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"O que me fez mais confusão foi não ter palco"
Cultura 8 min. 02.10.2021
Entrevista Luísa Sobral

"O que me fez mais confusão foi não ter palco"

Entrevista Luísa Sobral

"O que me fez mais confusão foi não ter palco"

Foto: MDPhotography
Cultura 8 min. 02.10.2021
Entrevista Luísa Sobral

"O que me fez mais confusão foi não ter palco"

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
Dez anos depois do seu primeiro disco, Luísa Sobral está de regresso aos palcos para comemorar o seu percurso artístico. No Luxemburgo, tocará no dia 13 de outubro na Philharmonie, no Festival Atlântico. A não perder.

Luísa Sobral acaba de celebrar o seu 34º aniversário, a 18 de setembro, dia em que lançou Camomila, um EP composto por sete canções de embalar, uma para cada dia da semana,"para seres de todos os tamanhos". Apesar de não ser "um disco a sério" e tê-lo produzido "só pelo gosto",  esta é a segunda vez em que Luísa Sobral mergulha no universo infantil, depois do aclamado álbum ‘Lu-Pu-I-Pi-Sa-Pa’ de 2015.

 Estamos a celebrar dez anos desde o lançamento do seu primeiro álbum. O que é que mudou na Luísa ao longo desta década e como é que isso se refletiu na composição das suas canções? 

Epá mudou tanta coisa, cada coisa que eu faço é sempre diferente, porque me sinto diferente e vou sempre procurando coisas novas. Então acho que essa vontade de fazer o que sinto na altura manteve-se igual, a liberdade de fazer o que me apetece. 

Eu não penso muito se a minha música vai chegar às pessoas ou não, eu quero fazer isto porque eu gosto e quero fazer aquilo que gosto de fazer, que faça sentido para mim. Obviamente quero chegar às pessoas, mas não faço música por essa razão, nem penso nisso quando estou a produzir ou a escrever. 

Acho que me tornei ainda mais confiante e isso tem sido muito bom. Também já percebi que consigo viver muito bem com o facto de não ser uma artista de massas, não tenho sequer o objetivo de ser mainstream. E a verdade é que tanto a parte financeira, como a emocional, está tudo bem. Continuo a tocar bastante e em teatros, que eu gosto muito mais do que tocar em espaços muito grandes. Por isso até tudo se adequa mais a quem eu sou e como já estou mais confiante em relação a isso, pode-se dizer que foi algo que mudou um bocadinho. 

Lembro-me que quando comecei, tinha sonhos um bocado diferentes, queria muito ir tocar para os Estados Unidos...Hoje em dia não tenho vontade nenhuma de ir para os Estados Unidos, adoro a Europa, adoro tocar pela Europa...E também tenho três filhos, o que também faz com que a minha ideia de vida perfeita também se tenha alterado, que agora inclui passar tempo com eles. Os meus sonhos mudaram completamente. 

Ter filhos também teve impacto a nível de inspiração?

O álbum Rosa tem o nome da minha filha mas é bastante adulto. Este novo, o Camomila, com canções de embalar para bebés e "seres de todos os tamanhos" escrevi durante o confinamento, quando a minha filha mais nova nasceu, a Camila. São canções de embalar que escrevi para ela.  O único disco para crianças que eu tinha escrito, o ‘Lu-Pu-I-Pi-Sa-Pa’, em 2015, foi numa altura em que eu ainda não era mãe. Era mesmo algo que eu queria fazer. Agora é engraçado porque consigo experimentar as coisas com eles e ver se funciona. Dá mais jeito (risos).


A Atlântico aqui tão perto
De 9 a 16 de outubro, a Philharmonie volta a iluminar-se de azul, a cor do Atlântico, o oceano que dá o nome ao festival que celebra a riqueza e diversidade musical dos países lusófonos.

Este concerto no Luxemburgo é um dos muitos que foram adiados com a pandemia. O "Camomila" vem a um mundo muito diferente do que viu nascer “Rosa”. Está pronta para voltar aos palcos internacionais? Sentiu muitas saudades? 

Este EP, Camomila, não é feito para andar na estrada. Considero-o um mimo que me apeteceu lançar para os bebés. Não o ponho na minha discografia principal nem estou a pensar fazer muitos concertos com ele. O que eu toco agora em palco é uma celebração dos dez anos, toco músicas dos discos todos.

Entretanto já fiz alguns concertos fora, em Espanha, agora Itália e eu sinto-me super feliz porque adoro viajar e tinha imensas saudades. Quando toco e viajo é perfeito. Adoro viajar com a minha equipa. Não sinto ansiedade, tenho mesmo só muita vontade. Ainda por cima no Luxemburgo só toquei uma vez, por isso apetece-me imenso voltar. 

Acho que senti mais saudades de escrever e ter tempo para criar do que estar no palco. Porque é a criação que me deixa mais preenchida. O que me fez mais confusão foi não ter palco, nem tempo e espaço em casa para criar. 

Tem algum tipo de ritual para criar?

Só preciso de não ter três crianças em cima de mim (risos). De resto está tudo bem. Às vezes está o meu marido a jogar Playstation com os amigos e a falar pelo microfone e eu estou a escrever ao piano. Consegui desenvolver essa capacidade de escrever em quase todo lado, mas com os miúdos tão pequeninos não consigo, tenho de lhes dar atenção.  

Já passou pelo Luxemburgo em 2015, sente que os portugueses da diáspora acolhem-na com carinho especial? 

Eu acho que sim e digo-te isto enquanto pessoa que viveu seis anos nos Estados Unidos. Lembro-me que, por exemplo, quando ia ao bairro português, eu que nunca gostei de Sumol, bebia um e comia uma carcaça com uma fatia de queijo Limiano, só para sentir Portugal. Lembro-me que ficava super feliz só com isso. Acho que quando estamos fora sentimo-nos ainda mais portugueses.

Lembro-me de ver os jogos de futebol do Euro e do Mundial e eu nunca vibrei tanto com os jogos como quando não estava em Portugal. É uma conexão mais forte. De repente, parece que é uma questão de identidade, num sítio que não é nosso. 

Acho que isto também acontece com os artistas, quando vais ver um concerto sentes "é um dos meus". E ainda por cima como canto em português, levo sempre um bocadinho da nossa cultura. A língua é talvez a coisa mais valiosa. 

Do que é que sentiu mais saudades? Teve oportunidade de consumir cultura portuguesa nos Estados Unidos? 

Na minha escola havia um auditório que era muito conhecido, lá vi a Sara Tavares e a Mariza. A verdade é que não tinha muito dinheiro para andar a viajar e a ver concertos. Estava na universidade e a contar tostões para pagar a renda. Então também não tinha esse poder de compra. Mas sempre que podia ia ao bairro português. Tive saudades das nossas praias... Mas do que eu tive mais saudades foi da minha família. Sou mais de ter saudades de pessoas do que de coisas. 

Apesar deste mini-álbum ser mais aos pequenos, diz que as canções de embalar são para todos os tamanhos. O que é que lhe tira o sono?

Os meus filhos, mais que tudo. Eu sempre dormi mesmo bem, mas obviamente que desde que fui mãe nunca mais tive um sono tão produndo. Mas, por exemplo, quando escrevo uma canção e não estou a gostar de uma frase, sou capaz de passar a noite inteira a tentar arranjar alternativas para essa frase. Por acaso, normalmente é produtivo porque o subconsciente é muito mais produtivo e então às vezes consigo chegar lá a meio da noite.

Depois do enorme sucesso da composição da “Amar pelos dois”, sentiu muita pressão no após dessa canção? 

No ano a seguir o Festival da Canção convidou-me para cantar um dos meus temas novos e aí eu senti imensa pressão, porque era o Festival da Canção e eu estava a mostrar uma minha. Senti imenso que as pessoas podiam pensar "ah afinal só escreveu uma boa" e estava super nervosa para cantar o tema. Pronto no fim correu bem e as pessoas gostaram e eu fiquei contente. Mas depois a partir daí nunca mais senti isso, passou. 

Ganhei confiança em mim. Não quer dizer que ache que sou muito boa, mas sei a que é que eu sou boa e o que é que consigo ou não consigo fazer. Só isso.  

Tem planos de continuar a trabalhar com o seu irmão?

Eu estou sempre a colaborar com o meu irmão. No último disco dele escrevi uma letra, agora fizemos um concerto juntos quando começou o desconfinamento. Vamos agora anunciar uma nova data para concertos juntos também, estamos sempre a colaborar, é inevitável porque gostamos muito de trabalhar juntos.

Foi mãe durante a pandemia, deve ter-lhe marcado imenso.

Penso que se tivesse sido primeiro filho teria sido mais stressante, passar por isto tudo sem ter noção de como é suposto acontecer, é mais angustiante. Eu tive seis meses em que esteve tudo "ok". Ainda por cima grávida de seis meses fui fazer uma tournée na Austrália e no Japão, estava muito bem. Quando voltei é que já estava tudo fechado cá. Nos últimos três meses é que foram mais hardcore porque estive fechada em casa com os meus filhos e gravidona. 

Depois, mais que tudo, porque havia muitas notícias no telejornal sobre o que faziam quando o bebé nascia e a mãe tinha covid, por exemplo, como ainda foi mais no início da pandemia. Então ouvia notícias que tiravam o bebé às mães e isso foi muito angustiante, chorava imenso ao ver essas notícias. Não podia ver o telejornal. E esse medo de me tirarem a minha filha quando ela nascesse assustou-me imenso. Depois correu tudo bem. 

Tem alguns planos guardados na manga para o futuro próximo?

Estou a preparar o próximo disco que, se correr como eu quero, vai ser especial. Tem toda uma estória que estou a escrever. Ainda estou em fase de pesquisa, é tão especial, que no fundo é um bocadinho histórico e tenho de conhecer pesquisar melhor sobre aquela altura, acho que ainda vai demorar um bocadinho, mas tenho tempo. Agora está tudo a acontecer.  

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