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O direito a fazer piadas de mau gosto
Opinião Cultura 4 min. 30.03.2022 Do nosso arquivo online
Andamos todos ao mesmo

O direito a fazer piadas de mau gosto

O momento em que Will Smith esbofeteou o comediante Chris Rock durante a cerimónia dos Óscares no domingo passado, depois de Rock ter feito uma piada sobre a mulher do ator.
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O direito a fazer piadas de mau gosto

O momento em que Will Smith esbofeteou o comediante Chris Rock durante a cerimónia dos Óscares no domingo passado, depois de Rock ter feito uma piada sobre a mulher do ator.
Foto: AFP
Opinião Cultura 4 min. 30.03.2022 Do nosso arquivo online
Andamos todos ao mesmo

O direito a fazer piadas de mau gosto

A lei e o bom senso – que, como sabemos, foi muito mal distribuído à nascença – devem determinar até onde se pode ir numa piada. Esse limite nunca pode ser traçado à custa de chapadas.

(Paulo Farinha)

Lembram-se da tragédia de Entre os Rios? Aquela que, numa noite de tempestade de março de 2001, levou 59 pessoas para a morte escura no fundo do Douro? Há piadas sobre isso.

E do Kursk, o submarino nuclear russo que naufragou em agosto de 2000 depois de um acidente a bordo, vitimando os 118 tripulantes. Também há piadas sobre isso. E até há piadas que juntam, na mesma anedota, o autocarro que se precipitou da ponte Hintze Ribeiro à embarcação que ficou no fundo do Mar de Barents, ao largo da Noruega.

E sabem de outro acontecimento sobre o qual há igualmente piadas? Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, que mataram quase três mil pessoas.

Lembro-me bem de algumas graçolas em torno destes três acontecimentos porque, concentradas no espaço de um ano no início dos anos 2000, foram pretextos que sempre me deixaram perplexo sobre três coisas: a rapidez com que alguém é capaz de se lembrar de uma piada a partir de uma tragédia, a falta de sensibilidade para a dizer em público e – raios! – o facto de me ter rido de algumas delas.

É de espantar a quantidade de gente que continua a achar que um chapadão pode ser normalizado e relativizado. É de espantar a quantidade de gente que defende a violência como solução para o que quer que seja.

Também me lembro daquele almoço de Natal da empresa, em 2001, em que me levantei durante o número de um humorista e saí para o exterior porque fiquei desconfortável com uma piada sobre o 'falling man', o homem que se terá atirado de uma das Torres Gémeas e foi fotografado naquele famoso voo para a morte imortalizado num documentário e numa reportagem extraordinária na revista Esquire.

É assim, o humor. Serve para fazer rir. Sobre tudo. Mesmo que tentemos contrariar a vontade. Mesmo que o apelemos ao bom senso interior para colocar um filtro que não deixe o riso sair. Mesmo que fiquemos inquietos, desassossegados, nauseados pelas gargalhadas construídas em cima da morte de alguém. Se podemos fazê-lo? Claro que sim. Se deveria haver limites para isso? Claro que não.

O recente Tabu, o programa (disponível também no site da SIC) em que Bruno Nogueira faz piadas incisivas com pessoas que têm doenças incuráveis, deficiências, obesidade, adições e outros comportamentos ou limitações (estou ansioso por ver os próximos) é um bom exemplo disso. Há quem diga que o humorista goza descaradamente com os problemas alheios. Eu prefiro achar que ele nos ajuda a refletir sobre eles. Enquanto nos rimos.

Em circunstâncias "normais" (o que quer que isso seja) talvez tudo aquilo nos incomodasse. Mas o facto de ser embrulhado com doses generosas de sensibilidade e longas conversas com os protagonistas faz-nos repensar a coisa. E, de repente, estamos a tirar do armário e a normalizar temas de que habitualmente só falamos com pena ou paternalismo. Ou de que nem sequer falamos. Sem darmos por isso, estamos a pensar naqueles obstáculos terríveis, a debater sobre eles e a rirmo-nos deles com aquelas pessoas. Não nos estamos a rir delas. Estamos a rir-nos com elas. E isso faz toda a diferença.


Will Smith esbofeteia Chris Rock na cerimónia dos Óscares.
Will Smith esbofeteou Chris Rock em direto na cerimónia dos Óscares (vídeo)
Smith, que foi premiado com o Óscar de Melhor Ator, agrediu o humorista depois de este ter feito uma piada sobre a sua mulher, a também atriz Jada Pinkett Smith.

Na noite dos Óscares, o mundo (uma parte do mundo, a que se pode dar ao luxo de se ocupar com 'first world problems' [problemas de primeiro mundo]) escandalizou-se com a chapada de Will Smith ao humorista Chris Rock na sequência de uma piada deste sobre a mulher do ator. Foi o humor de Rock que motivou aquilo? Foi. E ao menos foi uma piada engraçada? Naaaa. Foi só parva. Uma coisa sobre a alopecia da atriz, assim, a seco, sem contexto. Foi apenas um momento infeliz. Seguido de outro ainda mais.

Caramba, ninguém pode tirar a ninguém o direito de fazer graçolas parvas ou infelizes. Ai de nós no dia em que não as pudermos fazer. Ai de nós no dia em que, no exercício desse direito inalienável que é a liberdade de expressão, não pudermos ofender alguém. E depois, claro, sujeitarmo-nos às consequências legais. E pagar por isso, se for o caso. Na barra do tribunal ou na exposição pública. Mas não à custa de chapadas.

No meio de todo este frisson lamentável, é de espantar a quantidade de gente que acredita que Will Smith apenas defendeu a honra da mulher e que a bofetada terá sido um abre-olhos para Chris Rock aprender uma lição. É de espantar a quantidade de gente que defende que deveria haver mais humoristas a apanhar. É de espantar a quantidade de gente que continua a achar que um chapadão pode ser normalizado e relativizado. É de espantar a quantidade de gente que defende a violência como solução para o que quer que seja. Não é. Nunca é. Muito menos para calar alguém.

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