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"Nomadland". Uma casa americana com certeza
Cultura 2 min. 28.03.2021

"Nomadland". Uma casa americana com certeza

"Nomadland". Uma casa americana com certeza

Foto: DR
Cultura 2 min. 28.03.2021

"Nomadland". Uma casa americana com certeza

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Um filme que trata, antes de tudo, sobre a busca de estabilidade e a vontade de desenraizamento, entre a ilusão da zona de conforto e a vontade arriscada de partir para conhecer mundo.

Chloé Zhao, ou Zhao Ting de seu nome original, é uma realizadora, argumentista e produtora chinesa nascida dos anos 80 que surpreendeu tudo e todos com a sua primeira longa-metragem, "Songs My Brothers Taught Me".

O filme estreou no festival de Sundance e posteriormente, foi exibido no festival de Cannes, na Quinzena dos Realizadores. O segundo filme de Zhao, "The Rider", foi aclamado pela crítica e recebeu vários prémios.

Zhao nasceu e viveu em Pequim, mas assume-se como rebelde e muito atraída pelas influências da cultura pop ocidental. Passou uns anos num internato em Londres antes de se mudar para Los Angeles. É provável que a vida internacional que tem conhecido a tenha motivado para rodar "Nomadland". Um filme que trata, antes de tudo, sobre a busca de estabilidade e a vontade de desenraizamento, entre a ilusão da zona de conforto e a vontade arriscada de partir para conhecer mundo. Baseado no livro de Jessica Bruder com o mesmo nome, "Nomadland" conta com Frances McDormand no papel principal. Fern, viúva, mete-se à estrada numa viatura branca a que chama Vanguard e que personaliza com uma alcova, uma área de cozinha e um espaço para guardar as poucas lembranças de sua vida anterior.

Fern e Vanguard vão juntar-se a uma "tribo" que representa uma espécie de subcultura e um movimento de americanos itinerantes e seus veículos, uma nação instável de nómadas dentro das fronteiras dos EUA.

O argumento centra-se sobretudo em mostrar (ou não) as razões que levam pessoas como Fern – meia-idade, ou mais velhas, e da classe média – a avançarem para a estrada. Parece que uns tentam esquecer o desemprego e a queda de classe social, outros fogem de casamentos desfeitos, de reformas prometidas mas perdidas ou de investimentos imobiliários em colapso. Todos são pessoas livres, mas também desesperadas, angustiadas pela crescente desigualdade e por uma segurança social que não lhes serve de rede de salvação.

Mas a realizadora não se limita às críticas sociais, tentando matizar muitas vezes esses aspetos focando-se em detalhes práticos da vida de nómada e na resiliência ou na solidariedade dos adeptos dessa estranha forma de estar. O filme tem poucos atores porque quase todas as pessoas em "Nomadland" interpretam versões de si próprias e a maioria até assina interpretações convincentes.

O filme tem o defeito de ter uma estrutura fraca e episódica. A realizadora, que também editou "Nomadland", às vezes detém-se em majestosas paisagens, mas também lhe ocorre corta rapidamente um detalhe e saltar para outro.

A vantagem de "Nomadland" é optar por não forçar um ponto de vista, mostrando que aquelas pessoas vivem uma situação complicada, com mais contradições do que a maioria dos filmes norte-americanos estão habitualmente dispostos a mostrar.

A existência nómada é ao mesmo tempo um reconhecimento da incapacidade que têm os humanos para ficar no mesmo sítio e um protesto contra o nomadismo. Fern e as suas amigas estão unidas, tanto pela experiência da perda como pelo espírito de aventura. Muitas das histórias que compartilham são cheias de tristeza, mas também de admiração e gratidão. Ver "Nomadland" é sentir isso tudo. É como visitar muitos países e muitas gentes no mesmo acampamento.

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