Escolha as suas informações

O fado de Magaly, a nova estrela do Luxemburgo

  • Prólogo: "Quero ir para casa"
  • Primeiro ato: “Oh António, agora é para Paris!”
  • Segundo ato: “Se quiseres, a personagem é tua”
  • Terceiro ato: “E agora o que vou fazer com a minha vida?”
  • Quarto ato: “Ok, depois conversamos”
  • Epílogo: “É ali que eu quero ficar”
  • Prólogo: "Quero ir para casa" 1/6
  • Primeiro ato: “Oh António, agora é para Paris!” 2/6
  • Segundo ato: “Se quiseres, a personagem é tua” 3/6
  • Terceiro ato: “E agora o que vou fazer com a minha vida?” 4/6
  • Quarto ato: “Ok, depois conversamos” 5/6
  • Epílogo: “É ali que eu quero ficar” 6/6

O fado de Magaly, a nova estrela do Luxemburgo

O fado de Magaly, a nova estrela do Luxemburgo
Atriz

O fado de Magaly, a nova estrela do Luxemburgo


por Tiago RODRIGUES/ 05.01.2022

Magaly Teixeira, 31 anos, é uma atriz lusodescendente, nascida no Luxemburgo, que está a brilhar na Netflix.Foto: Rui Oliveira

É uma das mais promissoras atrizes lusodescendentes. Faz teatro, cinema e televisão e foi nomeada para o prémio de melhor atriz dos “óscares” do Luxemburgo. É da terceira geração de uma família de emigrantes portugueses no Grão-Ducado. No fado encontrou uma forma de cantar o seu amor por Portugal, a casa para onde sonha um dia voltar.

1

Prólogo: "Quero ir para casa"
Copiar o link

Há um ritual que Magaly cumpre religiosamente antes de entrar em cena. Uma hora antes do espetáculo, tem de estar sozinha, a ouvir fado. Coloca os fones nos ouvidos e deita-se no palco. Está no mundo dela. Na maior parte das vezes, ouve Ana Moura. É uma voz que a faz viajar, que lhe dá aconchego. Precisa de a ouvir para entrar dentro de si. Para estar próxima de si. Algo que a faça lembrar quem é e de onde vem.

Quem é a Magaly? “É a pergunta que eu mais detesto!”, responde, entre risos, antes de abrir a cortina da história de uma lusodescendente que cresceu no Luxemburgo, mas sempre sentiu que Portugal era a sua casa. A sua vida podia ser uma peça de teatro. Ou um filme. Ela faz parte da terceira geração de uma família de emigrantes portugueses no Grão-Ducado.

Primeiro chegou o avô materno. Vinha de Azenha Nova, uma pequena aldeia na Figueira da Foz, à procura de uma vida melhor. Trabalhou mais de quatro décadas no aeroporto. A mãe de Magaly só chegou depois, com apenas um ano, e já cresceu no novo país. O avô paterno também emigrou para o Luxemburgo para fugir à tropa. E o pai, de Alijó, chegaria já com 17 anos, depois de experiências nas vindimas em França.

Os pais de Magaly Teixeira conheceram-se embalados pela música no rancho folclórico Mocidade Portuguesa, do qual o avô era presidente. Casaram muito jovens, ela com 18 anos e ele sete anos mais velho. A mãe é cabeleireira e o pai é o responsável na área de frutas e legumes nos mercados para a Provençale. Vivem em Schouweiler, no sul, numa casa que construíram há 20 anos.

Foto: Rui Oliveira

Magaly nasceu no Luxemburgo, um ano depois do casamento dos pais. É a mais velha de três irmãos. Hoje ela tem 31 anos. A irmã, hospedeira de bordo na Luxair, tem 28 e o irmão, que está a estudar Direito em Nancy, tem 21. Os três tiveram uma infância muito próxima de Portugal. “Primeiro através da escola portuguesa, porque ainda sou da geração em que os pais nem perguntavam aos filhos se queriam ou não. Era escola luxemburguesa de manhã e escola portuguesa à tarde”, recorda a atriz. Foi lá que começou a fazer teatro, tinha nove ou dez anos. A primeira peça foi a história da Carochinha e do João Ratão, para uma festa de Natal. Cresceu com a literatura, a gastronomia, a música portuguesa. E com as viagens de carro a Portugal, todos os meses de agosto.

Tenho um sonho de vida que é ir viver e trabalhar em Portugal. Gosto muito de estar no Luxemburgo, mas quero ir para casa.

Magaly Teixeira

Fez todo o percurso escolar no Luxemburgo. Aprendeu seis línguas. Teve uma infância muito ligada à arte. Praticou ballet e danças de salão durante 11 anos. Chegou mesmo a ponderar seguir a via profissional na dança, mas depois de obter o diploma de Gestão, decidiu ir para a faculdade em Paris, em 2010. Estudou comunicação, tradução portuguesa e teatro lusófono na Universidade Sorbonne. Foram três anos “à seca”, mas era um pedido dos pais. “Fui assim de cabeça para Paris, não estava nada preparada”, relembra. Na capital francesa conheceu a sua primeira encenadora e lá começou a carreira como atriz. Em 2013 foi para o conservatório Charles Munch e, durante quatro anos, aprendeu todas as técnicas do teatro clássico e contemporâneo. “É uma grande base da minha bagagem artística”.

Ao fim de oito anos em Paris, voltou para o Luxemburgo, em 2018. Desde então tem estado mais envolvida em projetos de cinema. “Isso também se deve ao facto de a produção de filmes ter crescido tanto no país”, explica. Participou em projetos como a média-metragem “Até para o ano”, do realizador lusodescendente Philippe Machado, e a série belgo-luxemburguesa da Netflix “Coyotes”, que lhe valeu a nomeação para melhor atriz nos Lëtzebuerger Filmpräis, os “óscares” do Grão-Ducado.

Porém, Magaly está “farta de estar” no país. “Tenho um sonho de vida que é ir viver e trabalhar em Portugal. Quero mesmo saber como é viver num sítio onde as pessoas são como eu, falam como eu. Gosto muito de estar no Luxemburgo, mas quero ir para casa”.

2

Primeiro ato: “Oh António, agora é para Paris!”
Copiar o link

Quando era miúda, Magaly detestava fado. Lembra-se bem das viagens de 25 horas no carro a ouvir Amália. Todos os verões ia para a aldeia, fosse na Figueira ou em Alijó, no Norte. A geração da mãe tinha muitos primos, que cresceram todos juntos, então a lusodescendente acabou por ter a mesma experiência com os primos em segundo grau. Tinham a mesma idade e passavam meses na aldeia.

Apesar de ter nascido e crescido no Luxemburgo, Magaly teve uma educação muito portuguesa. “O meu pai cozinha muito bem e sempre quis transmitir-nos a cultura portuguesa através da gastronomia, da música. Sempre vimos televisão portuguesa em casa, os meus livros de criança sempre foram em português”, conta.

Magaly recorda o dia em que chegou a casa com o diploma do ensino secundário e encontrou o pai à espera com uma garrafa de champanhe. “Então e agora?”, perguntou ele. “Oh António, agora é para Paris!”, respondeu ela. E foi logo. Fez as malas e no dia a seguir os pais levaram-na de carro até França. “Não sabia em que sítio ia ficar, não percebia nada dos metros, fui à toa. São coisas que têm de ser feitas com aquela idade”, reconhece.

A pouco e pouco comecei a perceber que temos uma maneira mesmo diferente de lidar e que isso vem mesmo da nossa cultura, da literatura, do teatro, das tradições.

Magaly Teixeira

A ideia era ficar apenas três anos, tempo de terminar o curso de comunicação e teatro. Mas foi ficando. Esteve no Conservatório durante quatro anos. Envolveu-se em projetos, criou uma companhia de teatro e fez uma digressão, até chegar ao Festival de Avingon, o maior festival de teatro da Europa. No total, foram oito anos em França. 

Foi assim que começou a sentir uma ligação mais forte a Portugal. Ao fado. “A pouco e pouco comecei a perceber que temos uma maneira mesmo diferente de lidar e que isso vem mesmo da nossa cultura, da literatura, do teatro, das tradições. Esta partilha que nós temos através da gastronomia, do convívio. E o fado vem com isso também”, diz Magaly.

Foi no fado que encontrou uma maneira de exprimir a sua estranha forma de vida. “Primeiro a partir do texto, porque para mim é poesia posta em música. Foi a maneira mais profunda que arranjei para exprimir a saudade. É um pouco cliché, mas vai mais longe do que isso”, confessa.

Em criança, Magaly já “cantava qualquer coisa” no quarto, com uma escova de pentear, em frente ao espelho. Na altura, eram músicas pop, como Céline Dion. A paixão pelo fado veio mais tarde. “Uma vez, em Paris, tinha ido passear com a minha melhor amiga e encontrei uma tasca portuguesa. A dona era uma senhora muito querida, a Cândida, de Felgueiras. Estávamos lá a comer uns bolinhos de bacalhau e a minha amiga disse-lhe que eu cantava fado. E a Cândida pediu-me para cantar. Eu já tinha bebido um copo de vinho do Porto. Levantei-me e cantei para ela e para as pessoas que estavam na tasca. Foi a primeira vez, quando abri os olhos, que vi o efeito que tinha provocado nas pessoas. E pensei: ‘fui eu que fiz isto?’ A partir daí, fui ganhando coragem e cantando mais”, recorda.

3

Segundo ato: “Se quiseres, a personagem é tua”
Copiar o link

Quando ouve ou canta o fado, Magaly lembra-se do avô e das histórias que contava sobre o tempo em que emigrou para o Luxemburgo. “Gosto muito de ouvi-lo falar e contar o percurso para cá chegar. É muito inspirador”. Foi assim que criou uma ligação especial com a música. “Comecei a perceber o que se dizia, de onde é que vinha, a história. Foi uma maneira muito forte de me ligar a Portugal”, assume a atriz, que no fado encontrou uma maneira de exprimir a arte diferente do cinema ou do teatro. “Cantar fado é… nem sei explicar… dá-me um sentimento de estar muito ligada às nossas raízes. Por ser uma tradição tão antiga e pela poesia do que nós contamos”, disse, com os olhos brilhantes.

Em Paris, Magaly cantava muitas vezes à capela. Anos mais tarde, foi convidada a cantar fado numa das cenas do filme “Até para o ano”, do jovem realizador lusodescendente Philippe Machado. “O filme era muito autobiográfico, era mesmo a história do Philippe e a relação que a nossa geração tem com Portugal. Falamos durante horas, não foi bem um casting, e ele diz-me ‘se quiseres, a personagem é tua’”.

Foto: Rui Oliveira

A primeira vez que cantei acompanhada foi um dos momentos mais bonitos da minha vida. A família veio de Portugal, a sala estava cheia, foi uma noite de emoção.

Magaly Teixeira

A sua personagem era a Flávia, que na vida real é a irmã do Philippe, revelou. Foi o realizador que pediu à atriz para cantar num momento em que está com os primos a descascar batatas para jantar e um deles diz: “Olha, anda lá, canta-nos um fado!”

Foi o próprio Philippe que escreveu o texto e o diretor de imagem, que também é músico, fez a melodia. “Na antestreia do filme, cantei quatro ou cinco temas de fado com o Joaquim Caniço, que é um grande guitarrista português, e o Miguel Braga, que já tocou com muitos artistas portugueses. Foi a primeira vez que cantei acompanhada e foi um dos momentos mais bonitos da minha vida. A família veio de Portugal, a sala estava cheia, foi uma noite de emoção”, relembra.

Apesar disso, Magaly nunca ponderou viver só da música. “Mas gostava de cantar mais do que canto agora. Tanto dentro como fora da representação. Gostava de ter mais projetos com o fado”.

Durante a infância andava sempre a “cantarolar”, mas era muito mais dedicada à dança. “Estive sempre ligada à música e ao teatro físico. A dança foi muito importante, porque na adolescência temos uma relação complicada com o corpo e atravessei essa época toda com a dança. Foi uma maneira de aprender a conhecer o meu corpo e a energia que dava às pessoas”, reconhece.

Há uma nova geração de fadistas que tem vindo a crescer em Portugal que leva esta arte pelo mundo. O fado não vai morrer com a geração da Amália.

Magaly Teixeira

Quando foi para Paris, teve de decidir se seguia a carreira na dança, porque já dançava há 11 anos, portanto “ou virava profissional e só fazia aquilo para o resto da vida ou então ia para o teatro”. Mas ela não se imaginava a ser bailaria. “Sempre gostei muito de dançar, mas eu preciso de falar, de utilizar o instrumento todo, o corpo, a voz, a mente. No teatro posso fazer as duas coisas. Durante a minha formação, tive muito teatro físico, dançado. Sentia que tinha uma facilidade em trabalhar com o meu corpo em cena, porque cresci a aprender a trabalhar com ele através da dança”, justifica.

Quanto ao fado, Magaly sabe que o futuro está bem entregue. “Há uma nova geração de fadistas que tem vindo a crescer em Portugal que leva esta arte pelo mundo e que chega a outro tipo de público. O fado não vai morrer com a geração da Amália”, assegura.

4

Terceiro ato: “E agora o que vou fazer com a minha vida?”
Copiar o link

Durante os anos que viveu em Paris, criou a companhia de teatro “Goûdu Theatre” e desenvolveu vários projetos, como “Brasserie”, de Koffi Kwahulé, que apresentou em teatros e festivais franceses de renome. Em 2017, termina a sua formação como atriz profissional. Quando acabou o conservatório “foi um choque”. “Pensei: ‘E agora o que vou fazer com a minha vida?’ Foram oito anos no total. Com o tempo fui criando uma família artística”, conta.

No dia em que fez o exame, não sabia o que ia fazer a seguir. Sabia apenas que queria sair de França. “Senti que o meu tempo em Paris tinha acabado. Estava cansada de lá estar. Quando vives numa cidade como aquela, chega um tempo em que já não aproveitas a cidade, apenas sobrevives naquele stress constante”.

Estava com dificuldade em aceitar que tinha de voltar para o Luxemburgo. Foi um sentimento de ‘não consegui’.

Magaly Teixeira

Os tempos que se seguiram na vida de Magaly foram difíceis. Carregados de dúvidas. “Estava com dificuldade em aceitar que tinha de voltar para o Luxemburgo. Foi um sentimento de ‘não consegui’. Pensei no que é que ia fazer para o Luxemburgo, já não estava lá há tanto tempo…”, lembra, com alguma angústia. 

Passou-lhe pela cabeça ir a casa dos pais só deixar os caixotes, pegar nas malas e partir para Lisboa. E foi isso mesmo que fez. “Peguei nas minhas coisas e fui três meses assim à toa para Portugal, só com as malas, de autocarro. Sem destino. Ia para casa dos meus avós durante um tempo, depois passei uns castings para a TVI”. Tinha pensado concorrer para uma telenovela. “Nos últimos anos têm melhorado muito. As novelas continuam a fazer parte da cultura popular portuguesa. É como o fado, a nossa língua, a nossa poesia”, assegura.

Ir trabalhar para Portugal e participar numa telenovela era uma experiência que Magaly queria há muito tempo. Mas o facto de ser uma lusodescendente do Luxemburgo e ter vivido tantos anos em França criou uma crise de identidade. “Tenho sempre algum medo de ser demasiado estrangeira. Em Paris, eu era a emigrante. Diziam que não era bem francesa e que não sabiam bem o que fazer comigo. Ouvi isso muitas vezes. E em Portugal tenho medo de ser vista como a filha de emigrantes. No Luxemburgo também não sou luxemburguesa. É algo que só nós emigrantes é que sentimos, esta coisa de não saber bem onde é a nossa casa”, desabafa, acrescentando que é para ela “interessante trabalhar com esta questão de identidade”.

Passar aqueles três meses em Portugal fez-lhe bem, porque o “choque de sair de Paris foi enorme”. Depois voltou para casa dos pais, no Luxemburgo. É lá que tem a sua coleção de peças dramáticas, o seu “tesouro”. “É o que tenho de mais importante na minha vida”, garante. Magaly gosta de escrever, faz-lhe “bem à alma”. Mas odeia ler. Desde miúda que detestava ler livros na escola. Só quando descobriu o teatro é que se deu a leituras. “É outra maneira de descobrir um livro. Podes logo pôr-te no lugar da personagem. Outras coisas, como um romance, não consigo ler. Preciso de mais interação”, assume, revelando aquela que é a sua grande referência literária: “Sou uma grande fã de Fernando Pessoa”.

Há dois anos que está a desenvolver um projeto com uma companhia de teatro em Paris com a peça “O Marinheiro”. “É a obra mais completa do Fernando Pessoa, porque ele começou muita coisa que nunca acabou. É conhecida pela obra estática, porque realmente não se passa nada durante a peça. Trata do questionamento do Fernando Pessoa durante a vida dele, aquela ideia de onde é que é a linha do fim entre a realidade e o sonho. Quando é que estamos a sonhar e quando é que é real. É uma peça linda de morrer”, afirma. Magaly conheceu Marie Duverger, que é a encenadora e também entra na peça, que tinha descoberto que o avô que acabara de falecer era lusodescendente e que guardava aquela peça no sótão.

Juntas prepararam a peça em francês e português para levá-la ao teatro. Com uma pequena nuance. “Decidimos que a maneira mais forte e mais intensa de levar esta poesia às pessoas era tirar-lhes a possibilidade de ver. Criámos um espaço antes da entrada onde vendávamos as pessoas e levávamos uma a uma connosco para o palco. As pessoas iam vivendo de maneira muito pessoal esta viagem. Com cheiros, com toques, ouvindo aquelas três vozes espalhadas pela sala. Também canto fado durante a peça. Vamos passando com eucalipto, com café, com os cheiros portugueses. As pessoas não veem o cenário do início ao fim”, descreve.

Quando a peça acaba e as pessoas tiram as vendas dos olhos, as reações são mistas. “Umas ficam mesmo eufóricas, outras ainda estão no sonho. A primeira reação muitas vezes é dizerem ‘obrigado por esta viagem!’ Lembro-me de um casal americano que foi ver em Paris e eles não percebiam uma palavra de português nem de francês. Saímos à rua para agradecer e eles abraçaram-nos com muita força e só disseram ‘thank you, you made me cry, this was beautiful’. Não perceberam uma palavra, mas a força com que foi transmitida a mensagem foi muito intensa”, recorda. Depois de uns meses de paragem, a peça foi retomada em setembro com três espetáculos no sul de França. Agora o objetivo é levá-la a outros palcos. “Era um projeto que gostava mesmo muito de levar ao Luxemburgo ou a Portugal” .

5

Quarto ato: “Ok, depois conversamos”
Copiar o link

Magaly não sabe precisar o momento em que percebeu que queria ser atriz. Sabe apenas que sempre quis ir para Paris e estar na área da representação. “Não sabia como, porque na minha família ninguém vem desta área. Não sabia como lá chegar, mas o caminho foi-se fazendo”, reflete. Pensou muitas vezes em desistir, sobretudo durante a pandemia. “A época da covid foi muito difícil. Ainda não estava bem integrada no sistema luxemburguês e não tinha direito a nada. Mas depois chegou a oportunidade da série Coyotes”.

Chamaram-na para o casting. Era a primeira vez que a lusodescendente ia trabalhar com uma grande produção belgo-luxemburguesa, para a Netflix. “Primeiro mandei uma gravação e depois chamaram-me para conhecer os realizadores, o Jacques Molitor e o Gary Seghers. Cheguei lá, fiz a cena e eles olharam e disseram ‘ok, depois conversamos’, mas o Gary piscou-me o olho. Foi o meu primeiro grande projeto em televisão”, assinala. 

Foi muito difícil [gravar durante a pandemia], porque tínhamos muitas regras, éramos testados a cada dois ou três dias. De um dia para o outro, podia alguma das personagens principais ter covid e acabava tudo.

Magaly Teixeira

A personagem que interpretou era Dona Valentini, uma “badass girl”. “Foi uma personagem que adorei. Tive muita sorte, porque o Jacques e o Gary deram-me muita liberdade para pôr Magaly dentro da personagem”.

Apesar de parecer uma jovem marginal, a Dona Valentini também tem um lado bom. “Cuida imenso dos irmãos, um deles com deficiência física, eles perderam os pais. Pude trabalhar imenso com a emoção e a equipa foi fantástica”, relembra. A série estreou primeiro na televisão belga e desde o início de dezembro está na Netflix. “Foi uma surpresa”, reconhece a atriz, recordando o “desafio enorme” que foi gravar durante a pandemia. “Foi muito difícil, porque tínhamos muitas regras, éramos testados a cada dois ou três dias. Era uma equipa de mais de 80 pessoas, a gravar durante três meses. De um dia para o outro, podia alguma das personagens principais ter covid e acabava tudo”.

Foto: Rui Oliveira

Além de “Coyotes”, Magaly vai ter uma outra participação numa série da Netflix, agora na segunda temporada da produção luxemburguesa Capitani, que estreia a 22 de fevereiro. “Só tive dois dias de gravação, mas foi uma experiência muito boa”, revela.

Também este ano, vai estrear no Luxembourg City Film Festival, em março, a curta-metragem “Nucléaire”, escrita por uma grande amiga de Magaly, a lusodescendente Roxanne Peguet. “Somos três atores, eu, o Konstantin Rommelfangen e o Jules Waringo, e vai ser fantástico. É uma história de um triângulo amoroso entre um casal e outra pessoa, que é andrógina. É uma explosão de emoções fortes. Estamos muito ansiosos, porque achamos que o público vai gostar imenso”, admite, revelando que a equipa até já escreveu um próximo filme, com os mesmos atores, que espera poder gravar no verão.

Por enquanto, a atriz tem estado a trabalhar como assistente de produção no teatro nacional do Luxemburgo. Pelo meio, vai fazendo algumas dobragens de desenhos animados e filmes, em português e francês. E já tem outros projetos em perspetiva. “Passei a um casting com o Jorge Andrade, que é um grande ator e encenador português, no Luxemburgo, e fui escolhida para o próximo projeto que ele e a Rita Reis, que também é lusodescendente, vão fazer em coprodução com o teatro de Esch, em abril”, conta.

6

Epílogo: “É ali que eu quero ficar”
Copiar o link

A relação que Magaly tem com o Luxemburgo é uma espécie de “amor-ódio”. Sempre se sentiu bem no país, teve tudo o que precisou para crescer. “É como se lá tivesse feito as minhas armas, mas não é lá que eu quero estar. Sou muito ligada ao mar, preciso imenso do mar. Falta-me aquela coisa de sair do trabalho ao fim do dia e ir tomar uma bica a olhar para o mar”.

No Luxemburgo não há isso, “somos muitos caseirinhos”, explica. A atriz sabe que vai ter sempre “um sítio” no Grão-Ducado, mas “não é casa”. “Para mim, casa é em Portugal. Seja no Porto ou em Lisboa, em Alijó ou na Figueira. Se me dissessem que só tinha 24 horas para viver e perguntassem o que queria fazer, eu diria que queria ficar a olhar para o mar, em Portugal”, garante.

O regresso a Portugal também seria uma forma de mostrar aos pais que o esforço que fizeram valeu a pena. “Pelo facto de os meus pais terem sacrificado tanta coisa e terem tido que sair do país para encontrar uma vida melhor, acho que a prenda mais bonita que lhes posso dar é mostrar que eles conseguiram”. Eles ainda estão no Luxemburgo, mas o pai entrou na reforma no fim do ano e “vão começar a passar mais tempo em Portugal”. Ainda não querem voltar de vez, mas é uma questão de tempo. “Eles têm a vida deles e não querem ir para Portugal para fazer um quintal e ficarem fechados na aldeia. Gostavam de viajar e ainda têm saúde e oportunidade de o fazer”, explica Magaly.

Foto: Rui Oliveira

Temos muitos textos lindíssimos aí a apanhar pó nas gavetas, que mereciam ser vistos em palco ou na televisão. Acho que há um futuro muito lindo para os palcos e para a arte em Portugal.

Magaly Teixeira

Para a atriz, no entanto, o tempo de voltar já chegou. “Se me dissessem para me mudar para Portugal amanhã, deixava já tudo”, assegura. “Fazemos tanto mais com muito menos. Temos muitos textos lindíssimos aí a apanhar pó nas gavetas, que mereciam ser vistos em palco ou na televisão. Acho que há um futuro muito lindo para os palcos e para a arte em Portugal”. Magaly gostava de fazer parte desse futuro. Entrar numa telenovela e passar muito tempo no mesmo projeto. “Nem que seja por orgulho nacional. Acho que também era um sonho dos meus avós poder ver-me na televisão. São os meus primeiros fãs. Se não fossem eles, eu não estava onde estou”.

Os avós já estão em Portugal. Voltaram para a aldeia na Figueira, depois de mais de 40 anos no Luxemburgo. “É um sítio onde o tempo parou. Quando preciso de recarregar baterias, é lá que eu vou. É um alívio entrar naquela aldeia”, confessa. Mas não é lá que Magaly quer assentar. Quer viver no Porto ou em Lisboa. Não consegue escolher, porque “são tão diferentes”. “Lisboa é uma capital, tem uma mentalidade diferente, mas o calor das pessoas no Norte não tem igual”, garante.

Seria uma das duas cidades, desde que não esteja longe do mar. “Sinto que depois destes anos todos longe, chego a uma idade em que penso que é mesmo ali que eu quero estar. É ali que eu quero ficar”. O destino o dirá. Como canta o “Desfado” de Ana Moura, o seu fado é não ter fado nenhum. O teatro da vida continua lá fora. Mas está cada vez mais perto. Então, muita merda, Magaly. O palco é teu.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Pedro Martins Beja é um autor e encenador filho de emigrantes e nascido na Alemanha. Com trabalho em vários teatros europeus, estreou no Luxemburgo e leva a Portugal em dezembro uma peça na qual se questionam a ideia de identidade e as relações do emigrante com o país de origem.
No filme “Até para o ano” canta o fado, mas é uma polivalente que adora a cultura portuguesa e escreveu uma série para televisão. Um dia da vida de Magaly é uma correria: pode trabalhar numa loja de roupas na capital; partir um prato na gravação de um videoclip e ter uma reunião com um produtor.