Escolha as suas informações

Night Moves: Cenas nocturnas
Como é que se rebenta com uma barragem?

Night Moves: Cenas nocturnas

Como é que se rebenta com uma barragem?
Cultura 3 min. 30.04.2014

Night Moves: Cenas nocturnas

O filme de Kelly Reichardt foi apresentado em Veneza, em 2013, onde obteve boas críticas em geral. Reichardt é uma realizadora experiente com um currículo interessante. Havia, por isso, uma expectativa elevada mas também um certo receio por parte dos “festival-goers”: os filmes de Kelly Reichardt costumam ser lentos e “Night Moves” foi projectado depois de almoço, ou seja, havia um forte risco de sesta por parte dos críticos e do público em geral.

Contudo, a história começa de forma demasiado interessante para deixar adormecer a plateia. Três jovens – dois rapazes e uma rapariga – decidem fazer explodir uma barragem construída por uma multinacional hidroeléctrica. O romântico objectivo dos três activistas é libertar o rio e deixar que a natureza retome o lugar que a especulação e o progresso lhe tiraram.

“Night Moves” é um “thriller” lento e pausado que segue um padrão crescente mas que nunca chega a ser frenético. Kelly Reichardt – tal como tinha feito nos seus trabalhos anteriores – quer que a sua história seja credível e, no seu ponto de vista, as personagens e as suas motivações são mais importantes do que o evento central do argumento. E a única forma de poder expressar com perfeição essas sensações é com um tempo lento que deixe os actores manifestaram e construírem as suas personagens. É uma forma de criar “suspense” à moda antiga que parece estar em declínio nestes tempos de “tiros e bombas e socos nas trombas”.

Os criadores de “Night Moves” levaram muito a sério o título e propõem cenas nocturnas essenciais que não deixam o espectador ver grande coisa. O “voyeurismo” da plateia sai defraudado, mas aguça-se ainda mais a curiosidade quando podemos apenas adivinhar movimentos na noite (em inglês, “night moves”). Curiosamente, os espectadores estão “no mesmo barco” que as personagens: fica-se com a impressão de que muitas vezes os jovens protagonistas não sabem muito bem o que estão a fazer, dada a total obscuridade.

Além disso, o título faz referência ao barco em que se deslocam os activistas, sacralizando assim o meio de locomoção que se torna símbolo das acções, tal como foi o caso de vários barcos, por exemplo, do movimento Greenpeace.

A mensagem ambiental do filme, misturada com uma campanha pró-hipster, é apenas a ponta do icebergue. O filme é mais ideológico do que isso, transmitindo fortes mensagens antiliberais que constroem uma espécie de barragem de ideias. Partilhá-las ajuda a gostar do filme, enquanto o espectador que não defende esse extremismo terá dificuldade em aproveitar as coisas boas que encerra “Night Moves”.

Muito da qualidade do filme se deve à interpretação do trio de protagonistas. Jesse Eisenberg surpreende com uma personagem que fala muito pouco e desconfia de tudo que está a sua volta. É impossível gostar dele, mas também não se consegue ignorar as suas acções. Dakota Fanning vai muito bem no papel de uma jovem manipulável e ingénua. A completar o trio está Peter Sarsgaard, que debita uma personagem em que reina a desconfiança.

Além das prestações de qualidade dos protagonistas, o filme ainda conta com uma excelente fotografia de Christopher Blauvelt e a música de Jeff Grace. Mas nem todas estas virtudes são capazes de diminuir o impacto da problemática parte final. Reichardt tenta acompanhar as consequências do acto terrorista com interesse e cuidado mas o filme vai-se perdendo e a partir de certo ponto já não há esperança de o ressuscitar. Dá a impressão de que a realizadora se cansou ou mudou de partido ao longo das rodagens e já não lhe apetece acabar o filme.

“Night Moves”, de Kelly Reichardt, c/ Jesse Eisenberg, Dakota Fanning, Peter Sarsgaard, Alia Shawkat, James Le Gros.

Raúl Reis