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O orgulho luxemburguês de Simone de Oliveira

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O orgulho luxemburguês de Simone de Oliveira

O orgulho luxemburguês de Simone de Oliveira
Entrevista exclusiva

O orgulho luxemburguês de Simone de Oliveira


por Paula SANTOS FERREIRA/ 24.10.2022

Simone de Oliveira e a filha, Eduarda Macedo, fotografadas na casa da artista pelo Bairro Alto, em Lisboa.Fotos: Rodrigo Cabrita

Simone de Oliveira e a filha, Maria Eduarda Macedo, conselheira comunal na cidade do Luxemburgo, juntaram-se, pela primeira vez, para uma entrevista. Uma conversa repleta de admiração mútua e confidências, num hino à vida e à liberdade.

É uma casa pequenina para os lados do Bairro Alto, em Lisboa, mas onde as memórias da carreira, o amor à família e a personalidade luminosa da proprietária, Simone de Oliveira, apagam paredes para lhe dar a dimensão gigante de uma vida plena. 

Aos 84 anos, aquela a quem Portugal chama diva, epíteto que a própria recusa, diz que, por tudo o que a vida lhe deu, tem “obrigação de ser feliz”. Diz ser feliz, porque sempre fez por isso, enfrentou cada dor, desilusão e sofrimento que passou de cabeça erguida, tornou-se “mais forte” e seguiu em frente naquela estrada da “liberdade”, da qual nunca abdicou. Para si, para os dois filhos, Maria Eduarda, de 62 anos e António Pedro, de 60, para os quatro netos, para o bisneto, neto de Maria Eduarda nascido recentemente, e para todos os portugueses.

 Foram várias as causas que Simone “rebelde e contestatária” abraçou ao longo da vida, por uma maior justiça social e pela liberdade, e nem no tempo do Estado Novo abdicou de se fazer ouvir. “Eu acho que já nasci livre, mesmo no seio de uma família católica, apostólica e romana”, diz Simone que também elegeu a liberdade na despedida dos palcos, após 65 anos de carreira. “Ser livre são as últimas palavras que vos deixo neste meu último espetáculo”, declarou a artista no Coliseu de Lisboa, em março passado, com casa lotada, e com a família e o presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa a assistir.

 “Ainda hoje não sei como a censura deixou passar o verso, não devem ter percebido e não sei o que levou aquela multidão a ir esperar-me à estação”, confessa Simone, de cigarro na mão, um hábito de que ainda hoje não abdica, tal como do seu uísque com três pedras de gelo. “Quando um dia eu pedir chazinho, em vez do uísque ou café, é porque estou mesmo mal”, fala a rir, sentada na poltrona da sala luminosa com a filha ao lado.

Foto: Rodrigo Cabrita

“Eira de milho/Luar de Agosto/Quem faz um filho/ Fá-lo por gosto”, Desfolhada

Uma liberdade que decidiu nunca calar e que num Portugal amordaçado ousou cantar o verso “quem faz um filho, fá-lo por gosto”, da Desfolhada vitoriosa com que foi representar Portugal na Eurovisão, em 1969, em Madrid. Não ficou nos primeiros lugares, mas à sua chegada de comboio tinha milhares de pessoas à espera em Santa Apolónia, lotando o local e cantando em plenos pulmões a Desfolhada e gritando “Simone”, um momento eternizado pela reportagem a preto e branco da RTP.

A minha mãe é uma força da natureza, dona de uma enorme coragem, é um vulcão que explode sem avisar

Eduarda Macedo, filha de Simone de Oliveira

“Quem faz um filho/fá-lo por gosto, tornou-se um hino nacional”, como reconhece, mas também alvo de críticas ferozes de portugueses chocados e que lhe colocou a Pide no encalço. Contra tudo, Simone respondia com a frontalidade que se lhe conhece: “Quem faz um filho, fá-lo por gosto e eu fiz os meus por gosto, por amor”. Ninguém deve calar isso. Um verso que lhes mudou a vida. 

"A Eduarda e o meu filho têm um sentido de retidão e de justiça enorme, que muito admiro”, diz Simone de Oliveira
"A Eduarda e o meu filho têm um sentido de retidão e de justiça enorme, que muito admiro”, diz Simone de Oliveira
Foto: Rodrigo Cabrita

“A canção era fortíssima, o verso terrível, na altura, e para nós foi um inferno com os miúdos na escola a matraquearem-nos os ouvidos”, reconhece a filha, enaltecendo, contudo, a coragem da mãe, de não calar e continuar a travar as lutas, ao cantar poemas escritos para si pelos maiores autores contestatários como Ary dos Santos, ou a dar voz à revolta. “A minha mãe é uma força da natureza, dona de uma enorme coragem, é um vulcão que explode sem avisar”, soltando tudo o que lhe vai “no coração” e enfrentando sempre as consequências.


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Laços de ternura
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Rodrigo Cabrita

 Maria Eduarda Macedo é uma mulher mais ponderada, pensa nas palavras, mas bebeu da mãe, e de um Portugal a renascer do 25 de Abril, esse chamamento da “liberdade” e “autonomia”. 

Aos 26 anos, rumou ao Luxemburgo, atrás do sonho da Europa, como tradutora e, mais tarde, líder sindical na Comissão Europeia. Reformada, Maria Eduarda Macedo está agora na política local. É conselheira comunal pelos Verdes (Déi Gréng) na cidade do Luxemburgo, a única portuguesa no cargo, “lutando por uma vida melhor para os residentes e promovendo a participação cívica e política dos estrangeiros e, claro, dos portugueses”, seus conterrâneos.

Em Lisboa, deixou a mãe em lágrimas de saudade, no dia 1 de dezembro de 85, quando partiu para o Grão-Ducado, com a viola ao ombro e dicionários na mala, sem conhecer ninguém no novo país. Sempre que pode, Maria Eduarda vem visitar a mãe e, na pequena casa para os lados do Bairro Alto, há uma festa imensa de afetos silenciosos, denunciados apenas nas palavras e nos olhares. “Não somos uma família beijoqueira e de abracinhos a todas as horas, somos sim do forte abraço”, faz questão de frisar Simone de Oliveira.

 “Esta palavra “saudade”/Sete letras de ternura/Sete letras de ansiedade/E outras tantas de aventura”, Sete Letras

 Ao longo da vida, a artista já perdeu a conta às entrevistas dadas, mas esta é inédita. Pela primeira vez, Simone dá uma entrevista conjunta com a filha Maria Eduarda, e ao longo da tarde vai deixando o coração falar do tamanho orgulho que tem na sua descendência e de como os filhos foram sempre a sua prioridade. 

Eduarda Macedo bebeu da mãe, a ânsia de liberdade e a paixão pelo canto.
Eduarda Macedo bebeu da mãe, a ânsia de liberdade e a paixão pelo canto.
Foto: Rodrigo Cabrita

“A minha vida foi dura, não se pense que é fácil o mundo das cantigas e dos palcos, sobretudo no tempo da ditadura, trabalhei muito, muito, para que os meus filhos tivessem uma vida boa e pudessem tirar os seus cursos, serem independentes”, vinca Simone, confessando que para si “foi muito duro” quando Maria Eduarda partiu. “Sempre fui independente mas este anseio sempre foi mais forte na minha filha. Olha quem!. Eu não teria coragem de emigrar”, realça a artista, condecorada por três Presidentes da República, cujas insígnias repousam discretamente na sua sala, onde os maiores destaques são dados às fotos da família.

Sempre fui independente mas este anseio sempre foi mais forte na minha filha. Olha quem! Eu não teria coragem de emigrar.

Simone de Oliveira

 A filha teve essa “tamanha coragem”, como vincou a mãe, para poder ter “melhor qualidade de vida” do que a que lhe daria, naquela altura, o curso de psicologia, praticamente acabado de criar em Portugal. O momento era ideal, Portugal e Espanha estavam prestes a aderir à União Europeia. Portugal era pequeno demais para o entusiasmo que Eduarda tinha pela Europa e esta era a sua “porta para a autonomia”. Além de que, na altura, tinha um namorado na Alemanha, que viria a ser o pai do seu único filho, e “era a forma de estarmos mais perto”. A preparação para a aventura começou um ano antes. 

“Eu sempre fui forte em línguas e sabia que a Comissão Europeia ia necessitar de recrutar portugueses. Por isso, preparei-me e quando começaram a aparecer anúncios à procura de candidatos, inscrevi-me e fui selecionada”, recorda a conselheira comunal que foi uma das primeiras portuguesas a ir trabalhar para a Comissão Europeia. 

“Foi uma aventura fabulosa, éramos todos novos, cheios de garra e entusiasmo, a querer provar como os portugueses eram bons, e a ajudar a construir uma Europa, trabalhávamos imenso, foi muito bom”.

“Quem foi que disse que eu podia ir/Tão longe quanto nós podemos ser?/Apenas quem me viu calada e triste/E despertou em mim um mundo novo”, Apenas o Meu Povo

 Para os reencontros, Simone viajou várias vezes para o Luxemburgo, um “país desenvolvido e bonito, mas sem mar”, e a vencedora de três Festivais da Canção, onde arrecadou ainda vários outros prémios, confessa o quanto precisa do azul do mar ou do rio. “Temos uma costa de praia, e em Lisboa basta andar um pouco e virar uma esquina e vemos o rio. No Luxemburgo, isso não é possível”. Contudo, “nunca calhou ir atuar ao Luxemburgo, fui sempre para visitar a minha filha”.

Foi uma aventura fabulosa (...) ajudar a construir uma Europa, trabalhávamos imenso.

Eduarda Macedo
"Eu não teria coragem de emigrar", confessa Simone.
"Eu não teria coragem de emigrar", confessa Simone.
Foto: Rodrigo Cabrita

 Já Eduarda subiu uma noite ao palco, no Grão-Ducado, para cantar o “Sol de Inverno”, com a qual Simone de Oliveira representou Portugal no Festival da Eurovisão, em 1965, em Nápoles. Foi a canção eleita pela filha para homenagear a mãe, no evento do Centro Cultural de Hollerich, em setembro de 2015. Foi a primeira e única vez que Maria Eduarda cantou Simone num palco, mas a paixão pela música herdou-a da mãe, fazendo parte do coro da Universidade do Luxemburgo. 


Maria Eduarda Macedo cantou canções da mãe, Simone de Oliveira
Filha de Simone de Oliveira homenageia mãe no Luxemburgo
"Sol de Inverno", a canção eternizada por Simone de Oliveira no Festival Eurovisão de 1965, foi o momento alto da noite dedicada à música clássica portuguesa, no Centro Cultural de Hollerich, na terça-feira. Maria Eduarda Macedo, filha de Simone, subiu ao palco e interpretou a mesma música que a mãe deu a conhecer ao mundo.

“Há muitos anos que tenho aulas de canto, o meu hobby favorito. Foi graças ao canto que consegui deixar de fumar. De vez em quando pego na viola e toco sozinha em casa”.

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Hino à vida
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 Curiosamente, em casa de Simone, dona de uma voz inconfundível que ainda hoje mantém, as suas canções ficaram sempre à porta. “Sou Simone e canto cantigas, mas nunca cantei em casa, nem no banho, nem para a família. Tenho paixão pela música, pela minha carreira, mas em casa o tempo era para a família, para os meus pais e filhos. Nunca me apeteceu cantar em casa”, confessa a artista, cuja voz continua poderosa. A filha confirma e também ela jamais cantou para a família.

 Porque havia a Simone cantora, atriz de teatro, revista e mais tarde novelas, com aura de rebelde, e a Simone família, filha de uns pais que foram o “seu pilar”, e mãe de dois filhos, que nasceram quando tinha 21 e 23 anos. Uma mãe protetora e atenta, que cozinhava “muito bem”, fazia renda, bordava toalhas para os filhos e quadros em ponto cruz para os netos, e sempre defendeu os seus. 

Dotes caseiros inimagináveis para um Portugal que a via “como uma cantora e artista, que fumava, usava decotes e se deitava tarde”. Assim mesmo a caracterizou uma diretora do ciclo preparatório de Eduarda que, um dia, chamou a mãe à escola só para lhe perguntar. “Como é que eu, sendo assim, podia ter uma filha tão boa aluna?”. E o que respondeu? “Olhe, não sei, pergunte à minha filha”, lembra Simone de Oliveira.

“Sou Simone e canto cantigas, mas nunca cantei em casa, nem no banho, nem para a família".
“Sou Simone e canto cantigas, mas nunca cantei em casa, nem no banho, nem para a família".
Foto: Rodrigo Cabrita

Noutra ocasião, teve de ir dar um espetáculo ao estrangeiro e deu a volta à Europa para chegar a tempo do aniversário do filho António Pedro, com o presente prometido, um barco com vela bujarrona: “Cheguei ao aeroporto de Lisboa e entreguei o presente ao Pedro, que me esperava ansioso”. O meu trabalho obrigava-me a ausentar, e já pedi aos meus filhos desculpas por isso. Felizmente, tinha os meus pais”.

“Eu em troca de nada/Dei tudo na vida/Bandeira vencida/Rasgada no chão”, Sol de Inverno

 Uma das maiores angústias e alegrias da sua vida foi quando os filhos, ao nascerem, terem de ter “mãe incógnita” na certidão de nascimento. Simone de Oliveira casou aos 19 anos e três meses depois regressou a casa dos pais, porque era vítima de violência doméstica. Foi a depressão com que ficou e o gosto de cantar que, numa mistura de acaso, pela mão do pai para melhorar a saúde da filha, e de talento por lapidar, a tornaram numa das mais famosas e amadas cantoras de Portugal.

A raiva e dor que senti durante 10 anos pela injustiça que fizeram aos meus filhos, de serem filhos de pais incógnitos revolta-me ainda hoje.

Simone de Oliveira

Naquele tempo não havia divórcio, apesar de eu ter conseguido uma separação de bens e pessoas, porque o meu marido, já eu estava separada, foi um dia ter comigo ao Centro de Preparação de Artistas da Emissora Nacional, onde comecei a cantar, e me deu uma tareia em frente a toda a gente. Como as testemunhas não eram meus familiares consegui essa separação. Contudo, não foi suficiente para que pudesse colocar o seu nome e do pai dos seus filhos, ambos separados, nas certidões de nascimento. 

Maria Eduarda herdou da mãe a excelente mão para a cozinha.
Maria Eduarda herdou da mãe a excelente mão para a cozinha.
Foto: Rodrigo Cabrita

Para colocar tal filiação, os outros cônjuges tinham de aceitar. E não aceitaram. A raiva e dor que senti durante 10 anos pela injustiça que fizeram aos meus filhos, de serem filhos de pais incógnitos revolta-se ainda hoje, com a voz sentida. Finalmente, na mesma altura em que Maria Eduarda entrou para o ciclo, precisando de uma certidão de nascimento, um ministro criou uma nova lei permitindo a filiação nas certidões de filhos de pais que não fossem casados, pois naquela altura, os filhos incógnitos já eram quase tantos como os restantes.

Simone, nunca mais esquece o momento em que chegou a casa com as novas cédulas dos filhos, onde já constava o seu nome e o do pai dos meninos: “O meu pai abriu uma garrafa de espumante para celebrar”.

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Quem sai aos seus...
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Rodrigo Cabrita

 Simone e Maria Eduarda não são fotocópia uma da outra fisicamente. Contudo, quando se está com as duas percebem-se alguns traços fisionómicos semelhantes, bem como de personalidade. 

“A Eduarda tem coisas minhas, mas acho que sai mais ao pai e à minha avó Janne, que era belga flamenga. A Eduarda e o meu filho têm um sentido de retidão e de justiça enorme, que muito admiro”, descreve Simone olhando para a filha e acrescenta a sorrir: “Ela tem mais coragem, mais génio do que eu, é mais assertiva, mais teimosa do que eu, nisso sai ao pai. Além de cozinhar maravilhosamente bem”.  

“As minhas dores e mágoas desabafei-as a cantar, daí a forma mais violenta da minha voz, às vezes", confessa a artista.
“As minhas dores e mágoas desabafei-as a cantar, daí a forma mais violenta da minha voz, às vezes", confessa a artista.
Foto: Rodrigo cabrita

A minha filha tem mais coragem, mais génio do que eu, é mais assertiva, mais teimosa do que eu, e nisso sai ao pai.

Simone de Oliveira

Entre ambas existe um amor incondicional, mas a rir contam como por vezes “chocam” culpando as “personalidades francas e fortes” de cada uma. A harmonia regressa depressa à casa pequenina de Lisboa, com ambas a amarem os serões juntas, Simone sentada no sofá e a filha no chão, com a cabeça pousada na mãe.

 Mais semelhanças? “É melhor ser ela a responder a essa questão”, dispara a progenitora olhando para a filha. “Acho que a qualidade que mais admiro nela é a sua capacidade de renovação e de se reinventar, e isso é uma lição de vida para mim que trago sempre comigo. Não há outro artista na geração dela que tenha conseguido fazer o que fez, reinventar-se fazendo coisas com outras pessoas e gente de gerações completamente diferentes”, vinca, orgulhosa, a filha. Tinha Simone já fama e uma carreira em plena ascensão quando perdeu a voz, devido a faringites e laringites por causa do excesso de trabalho. 

A qualidade que mais admiro na minha mãe é a sua capacidade de renovação e de se reinventar, e isso é uma lição de vida para mim que trago sempre comigo.

Eduarda Macedo

“Durante dois anos, reinventei-me e fui fazer jornalismo, ser apresentadora e atriz, porque tinha de alimentar os meus filhos”, lembra. A sua mãe morreu, entretanto, “e ela nunca voltou a ouvir-me cantar”. Faz uma pausa de tristeza imensa e dispara: “As minhas dores e mágoas desabafei-as a cantar, daí a forma mais violenta da minha voz, às vezes. Era a cantar que extravasava as injustiças. A única coisa que me levou a cantar outra vez, depois de recuperar a voz, foi a morte da minha mãe”.

Eduarda Macedo foi das primeiras mulheres a ter uma participação ativa no sindicato das instituições europeias, "um mundo profundamente masculino".
Eduarda Macedo foi das primeiras mulheres a ter uma participação ativa no sindicato das instituições europeias, "um mundo profundamente masculino".
Foto: Rodrigo Cabrita

“Dançarei, que o pano ainda não caiu/ Se o mundo ainda não me ouviu/ É tanto o que não fiz/Estou aqui, estou aqui para vos dizer, sou Simone, sou mulher e feliz”, Valsa de uma Vida

Tal como a progenitora, Maria Eduarda não vira as costas a um bom desafio. Como quando a convidaram para ter uma participação mais ativa no sindicato das instituições europeias.

“Naquela altura havia muito poucas mulheres implicadas nos sindicatos e compreendo, porque era um mundo profundamente masculino, na forma de fazer e pensar, e não era fácil uma mulher fazer-se ouvir e vingar. Era preciso falar a linguagem dos homens, e dar dois murros na mesa e gritar, depois de duas horas a levantar a mão para querer falar”, recorda a conselheira comunal no Luxemburgo. A carreira na comissão europeia e a liderança sindical permitiram-lhe conhecer o todo das instituições europeias, as suas gentes de tantas nacionalidades e o seu funcionamento.

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Missão no Luxemburgo
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Rodrigo Cabrita

 Tal como a mãe, Maria Eduarda vai “à luta” pelas suas causas. “Esta minha sensibilidade social natural, preocupação com os mais desfavorecidos e a injustiça, penso que se deve à minha mãe e aos meus avós, do que vivia e ouvia em casa, como a guerra colonial ou a censura sempre presente em Portugal, e que a minha mãe viveu”, diz.

 Foi este instinto e a vontade de se reinventar que levaram a filha de Simone a aceitar o convite para entrar na política pela mão do partido Os Verdes (Déi Gréng), com o qual se identificava.

Posso contribuir para melhorar a vida das pessoas, a acessibilidade, a mobilidade, a habitação, o acesso à cultura, a participação cívica, na capital.

Eduarda Macedo

 “Tinha acabado de decidir que ia trabalhar a meio tempo, planeava ter uma vida mais tranquila, com aulas de canto, ioga e coro, quando fui convidada para conselheira comunal. Quando me perguntaram se estava disposta a preencher o lugar de um colega conselheiro comunal que pretendia retirar-se da vida política. Quando me perguntaram 'tu vens a jogo?' a minha primeira reação foi recusar, mas depois pensei que não podia, não seria responsável, pois posso contribuir para melhorar a vida das pessoas, a acessibilidade, a mobilidade, a habitação, o acesso à cultura, a participação cívica, na capital, etc, e assim retribuir também ao Luxemburgo, tudo o que me proporcionou... Tanta coisa!”, justifica a portuguesa, que volta a ser candidata nas próximas eleições comunais, a 11 de junho de 2023.

Uma das suas grandes batalhas é a de “dar mais voz aos estrangeiros” da capital, promovendo a sua participação política mais ativa: “É evidente que sendo portuguesa tenho uma ligação especial à comunidade portuguesa e é mais fácil ser elo de contacto, se bem que pela minha própria vida profissional esteja muito ligada a outras comunidades e nacionalidades, o que é muito bom”.

Simone de Oliveira escuta atentamente as batalhas da filha, voltando a elogiar a sua “coragem”, enquanto fuma mais um cigarro. Agora, “fumo dez por dia”, um dos seus prazeres que ainda lhe sabem melhor desde que abandonou os palcos. 

Aos 84 anos, Simone de Oliveira continua a olhar em frente, para o futuro, com garra, proibindo que o tédio entre na sua vida.
Aos 84 anos, Simone de Oliveira continua a olhar em frente, para o futuro, com garra, proibindo que o tédio entre na sua vida.
Rodrigo Cabrita

“Se tenho saudades de cantar? Tenho, mas decidi afastar-me, quando eu quis e como quis, estava cansada de ter de me maquilhar, estar sempre bem-disposta. Às vezes, não estamos”. Contudo, dias depois iria apresentar-se com a classe que sempre a distinguiu, maquilhada, para mais uma homenagem, na cerimónia dos Globos de Ouro da SIC. 

Ao peito levava a pequenina cruz da Grã-Cruz da Ordem de Mérito que recebeu em maio último do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Foi a terceira condecoração presidencial a Simone de Oliveira, que se junta à Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique com que foi agraciada em março de 1997, pelo Presidente Jorge Sampaio, em 1997, e à Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, pelo Presidente Cavaco Silva, em 2015.

Sou mulher adulta/ cresci no meu canto/Sou mulher e mãe/Meu nome é verdade/Venci a saudade, Foi Assim

Aos 84 anos, Simone de Oliveira continua a olhar em frente, para o futuro, com garra, proibindo que o tédio entre na sua vida. “Eu já venho”, disse ao filho quando, pela segunda vez, foi parar ao bloco operatório para vencer novo cancro da mama, em 2007. “E voltei, eu sabia que voltava”, declara. E assim também é a filha Maria Eduarda Macedo, que vai “voltar a jogo” nas eleições comunais, empenhada em dar maior voz aos portugueses e estrangeiros no Luxemburgo. Tal mãe, tal filha.

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