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"O Luxemburgo é um meio muito pequeno em termos políticos e sociais. Exatamente como na Madeira"

"O Luxemburgo é um meio muito pequeno em termos políticos e sociais. Exatamente como na Madeira"

"O Luxemburgo é um meio muito pequeno em termos políticos e sociais. Exatamente como na Madeira"

"O Luxemburgo é um meio muito pequeno em termos políticos e sociais. Exatamente como na Madeira"


por Sibila LIND/ 05.12.2019

Foto: Sibila Lind

Hélder Folgado, de 36 anos, foi um dos artistas estrangeiros selecionados para fazer uma residência artística, em Bourglinster. Chegou em outubro ao Luxemburgo, onde está a desenvolver um projeto que incide sobre as questões do território, da ocupação humana às suas fronteiras, e ainda sobre as dinâmicas culturais que lhes são inerentes. A obra final vai estar em exposição nos anexos do castelo de Bourglinster, entre 13 a 15 de dezembro.

Num dos ateliers das antigas cavalariças do castelo de Bourglinster há o cheiro a cera de abelha e uma exposição em construção: placas de ardósia enchem uma das paredes e no chão foram espalhadas várias folhas cujos traços comunicam entre si e que juntas dão um livro. Hélder Folgado faz uma pausa para fumar um cigarro. Trocou o Funchal, onde trabalha como assistente da galeria Porta 33, para vir três meses para o Luxemburgo e desenvolver um projeto artístico, rodeado pela natureza. Quando cá chegou, sentiu-se como "um burro a olhar para o castelo", contou a brincar, mas rapidamente se integrou na comunidade e começou a descobrir a história deste pequeno país. Há mais de dez anos que trabalha com a cera de abelha, e para este projeto quis utilizar a mesma matéria, mas com uma particularidade: a cera teria de ser produzida no Luxemburgo. Agora, o seu trabalho ganhou forma e o resultado é uma exposição – "Elementos" – uma palavra que, segundo o artista madeirense, apesar de escrita em português, é compreensível em várias línguas.

Como é viver numa ilha?

Viver na Madeira é muito bom, é muito cómodo. É tudo muito perto. Rapidamente vamos à montanha como depois vamos dar um mergulho ao mar. Mas estou lá há nove anos, de vez em quando há a necessidade de ter de sair daquele espaço, para poder expandir e criar outras experiências.

Há dois meses que vive no Luxemburgo, um país com 600 mil habitantes. Sente-se de volta numa ilha?

Luxemburgo é um pequeno território numa imensidão que em vez de ser de mar é de terra. E sinto que a nível das dinâmicas culturais tem alguns vícios como a Madeira. Tem aquelas pequenas bisbilhotices, até mesmo do próprio luxemburguês. Tenho tido contacto com algumas pessoas do Luxemburgo, locais, seja lá o que isso quer dizer, pessoas que têm uma relação mais antiga com o território, e numa conversa percebi que é um meio muito pequeno em termos políticos e sociais. Exatamente como na Madeira.

O Luxemburgo é um pequeno território numa imensidão que em vez de ser de mar é de terra.

Qual foi a sensação de deixar a sua rotina na Madeira e vir para uma aldeia, no meio da natureza, para desenvolver um projeto artístico?

Este ano foi um ano muito ativo e exigente. Fiz mais de cinco exposições, também trabalho e dou aulas a crianças. Há uma espécie de uma dinâmica que ficou suspensa e caio aqui de repente. E só estou eu aqui com um castelo à frente, quase como um burro a olhar para o castelo [risos]. Porque eu não trouxe nada programado. Apresentei um projeto, mas é sempre um projeto básico. Não trouxe nada e deixei que isso fosse o princípio da própria residência. Acho que é um desafio importante perceber e saber que o que sair daqui vai ser qualquer coisa que foi feita aqui, pensada aqui e que nasce deste lugar.

É importante para um artista colocar-se fora da sua zona de conforto e criar a partir de um espaço desconhecido?

É preciso ver as coisas sempre de uma certa distância. Não sei se isso é algo que faz parte do meu processo, mas há sempre uma tentativa de tentar perceber as coisas com um determinado afastamento ou escala. É preciso ver o mundo com aquele primeiro olhar, que é o mais difícil. Termos sempre essa frescura do olhar, de chegar a um lugar e ter uma perceção nova desse lugar.

 De que forma é que essa perceção do Luxemburgo se vai refletir no projeto final?

Uma das coisas que me impressionou foi a história do país quanto à sua arquitetura militar. Luxemburgo é um dos territórios com uma arquitetura militar extraordinária. Segundo aquilo que li, é um dos lugares mais difíceis de invadir. O seu território acaba por ser um tecido vivo, que ao longo da história vai encolhendo e expandindo. Portanto, há este território que é pequeno, que foi continuamente sendo invadido e consequentemente protegido, porque as muralhas foram aumentando. E sabendo que hoje é um país aberto, ou seja, essas fronteiras deixaram de ser óbvias, eu olho para o país e pergunto-me: “Hoje em dia, que outras formas de muralhas e fronteiras é que estamos a construir?”. No período em que estou a fazer aqui a residência, faz trinta anos da queda do muro de Berlim. Cai o muro de Berlim, mas também cai a possibilidade de a Europa resgatar migrantes do mar. Então que muralhas é que estamos a construir? À parte disto, também passei pela própria ideia de perceber a língua em si, que também é uma forma de construção de muralhas. Neste caso, o luxemburguês acaba por criar uma espécie de identidade cultural num país em que a maior parte dos habitantes são imigrantes.

Os próprios materiais utilizados para este projeto têm também uma relação com o território do país.

Sim. Além do papel de transferência, um dos materiais que utilizo é a cera de abelha. Quando cá cheguei, fiz questão de trabalhar com cera produzida no Luxemburgo. Então encontrei um arquiteto paisagista que por sua vez nos tempos livres é apicultor. Comprei-lhe dez quilos de cera. Esta ideia de introduzir no meu trabalho uma matéria que fosse representativa do território, da sua paisagem, da sua flora, interessava-me a nível conceptual. E hoje em dia os insetos na Europa estão em decréscimo. E essa ideia também vem tocar no trabalho, que é perceber de que forma é que o território humano e o território selvagem estão em choque. Então há esta ideia de pensar o que é importante e o que não é, de pensar salvaguardar qualquer coisa. Vemos o Bolsonaro a abrir completamente as fronteiras da Amazónia. Em vez de tentarmos estancar a nossa necessidade voraz de matéria, estamos a abrir ainda mais.

Cera de abelha produzida no Luxemburgo
Foto: Sibila Lind

 Além das questões do território, também existem questões políticas na base do trabalho?

O meu trabalho não é político, mas acabo por pensar nestas coisas porque é inevitável. Mas todo o trabalho é político, porque é uma forma de olhar para o mundo e a partir daí é uma forma política. Acho que a humanidade está num momento que nunca passou na História, um momento essencial. É o momento em que, em menos de uma geração, temos de tentar equilibrar os nossos estragos ambientais. E nós somos muito difíceis, temos os nossos hábitos, mas cada vez mais somos obrigados a repensar a nossa forma de estar. Eu não sou um “stressado” do clima, mas tendo a refletir muito sobre essas questões. Porque estamos no momento de viragem histórica da humanidade e nós fazemos parte da geração que tem isso nas mãos. E estando aqui no castelo, muitas vezes penso que estamos na Idade Média. Estamos completamente no escuro. Se isto se vai refletir diretamente no trabalho, não, mas está lá tudo.

Por falar em "estragos ambientais", usa plástico no seu trabalho?

Uso, mas na obra final não. Tem papel que também é preciso repensar… Mas não vou ser extremista. É preciso manter uma certa lucidez mas também é preciso repensar e orientar para outras dinâmicas.

A nível cultural, em Portugal, 2018 foi um ano marcado pelos atrasos nos apoios estatais que agravaram as condições de trabalho de algumas estruturas artísticas. Na semana passada, foi inclusive divulgado um abaixo-assinado a pedir a demissão da ministra da Cultura. Perante este cenário instável, é possível ser artista em Portugal?

Há poucas pessoas que conseguem sobreviver da arte em Portugal, nós não temos um mercado de arte desenvolvido. Este ano, fui servir em eventos para ganhar mais uns trocos. Mas prefiro trabalhar cinco horas, ganhar algum dinheiro e depois ter tempo para fazer mais algumas coisas. Mas é sempre um equilíbrio muito frágil. Porque hoje em dia ter tempo, muitas vezes quer dizer que não temos dinheiro, e ter dinheiro quer dizer que não temos muito tempo. E o equilíbrio entre tempo e dinheiro é difícil em Portugal. E na Madeira nem se fala.

A língua também é uma forma de construção de muralhas. Neste caso, o luxemburguês acaba por criar uma espécie de identidade cultural num país em que a maior parte dos habitantes são imigrantes.

 Como foram estes dois meses no Luxemburgo?

Inicialmente senti-me isolado, porque vinha com uma dinâmica muito grande e de repente parei. Estava aqui e tinha todo o tempo, num espaço onde não acontece quase nada. Mas como é evidente, é uma experiência muito interessante, é quase como um retiro. E eu estava a precisar deste retiro. Estava a precisar de parar. E gostava que a minha vida fosse exatamente assim, poder ter espaço, tempo e dinheiro, para poder produzir um corpo de trabalho mais consistente. E o facto de ter uma comunidade portuguesa muito grande também me trouxe uma certa familiaridade. Posso beber o meu cafezinho, comer o meu pastel, o que faz com que não me sinta assim tão longe das coisas.

Depois desta primeira experiência de uma residência artística, ficou a vontade de fazer mais residências noutros países?

Eu agora não quero outra coisa [risos].