforma de ’streaming’. Atenção! A qualidade da série é superior à maioria das telenovelas brasileiras, mas o ambiente carioca vai fazer com que os fãs desse tipo de formatos se sintam em casa.

A história de “Coisa Mais Linda” começou em 2017 quando a Netflix anunciou que iria produzir uma série cuja ação decorreria no Rio de Janeiro no final dos anos 50, no momento em que surge a bossa nova. O título da série é aliás uma homenagem e uma frase retirada do tema “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinícius de Morais, composta em 1962.

A primeira temporada – são duas, por enquanto – começa em 1959 no Rio de Janeiro. “Coisa Mais Linda” segue Maria Luiza, ou Malu, uma paulista casada, filha de uma família rica, que se muda para o Rio de Janeiro para abrir um restaurante com o seu marido. Porém, ao chegar à cidade maravilhosa, descobre que Pedro gastou o dinheiro todo e fugiu com outra. Depois da depressão, que pouco tempo dura, Malu decide transformar o espaço do restaurante do marido para criar uma sala de concertos destinada a revelar novos talentos da bossa nova e do jazz.

Malu associa-se a Adélia, uma rapariga negra do Morro, para levar a cabo o seu projeto. Entretanto conhece uma série de pessoas que vão revelar-lhe uma vida e um mundo novos e desconhecidos. Entre esses encontros está Chico, um cantor talentoso, mas também várias mulheres que, como ela, procuram um espaço e uma vida própria numa sociedade dominada por homens. A primeira temporada concentra-se sobretudo no retrato de uma época, seguindo essas mulheres que tentam enfrentar o machismo que então se vivia, tanto no ambiente familiar como na vida profissional.

E acreditem que era difícil ser mulher naquela altura. Já tínhamos visto isso em “Mad Men” e noutras séries que fielmente retrataram a posição do sexo feminino na sociedade. E se era mau ser mulher em Nova Iorque no princípio dos anos 60, imaginem no Brasil! A mulher não só era culpada pelos erros do marido como, por exemplo, não podia abrir uma empresa sem a assinatura de um homem, como descobre – da maneira mais difícil – a protagonista da série.

O racismo é também omnipresente em “Coisa Mais Linda”. Na época ninguém escondia as atitudes racistas, nem mesmo relativamente a crianças. Recorde-se que o Brasil só passou a criminalizar os atos racistas em 1989.

A reconstituição histórica é razão quase suficiente para ver “Coisa Mais Linda”, mas o universo musical é o bónus que faz toda a diferença e torna a série muito especial. Apesar de nenhuma das personagens corresponder diretamente a um dos artistas da época, é interessante tentar adivinhar quem eles poderiam ser. Tom Jobim? Chico Buarque? E a série propõe mesmo artistas de jazz americanos que não correspondem a nenhum músico específico mas que nos fazem pensar em alguns grandes nomes da História da música.

O elemento musical contribui para o prazer de ver “Coisa Mais Linda”, mas as imagens – como se de uma velha fotografia se tratasse – concorrem bastante para a originalidade da experiência e para o belo passeio que é seguir as personagens pelas praias de Ipanema mas também pelo Morro, onde alguns dos protagonistas vivem.

Destaque por fim para o profissionalismo dos atores – algo que já conhecemos na maior parte dos produtos televisivos brasileiros – mas que aqui assume uma máxima expressão. Todos eles são excelentes, com destaque para a protagonista, Maria Casadevall, que transmite perfeitamente todas as inquietudes que vai vivendo e que são as mesmas da maioria das mulheres que a rodeiam.

“Coisa Mais Linda” de Heather Roth e Giuliano Cedroni, com Maria Casadevall, Pathy DeJesus, Fernanda Vasconcellos e Mel Lisboa.

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