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Nuno Escudeiro filmou os franceses que abrem as portas aos refugiados
Cultura 1 6 min. 29.07.2019

Nuno Escudeiro filmou os franceses que abrem as portas aos refugiados

Nuno Escudeiro filmou os franceses que abrem as portas aos refugiados

Foto: The Valley
Cultura 1 6 min. 29.07.2019

Nuno Escudeiro filmou os franceses que abrem as portas aos refugiados

Ana Patrícia CARDOSO
Ana Patrícia CARDOSO
Com o documentário "The Valley", o cineasta foi considerado o "Realizador Internacional Emergente", no Festival Hot Docs, o maior festival de cinema documental do mundo. O Contacto falou com ele sobre a história de gente que não aceita que "homens odeiam os homens, sem razão nenhuma”.

O filme do realizador tomarense de 32 anos é um retrato da "solidariedade humana" colocada em prática em situações de risco. No vale de Roya, em França, os habitantes decidem acolher e ajudar os migrantes que tentam atravessar a fronteira franco-italiana. 

Mesmo correndo o risco de desafiar a polícia, estes homens e mulheres não desistem de garantir segurança a quem corria perigo de vida no país de origem. Com assumida "fé na humanidade", Escudeiro aventurou-se pelos altos e baixos das montanhas para fazer o retrato de pessoas que não conseguiram virar a cara.   

Escudeiro saiu de Portugal, em 2012, e considera-se um dos "filhos da geração troika". Não pensa, para já, voltar. Viveu na Finlândia e está agora na Itália. Mas a mudança deverá "estar para breve", garante Nuno, que foi considerado o "Realizador Internacional Emergente", no Festival Hod Docs, o maior festival de cinema documental do mundo, sediado no Canadá. 

Foto: Nuno Escudeiro


Como soube dos refugiados que tentavam atravessar a fronteira no vale de Roya, nos Alpes Franceses?
Quando vivi na Finlândia e depois aqui, em Itália, sempre estive em lugares perto de fronteiras. Em 2014, quando as coisas começaram a piorar, via regularmente notícias de refugiados tentavam atravessar as fronteiras. Acabei também por conhecer uma série de pessoas que estava a ajudar os migrantes, mas fazia-o de forma escondida, por questões legais. Entretanto, chegou a notícia de Roya e de uma pessoa que estava prestes a ser condenada por ajudar pessoas a atravessar a fronteira, mas a diferença é que tinha por trás uma associação, a Roya Citoyenne, que queria tornar público o que se estava a passar, sobretudo, como forma de denúncia. Foi isso que me levou lá – eu e muitas pessoas porque foi notícia em todo o lado. Estávamos em novembro de 2016.

E acabou por ficar dois anos e meio.
Sim, entre idas e vindas. Foi preciso esse tempo para fazer o filme. O que aconteceu foi que, depois de ser notícia, todos se foram embora e nós ficámos. Vimos o caso desenvolver-se por si. A população começou a atacar o Estado quando, no início, estava mesmo só a ajudar os refugiados. Acabámos por decidir filmar as pessoas que estavam concretamente a fazer coisas que pudessem ser filmadas. São elas as nossas “personagens”.

Para essas pessoas, esta é agora uma missão de vida?
Sim, sim, sem dúvida.

Durante esse anos, como foi o processo de filmagens?
Nós não filmámos muito – ao fim de dois anos e meio, temos só 50 horas de material – já que sabíamos bem o que queríamos gravar. No início, as pessoas receberam-nos bem, mas havia tantos jornalistas, era difícil de gerir a situação. Fomos gravando algumas coisas e já identificando as personagens, como o Cédric Herrou, um agricultor que acolhe dezenas de migrantes na plantação e tem todo um esquema de organização para garantir a passagem na fronteira. Em julho de 2017, quando fomos mais uma vez, tinha mudado tudo. De repente, tinha sido estabelecido uma forma legal de atravessar a fronteira. Neste momento, nós que sempre tínhamos sido recebidos como “mais uns”, éramos os únicos e todos queriam que continuássemos a trabalhar porque não havia mais ninguém para contar a história. 

Tiveram de mudar o final, não foi?
Estávamos a seguir um processo de um rapaz que nós pensámos que seria ilibado, porque o Conselho Constitucional francês tinha decretado, na altura, que é anticonstitucional, devido ao “Princípio de Fraternidade”, criminalizar uma ação humanitária. Só que os tribunais e a justiça não reconhecem o termo “humanitário” para as ações que estas pessoas fazem e continuam a condenar pessoas. Pela primeira vez, o “Princípio de Fraternidade” torna-se um princípio de lei e nós a filmarmos todos estes momentos e a pensar “uau”. Quando ele é condenado, foi mesmo um choque e pensámos “isto muda tudo”. Claro que o que eles fazem é uma "ação humanitária". 

Acabou por presenciar vários momentos, como esse, de frustração ou desânimo. Sentiu-se impotente?
Não senti, exatamente porque estava com estas pessoas que sabiam muito bem o que estavam a fazer. Têm uma força enorme. Todos eles sugerem modos de ação para destruir essa tal impotência. Até agora, esse é o maior "feedback" em relação ao filme. Que este acaba por mostrar como realmente se pode mudar uma situação de injustiça.

Imagino que tenha conhecido todo o tipo de pessoas… 
Sim. Não existe um perfil definido de migrante. É impossível - e perigoso - generalizar, porque cada história é uma história. Esta imagem criada de “massa” de pessoas que chegam é totalmente errada. Há mulheres que viajam sozinhas, crianças que viajam sozinhas, famílias inteiras.  Parece que se criou esta ideia de migrante como um homem que vem sozinho e é perigoso. Claro que este pensamento não faz sentido nenhum. São pessoas normalíssimas, bem-educadas, com escolarização, têm vontade de trabalhar e ajudar, são ativas e sabem falar francês. O vale, em específico, é um ponto de passagem para pessoas do Sudão e da Eritreia e a maior parte são homens porque estavam a fugir ao recenseamento militar obrigatório. Vemos isso no filme. 

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

 

No documentário, um dos refugiados diz uma frase que resume o que se passa nesta crise de refugiados. “Os homens odeiam os homens, sem razão nenhuma”. Acabou por estar em contacto com dois lados opostos da nossa natureza: as consequências da maldade humana que obriga pessoas a fugir das suas casas, e a bondade humana que consegue ser eficaz, que não vive só de teorias.
É verdade, mas é exatamente essa a questão. O lado mau vive de abstrações, com ideias generalizadas de pessoas e muitos símbolos. Este fecho de fronteiras é isso. Tratam-se todos como se fossem iguais, alimenta-se um tal ideal de segurança e proteção e, todos aqueles que não lidam com estas pessoas, vão ao pior de si ao alimentar medos e preconceitos.

Chegaram a ter problemas com a polícia?
Não foi sempre pacífico. Do lado francês, não têm escolha, por isso, funciona muito bem. Temos pleno direito de filmar a polícia em ação. Quando chegamos, apresentamo-nos e explicamos que vamos gravar, cria-se uma relação e assim é mais fácil, já que eles não nos podem impedir. Do lado italiano, é mais complicado porque só se pode fazer filmagens até ao momento em que um polícia te diz que tens de parar. Mas o mais importante é saber muito bem a legislação do país onde se vai filmar e mostrar-lhes isso. Por outro lado, as personagens do filme sofreram algumas ameaças, como serem levadas às seis da manhã para interrogatórios de 72 horas. Houve uma situação em que, inclusive, usaram helicópteros. Claro que não faz sentido nenhum.

Com este filme, ganhou o prémio de “Emerging International Director” no Hot Docs? Uma surpresa? 
Foi uma surpresa mesmo, uma grande honra. Este é o tipo de prémio que segue a carreira toda.

Já há data de estreia nas salas de cinema? 
Ainda não sabemos, mas estamos com esperança que seja ainda este ano.

Vive e trabalha fora de Portugal há sete anos. Qual é a ideia dos filmes portugueses no estrangeiro?
Há um tipo de cinema português que vai a um certo tipo de festivais e são esses que acabam com o carimbo de “cinema português”. Mas há todo um outro mundo paralelo de cinema, documental e não só, que acaba por não ser reconhecido. 


  Ana Patrícia Cardoso  

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