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O autodidata de Marco de Canaveses que pode ganhar um prémio de arte no Luxemburgo
Cultura 14 min. 30.11.2021
Miguel Queirós

O autodidata de Marco de Canaveses que pode ganhar um prémio de arte no Luxemburgo

Miguel Queirós, designer e ilustrador conhecido como "Oblivion Dope", é um dos 24 finalistas da sétima edição do Luxembourg Art Prize.
Miguel Queirós

O autodidata de Marco de Canaveses que pode ganhar um prémio de arte no Luxemburgo

Miguel Queirós, designer e ilustrador conhecido como "Oblivion Dope", é um dos 24 finalistas da sétima edição do Luxembourg Art Prize.
Foto: Tiago Rodrigues
Cultura 14 min. 30.11.2021
Miguel Queirós

O autodidata de Marco de Canaveses que pode ganhar um prémio de arte no Luxemburgo

Tiago RODRIGUES
Tiago RODRIGUES
Miguel Queirós, designer e ilustrador conhecido como “Oblivion Dope”, é o único português finalista da sétima edição do Luxembourg Art Prize. Aos 26 anos, o autodidata de Marco de Canaveses quer continuar a crescer como artista e abrir horizontes. Nunca visitou o Grão-Ducado, mas gostava de o fazer enquanto vencedor do prémio, anunciado esta quarta-feira.

Quem fala com Miguel Queirós percebe de imediato a sua paixão pela arte. Durante a conversa, emoldurados pela paisagem da cidade do Porto e do rio Douro, num banco do Jardim do Morro, no lado de Gaia, ficamos inspirados pelas cores daquela manhã solarenga de outono. Ele vai citando Leonardo da Vinci, Jeff Bezos e Gary Vaynerchuk. Autodidatas como ele.

Tem apenas 26 anos, mas revela a maturidade de um artista graúdo. Desenha desde que se lembra. Em criança, colecionava sebentas. Na adolescência, trocou Marco de Canaveses pelo Porto, para estudar Design. Agora, jovem adulto, tem os próprios projetos profissionais e está nomeado para um prémio internacional do Luxemburgo.

O designer e ilustrador, conhecido como “Oblivion Dope”, é o único português entre os 24 finalistas da sétima edição do Luxembourg Art Prize. O prémio anual é organizado desde 2015 pela Pinacoteca, museu privado no Grão-Ducado, e tem como objetivo lançar ou reforçar a carreira de artistas a nível internacional, sejam amadores ou profissionais e qualquer que seja a sua idade ou nacionalidade.

A obra que Miguel apresentou a concurso é uma ilustração digital cheia de cores vivas e fantasia. “Blue Lady” é uma ode à mulher. De olhos verdes e cabelos azuis, a figura feminina da imagem envolve-se na natureza, comunica com os animais. Uma obra de arte que, tal como outros 23 trabalhos, será avaliada por um júri independente. 

O vencedor será anunciado esta quarta-feira, às 18 horas, e os três primeiros laureados recebem as quantias de 50 mil, 20 mil e 10 mil euros, respetivamente.

"Blue Lady" é o nome da ilustração digital que Miguel Queirós apresentou a concurso.
"Blue Lady" é o nome da ilustração digital que Miguel Queirós apresentou a concurso.
Imagem: DR

Um talento português

Miguel nunca se tinha candidatado a um prémio deste género. Ou, pelo menos, não desta magnitude. Costuma participar em concursos locais, como aquele “muito famoso” durante as Festas de Lisboa, que passa por ilustrar uma sardinha, que depois é exposta na cidade. Sempre que tem tempo, gosta de se candidatar a esses pequenos prémios. Em setembro, decidiu arriscar-se a um dos grandes. Viu nas redes sociais uma publicidade de um prémio no Luxemburgo e não hesitou: “Vou dar uma vista de olhos para ver do que é que se trata”, pensou na altura.

Ver artistas portugueses neste tipo de nomeações é espetacular, porque acredito que nós temos muito pessoal talentoso que merece realmente uma oportunidade.

Miguel Queirós, designer e ilustrador

Curiosamente, no momento em que viu aquele anúncio, Miguel estava a esboçar, “só por entretenimento”, a peça que depois iria apresentar a concurso. Foi assim que nasceu a “Blue Lady”. Candidatou-se “sem esperar muito”, porque todos os anos são nomeados artistas “excecionais”, das mais variadas áreas. Dois meses depois, recebeu uma mensagem a informá-lo que era um dos finalistas. “Foi uma surpresa muito grande”, recorda. Recebeu os parabéns por parte de outros artistas portugueses e falou com alguns dos colegas nomeados. Reconhece que estar entre os 24 “já é espetacular”, mas assume abertamente que é muito competitivo: “Claro que quero ganhar”.

O designer é o único português entre os finalistas deste ano e o terceiro ao fim de sete edições do prémio. E pode ser o primeiro a vencer. Um motivo de orgulho. “Ver artistas portugueses neste tipo de nomeações é espetacular, porque acredito que nós temos muito pessoal talentoso que merece realmente uma oportunidade de mostrar o seu trabalho”, afirma. Além disso, Miguel é o primeiro artista digital a ser nomeado para este prémio. Também trabalha com ferramentas tradicionais, mas há dois anos fez a transição e ter este reconhecimento “é gratificante”.

Uma homenagem à mulher

Adoro esta obra. A mulher é uma inspiração muito grande. Quis fazer emergir a figura da mulher com a natureza, os animais e as flores.

Quando lhe pedimos que nos descrevesse a “Blue Lady”, a ilustração que levou a concurso, via-se aquele brilho nos olhos, próprio de um artista orgulhoso do seu trabalho. “Adoro esta obra. A mulher é uma inspiração muito grande. Quis fazer emergir a figura da mulher com a natureza, os animais e as flores”, conta. O processo de criação avançou em piloto automático. Foi esboçando o desenho e as formas surgiam naturalmente. “Leonardo da Vinci dizia que o desenho é uma coisa mental. A mão é apenas a ferramenta que transporta a ideia para a tela”.

A mulher de cabelos azuis não é alguém em específico da vida de Miguel. “É a mulher no seu todo. A mulher em geral”. Na visão do artista, aquela peça pedia uma figura feminina, porque tem “cores muito elegantes, naturalistas”. A mulher deu-lhe equilíbrio. Mas não foi a única fonte de inspiração. “Costumo dizer que tiro inspiração de tudo. Esta cidade (Porto) inspira-me. Tenho vários trabalhos baseados nela. A natureza, as pessoas, as conversas, ler um livro, jogar... Tudo isso me vai ajudando no trabalho”, explica.

Um erro que alguns artistas cometem muitas vezes é só fazerem um esboço e ficam satisfeitos. Às vezes achamos que está perfeito, mas não está.

Depois da inspiração, vem o ofício. Miguel tem os próprios projetos e vai recebendo propostas de clientes, não só de Portugal como do estrangeiro. “Fazemos um briefing e a partir daí é uma pesquisa intensa de dois, três dias para fazer uma composição com as imagens para mandar ao cliente”. Depois, é esboçar, esboçar, esboçar. “Um erro que alguns artistas cometem muitas vezes é só fazerem um esboço e ficam satisfeitos. Às vezes achamos que está perfeito, mas não está. Há sempre alguma coisa a acrescentar. É na mesa de desenho que está tudo”, sentencia.

Quanto às ferramentas de trabalho, o designer diz trabalhar mais com o tablet e a mesa digital no computador, mas ainda gosta muito de usar papel e lápis. “O papel é diferente. Sente-se aquela pureza do desenho”. A partir daí, é tudo feito digitalmente. Pela liberdade que dá ao artista. “Permite-me trabalhar no jardim ou ir para um café. Essa facilidade é incrível, porque muitas vezes estou em casa ou no escritório e não sai nada. Trabalhar fora ajuda a libertar a minha criatividade”.

Um mundo mais digital

Ver artistas como o Miguel a pegar nas ferramentas digitais e sair para o exterior é algo cada vez mais comum. Mas ainda existe muito aquela imagem tradicional do artista de pincel na mão a pintar no estúdio. “Há um estereótipo de as pessoas acharem que é preciso estar num sítio para trabalhar, estar fisicamente presente. Eu acho que não é verdade. O mundo está cada vez mais digital. Se me dissessem há dez anos que ia poder trabalhar com clientes de outros lugares do mundo, pensaria que não era possível, mas agora é”, argumenta.

Neste momento, o ilustrador trabalha com clientes de Abu Dhabi, Miami e outros países. Uma oportunidade única de conhecer e criar relações com pessoas do outro lado do mundo que têm uma “visão parecida em relação à arte”. Para chegar a esses clientes, Miguel aposta sobretudo nas redes sociais. Tenta estar em todas as plataformas possíveis. “Acho que todos os criativos deviam usar essas plataformas, porque nunca se sabe quem é que vai ver e gostar do trabalho e entrar em contacto. É um efeito de bola de neve”.

Adorava visitar o Luxemburgo. Conhecer outras culturas, viajar e ver outros sítios é incrível, sobretudo para artistas e pessoas da área da criatividade.

Apesar de ter clientes de todo o mundo e gostar de viajar, o artista acaba por trabalhar mais à distância, a partir de Portugal. Em grande parte, devido à pandemia. Ainda assim, raramente fica parado em casa. Quando pode, pega na mochila e no tablet, passeia à beira-rio e deixa que a mão obedeça às ordens da mente. Outras vezes, trabalha em cafés. Gosta de estar num sítio sozinho, isolado. “É quando as ideias realmente boas aparecem”, confidencia.

Miguel nunca visitou o Luxemburgo, mas gostava. “Claro que sim”, reforça. Especialmente se fosse para ir receber o prémio para o qual está nomeado. Se não for agora, será mais tarde. “Acho que conhecer outras culturas, viajar e ver outros sítios é incrível, sobretudo para artistas e pessoas da área da criatividade. É uma oportunidade para enriquecer o vocabulário, conhecer novas pessoas. Isso é impressionante”.

Uma paixão que o escolheu

Atualmente, o jovem vive com os pais e a irmã, de 22 anos, no Marco de Canaveses. Tem a possibilidade de alugar um espaço e morar sozinho, mas não há pressa. Diz-se um grande adepto do empreendedor norte-americano Gary Vaynerchuk, que defende o “slow grinding”, ou seja, fazer as coisas com calma, com cabeça. “Crescer devagar, mas de forma correta”. Foi assim que Miguel encontrou a sua paixão. Desenha desde que era criança. Aos poucos, foi “alimentando naturalmente” esse dom. “Lembro-me de estar no infantário com as sebentas, enquanto toda a gente estava a correr ou a fazer outras atividades. Havia alturas em que estava completamente isolado de tudo, a desenhar”, recorda.

Diziam-me que não era o caminho correto, que não era uma profissão tão certa como as outras. Se calhar estão a tentar proteger-nos, mas não têm a visão que nós temos.

O designer lembrava outra citação, agora do empresário Jeff Bezos, para explicar que “nós não escolhemos as nossas paixões, as paixões é que nos escolhem a nós”. Foi isso que lhe aconteceu. Quando chegou ao secundário e teve de escolher um curso, não teve dúvidas de que queria as artes. Uma escolha não tão óbvia nem consensual entre a família. “Diziam que não era o caminho correto, que não era uma profissão tão certa como as outras. Se calhar estão a tentar proteger-nos, mas não têm a visão que nós temos das coisas”.

Na altura, Miguel até queria seguir arquitetura, mas um professor disse-lhe que devia seguir a área do design e da ilustração, tentar misturar as duas coisas. Porque não, pensou ele. “Já estava a começar a deixar a ideia de arquitetura de lado. Achava que estava muito preso e que não tinha outras formas de explorar a minha criatividade. Se fosse arquiteto, podia desenhar ou pintar, mas esta área dá-me muito mais portas abertas para eu explorar”, garante.

Depois do secundário, fez o ensino superior no Porto, no curso de Design. Uma área que lhe dava muito mais liberdade criativa. E a certeza de que tinha escolhido o caminho certo. A partir daí, começou a trabalhar como freelancer com alguns clientes, mas era demasiado para conciliar com os trabalhos da faculdade. Foi fazendo o possível. Quando terminou o curso, passou a publicar os seus trabalhos e as coisas foram acontecendo naturalmente. “Desde aí nunca tenho parado”.

Um jovem que adora várias coisas

Além do trabalho, o Miguel é uma pessoa que “adora várias coisas”. É desportista, jogou futsal durante muitos anos, mas gosta ainda mais de basquetebol. Adora ler. É algo que faz constantemente. E jogar. Foi dos jogos online que surgiu o seu nome artístico, “Oblivion”, que usava como nickname. E “Dope” de original, de fixe. “Gostei da forma como soava”, conta. Também gosta de sair com os amigos. No fundo, adora tudo o que possa contribuir para enriquecer o seu trabalho. “Muitas vezes é difícil abstrair-me. Sou um bocado workaholic”, confessa. Mas, no geral, é uma pessoa que quer estar com boa disposição e conhecer pessoas. Para continuar a crescer.

Temos que perceber como valorizar a nossa arte. A inspiração é absorver tudo à minha volta. O mundo é a nossa biblioteca.

De todos esses passatempos, a leitura é o que tem mais impacto no seu processo criativo. “Sempre li muito quando era miúdo. Há cinco, seis anos, quando fui estudar no Porto, comecei a ler um bocadinho mais e a consumir conteúdos de design, de arte, fotografia, escultura. Ler é uma ferramenta espetacular”, reconhece. Miguel começou a reparar que quando lia o trabalho tornava-se mais fácil. Desenvolveu a capacidade de desenhar de memória. “É incrível. Estamos a imaginar uma coisa na nossa cabeça e a transpô-la para um pedaço de papel ou uma tela”.

Outra das grandes inspirações do artista é falar com as pessoas e ouvir profissionais que trabalham na sua área há muitos anos. Isso permitiu-lhe implementar a área do negócio na arte, algo que considera muito importante para os designers. “Temos que perceber como valorizar a nossa arte e capitalizar aquilo que sabemos fazer. A inspiração é absorver tudo à minha volta. O mundo é a nossa biblioteca”.

Uma ambição sem limites

Independentemente do resultado do Luxembourg Art Prize, o foco de Miguel passa por continuar a resolver os projetos que tem em mãos e a trabalhar com as pessoas para crescer e aprender. Está muito focado em “misturar o design com a ilustração” e, até chegar aos 30 anos, gostava de dominar essas valências. Ao mesmo tempo, quer evoluir nas áreas do 3D e animação. “O meu objetivo final seria criar um estúdio com pessoas que trabalham da mesma forma que eu. Criar uma comunidade e continuar a produzir, talvez mais tarde criar conteúdo para ajudar outros artistas que estão a crescer, com um canal do YouTube”, diz ele.

Tenho que controlar a minha ambição de forma correta para ter a certeza de que não dou passos em falso.

Mais tarde, podem surgir outros objetivos, talvez noutras áreas e projetos, como na arte urbana. “Nós, enquanto artistas, não podemos parar”, explica. Também por isso não coloca de parte a hipótese de sair de Portugal. “Adoro o meu país, mas a verdade é que, comparado a outros, estamos muito estagnados, principalmente na área da criatividade”, lamenta. Mas antes de dar o salto lá para fora, Miguel quer implementar uma boa estrutura para o trabalho que tem vindo a desenvolver e fazer crescer a sua marca.

Até hoje, tem corrido bem. “O meu primeiro cliente tinha um orçamento por volta dos 200, 300 euros. Agora estou muito longe disso. Trabalho com clientes com orçamentos acima dos dois mil, que realmente valorizam a arte e sabem vender um produto”, aponta. O português vê a arte como uma ferramenta muito forte para o negócio e, no futuro, gostava de trabalhar com marcas de peso, como a Coca-Cola ou a Apple, ou na área da moda. Ambição não lhe falta. Nem cautela. “Tenho que controlar essa ambição de forma correta para ter a certeza de que não dou passos em falso”.

Por enquanto, vai continuar a “resolver problemas”. É isso que um designer faz. “Quando um cliente tem um problema e me contacta, tenho que arranjar forma de o resolver. Tenho de pegar na ideia dele e transpor para o papel. E é espetacular conseguir fazer isso. É o que sei fazer melhor”, termina, com o mesmo brilho nos olhos de alguém que faz aquilo que ama.

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