Nova formação: "Ter de fazer tudo e não partilhar o palco acabou por ser frustrante", revela The Legendary Tigerman
Nova formação: "Ter de fazer tudo e não partilhar o palco acabou por ser frustrante", revela The Legendary Tigerman
Paulo Furtado, mais conhecido por The Legendary Tigerman, abriu a sua caixa de pandora. Em entrevista ao Contacto falou da revolução que o seu projeto teve, hoje não é mais um músico em palco, mas três. Falou sobre o impacto do rock'n roll na sua vida e como gosta de fazer as coisas à sua maneira. Toca hoje, sexta-feira, na Philharmonie, inserido no programa do Festival Atlântico.
O que podemos esperar para este concerto?
Muitas músicas novas do novo disco, em formato trio e uma passagem pelos cinco discos anteriores. Os clássicos vídeos e pequenos filmes habituais também vão estar presente. Vai ser um espetáculo de rock'n roll, mas mais forte.
Trazes na bagagem um novo formato, sobes ao palco acompanhado e não no formato “homem-orquestra”. Que revolução sofreu The Legendary Tigerman no sexto álbum de estúdio?
Nos cinco álbuns anteriores trabalhei sozinho e consegui durante todo este tempo explorar as sonoridades que queria, mas chegou um momento em que precisei de outros músicos para explorar outros mundos musicais. No formato one-man band (homem-orquestra) só gravava o que podia tocar simultaneamente e isso tornou-se uma limitação.
Ter de fazer tudo e não partilhar o palco acabou por ser frustrante.
Mas nos primeiros trabalhos funcionou.
Funcionou porque obrigava-me a explorar as canções de outra forma e isso foi muito interessante durante os últimos 15 anos. No disco “True” [2014] senti que tinha explorado o que havia para explorar no formato one-man band e decidi gravar com o João Cabrita e Paulo Segalhães. Basicamente Tigerman foi um projeto solitário, mas que ao fim de 15 anos já me estava a pesar. Ter de fazer tudo e não partilhar o palco e o que acontecia acabou por ser frustrante.
O novo disco,“Misfit”, foi gravado a três?
Sim, cada um tocou vários instrumentos. No fundo quis compor um álbum que gerisse o silêncio e o som em relação às canções, mas que fosse trabalhado e tocado pelos três. Acho que a necessidade de novos mundos musicais e novas descobertas sonoras aumentaram e eles souberam perceber.
A entrada de novos músicos no projeto veio com a necessidade de explorar outros mundos musicais?
Senti a necessidade de uma bateria e o Paulo Segalhães veio resolver isso. Já o João Cabrita começou por tocar numa ou outra música e passado pouco tempo já as tocava a todas. As escolhas foram naturais, não como uma banda de garagem, como já me aconteceu e espero que volte a acontecer, em que amigos se juntam por acaso. Escolhi cada um deles pela forma como tocam os seus instrumentos.
Formato trio é a formação atual do projecto The Legendary Tigerman?
Atualmente formato trio, para o ano vai ser quarteto com a entrada de um baixista. O Filipe Rocha vai ser o baixista, mas na verdade é um excelente multi instrumentista.
“One-man band” continua a estar por ali no meio, mas com um som francamente mais rico.
Morreu o The Legendary Tigerman ao estilo “one-man show” ou “one-man band”?
“One-man band” continua a estar por ali no meio, mas com um som francamente mais rico. Há novos caminhos musicais que chegam com o Cabrita e com o Segalhães, mas não podemos falar totalmente em banda.
Qual o papel de cada um no projeto, sabendo que tu serás sempre o “homem tigre”?
Eu sou o diretor artístico e The Legendary Tigerman continua a ser o meu projeto com a minha direção, mas há um espírito livre e toda a liberdade para exprimirmo-nos. Por exemplo, o Cabrita tem a capacidade do improviso e de movimentos rápidos associados a uma excelente formação musical. O Segalhães toca de uma maneira particular e que a mim me cai bem.
Mas o novo álbum não é apenas música. O que é “Misfit”?
É um projeto complexo e grande. Este é um disco e um filme. Sou eu dentro de um filme, de uma personagem, alguém que busca uma fuga para se encontrar. No fundo o disco foi pensado como se estivesse dentro do filme e todos os temas vão de encontro à personagem.
“Mistif” é mais disco ou mais filme? Ou é um projeto?
Há muitos objetos à volta do novo trabalho. Eu acabei por compor o disco pelos olhos do personagem Misfit que viaja entre Los Angeles e Nashville e é uma viagem de reflexão do mundo e de si mesmo, estilo road trip.
De certa forma sempre me senti inadaptado
Interpretaste o personagem?
Sim, Misfit foi criado por mim e fui eu que o interpretei.
O filme vai ter uma vida paralela ao disco?
Paralela e diferente porque vai ter uma estreia comercial vai estar em competição em São Paulo [Brasil].
Tu próprio és um misfit, um inadaptado?
De certa forma sempre me senti inadaptado muito por culpa das forma como faço tudo, de querer fazer tudo à minha maneira. Inadaptado não no sentido triste mas por quebrar as ordens. Este disco uma homenagem às pessoas que ousam fazer tudo à sua maneira.
Os blues e o rock'n roll inspiram-me tanto que ao aproximar-me [gravar nos EUA] era como misturar o monstro com o seu criador.
Mistif é o alter-ego Legendary Tigerman, que por seu turno é o alter-ego do Paulo Furtado?
É uma confusão de alter-egos, mas sim é um bocadinho [risos].
E sobre o local onde foi gravado este trabalho? É um local assim tão mítico?
É. Gravei no Rancho de la Luna, no meio do deserto, nos Estados Unidos.O Iggy Pop gravou lá o último disco, os Arctic Monkeys, o Josh Homme [líder dos Queens of Stone Age] ou a PJ Harvey também andaram por lá. Foram gravados no Rancho de la Luna discos muito interessantes.
Porque razão só agora quiseste gravar nos Estados Unidos?
A minha linguagem estava tão definida que não seria plausível uma aproximação. Os blues e o rock'n roll inspiram-me tanto que ao aproximar-me [gravar nos EUA] era como misturar o monstro com o seu criador.
E como foi a tua entrada no mundo do rock'n roll?
Entrei como ouvinte, como pessoa. Curiosamente o rock entrou na minha vida ao mesmo tempo que a música de intervenção. Com 14 anos ouvia José Mário Branco e coisas parecidas e ouvia rock'n roll. Lembro-me das minhas primeiras composições serem em português [hoje são em inglês] e com um som que não sabia o que era. Mas o rock foi e ainda é excitante e fez-me sentir vivo, daí foi um passo a tornar-se uma paixão.
Quais os estilos musicais que costumas ouvir?
Oiço coisas diferentes como tango, blues rock'n roll, hip-hop e mais coisas.Ainda sou levado por partilhas de amigos e vice-versa. Ouço o que me apresentam.
Os festivais portugueses mudaram? Acabaram-se os estereótipos e há, hoje, uma mistura de géneros e projetos no mesmo festival?
Mudaram. Ainda bem que as pessoas ouvem mais géneros e saem dos guetos musicais. Isto de gostarmos só de um género é um bocado adolescente, onde há tribos e subgéneros tipo o gótico e afins. Ainda bem que as pessoas crescem e ganham conhecimento e sabedoria e optam por ser mais ecléticas.
O rock'n roll morreu? Está a rejuvenescer? Está a morrer?
Acho que nunca morreu. Claro que os tempos áureos do rock'n roll podem já ter passado, mas há grandes pessoas que continuam a fazer rock e há pessoas a ouvir. Hoje pode não ser tão mainstream (primeira linha, em tradução livre), mas nunca morreu. Há momentos em que a música pode alcançar muitas pessoas ou pode não ser tão apetecível.
O rock'n roll tem um poder que poucas coisas o têm e isso só se sente ao vivo.
Para ti quem são os atuais músicos a tocar bom rock'n roll?
O Jack White [fundador dos extintos White Stripes] que pode não ter hoje uma carreira tão impactante como com a banda. Os Queen of Stone Age, mas de uma maneira menos roll e mais rock e por aí fora. Há miúdos que estão a começar agora e isso é espetacular.
Porque razão o rock'n roll?
O rock'n roll tem um poder que poucas coisas o têm e isso só se sente ao vivo.
A tua carreira começou nos míticos Tédio Boys, que por acaso gostavam de atuar e deixarem-se fotografar nus. Os Tédio foram mais que uma banda, não foram?
Os Tédio Boys foram uma resposta a uma certa pasmaceira e tédio na cidade de Coimbra. Havia uma certa ordem que não nos interessava. Mais que a parte musical, houve um querer fazer pela cidade. Dissemos “queremos o nosso espaço e se não nos dão, nós vamos tirá-lo”.
Foram um marco?
Foi importante geracionalmente e é uma pena não haver continuação de um movimento com este, que hoje está mais ligado ao hip-hop e ao graffiti.
Continuas a manter em ti o espírito dos Tédio Boys?
As minhas regras e a minha ética mantêm-se como nos tempos dos Tédio. Faço o que tenho a fazer desde que ache a minha forma de fazer seja a correta mesmo que não seja para o resto do mundo. E assim voltamos ao mistif.
Tens uma posição em palco única. A forma como pedes para as pessoas participarem, estarem perto e deixarem o telemóvel pode ser encarado com estranheza?
Sou eu que tenho que chamar o público caso ele esteja for a do concerto, porque este é um momento especial. Não quero que o concerto se transforme em mais um e quero que as pessoas o vivam.
Mas esta realidade dos telemóveis é recente. A proibição resolvia a alienação do público?
Proibição não, porque isso aproxima-se da ditadura. Quero que as pessoas vivam o concerto. A questão dos telemóveis é complicada porque a ideia de termos o mundo no bolso é muito forte. Temos de aprender a trabalhar com isso e a aprender a diferenciar a nossa vida social da pessoal. Temos de encontrar um equilíbrio entre estes dois mundos.
Vanessa Castanheira
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