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O fado de Amália
Editorial Cultura 2 min. 23.10.2019

O fado de Amália

O fado de Amália

Editorial Cultura 2 min. 23.10.2019

O fado de Amália

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Os homens e mulheres em tempos difíceis comportam-se de uma forma menos transparente e mais complexa que as vulgatas históricas, feitas nos sofás de hoje, achariam ser normal.

Recentemente, o conselho comunal de Differdange preferiu não dar o nome de Amália Rodrigues a uma rua desta localidade luxemburguesa, com a justificação, segundo o conselheiro comunal Gary Diderich, que “informámo-nos junto da comunidade portuguesa para saber quem é essa pessoa e aí recebemos reações contraditórias. Nem todos estão de acordo sobre o papel de Amália durante a ditadura de Salazar”, disse Gary Diderich ao Contacto. “Ela não era, segundo as nossas informações, uma colaboradora do regime, mas também não era uma pessoa que estivesse na resistência, e era um cartão-de-visita do regime”, considera o também porta-voz do déi Lénk .

Numa altura em que se assinalam os vinte anos da morte da fadista, uma reportagem de investigação da revista Visão feita pelo jornalista Miguel Carvalho dá uma outra luz sobre a forma como Amália Rodrigues viveu durante o regime de Oliveira Salazar e, ao mesmo tempo, manteve relações clandestinas com a oposição, apoiando intelectuais oposicionistas.

Na investigação, feita com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, são apresentados documentos oficiais que tanto confirmam que Amália Rodrigues foi vigiada pela PIDE, a polícia política da ditadura do Estado Novo, por suspeita de apoio aos comunistas, como revelam que manteve atitudes propositadamente ambíguas com o regime e os seus dignitários.

Um dos testemunhos recolhidos, na reportagem, é o do histórico dirigente do PCP Domingos Abrantes - o destacado militante comunista saiu, com outros detidos, da prisão de Caxias numa fantástica fuga em que os presos utilizaram o carro blindado de Salazar - que afirma ser “um facto confirmadíssimo” que Amália Rodrigues, por exemplo, ajudou o MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática).

“Ela sabia para o que estava a dar”, garantiu Domingos Abrantes, 83 anos. “E nessa época de grande repressão, tudo o que era mais ou menos organizado estava ligado ao PCP. O resto é conversa”, afirmou.

É ainda revelada, na Visão, uma carta do arquivo de Oliveira Salazar, “até hoje inédita”, que Amália Rodrigues lhe escreveu dias antes da inauguração da atual ponte 25 de Abril, em 1966, e na qual, escreve o jornalista Miguel Carvalho, a artista “se derrete de orgulho pátrio e elogios ao destinatário”.

Uma investigação que para além das contradições da cantora, revela as vicissitudes de uma época e as formas como várias vezes Amália se posicionou. Como diz ao Contacto, o autor da reportagem , Miguel Carvalho, “quem canta como cantou o Fado de Peniche”, como ficou conhecida a letra de David Mourão Ferreira, “quem canta em situações difíceis poetas como o Sidónio Muralha ou poetas espanhóis perseguido pelo franquismo” não podia ser inconsciente do que se passava.

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