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Nenny é o fenómeno da música portuguesa
Cultura 2 7 min. 12.11.2020

Nenny é o fenómeno da música portuguesa

Nenny é o fenómeno da música portuguesa

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Cultura 2 7 min. 12.11.2020

Nenny é o fenómeno da música portuguesa

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Tem só 17 anos e já a compararam a Lauryn Hill e a Billie Eilish, mas a jovem cantora prefere afirmar-se por si. O seu primeiro tema original, 'Sushi', foi lançado em 2019 e soma mais de 13 milhões de visualizações no Youtube. Desde o final de 2019 que o Luxemburgo passou a ser a sua casa.

O ano em que o nome Nenny se tornou num fenómeno da música portuguesa e lusófona foi o mesmo em se mudou com a família para o Luxemburgo. Desde 2019 que a jovem artista de 17 anos, prestes a completar os 18, tem gerado um buzz na cena musical portuguesa e na imprensa da especialidade. Os temas que cria somam milhões de visualizações e fãs no Youtube e graças a canções como 'Sushi' também as rádios já começaram a passar a sua música, que a artista pretende sem rótulos, mas que se pode incluir num hip hop feito a partir de Portugal, mas cada vez mais multicultural e agregador de géneros musicais distintos

Em 2020, Nenny lançou o seu primeiro conjunto de canções, o EP 'Aura'. Composto por meia dúzia de temas, o registo levou-a a ser nomeada para os Play – Prémios da Música Portuguesa, nas categorias de Artista Revelação e Canção do Ano, competindo com nomes como Tiago Nacarato, Bárbara Tinoco e Murta, na primeira categoria, e Capitão Fausto, Slow J e Wet Bed Gang, na segunda. Em 2021 será uma das artistas a integrar o cartaz principal do festival português Sumol Summer Fest, a realizar no verão.

Todo este sucesso, num curto espaço de tempo, aliado à sua tenra idade, contribui para adensar ainda mais a curiosidade em torno da menina/mulher por detrás da artista, que permanece ainda um mistério.

Se os seus temas alcançam multidões superiores à população do Luxemburgo e de Portugal juntas, são raras as entrevistas que a reservada Marlene Fernanda Cardoso Tavares, o nome real por detrás do artístico 'Nenny' vai dando, e onde se vai revelando aos poucos, na simplicidade de quem vai constrói os sonhos sem perder o pé na realidade. É disso mesmo que fala em temas como 'Dona Maria', uma música dedicada à sua mãe e onde fala da vida de sacrifício e do seu trabalho duro, para dar o melhor que puder aos filhos. Mas esta canção, em cuja letra Nenny revela uma maturidade surpreendente, é mais do que a sua história e a da sua progenitora, acabando por ser um tributo à luta materna. "Quis simplesmente homenagear a minha mãe e todas as mães que tiveram que batalhar muito pelos filhos", diz ao Contacto.

O desassombro com que explica a motivação desse tema é o mesmo com que junta, nas suas composições, línguas, crioulo, e expressões de calão e urbanidade próprias da sua geração, assim como as heranças musicais do funaná e da kizomba, com as quais cresceu, por influência dos pais cabo-verdianos, cruzadas com abordagens mais pop. "Essa mistura é importante para mim porque simplesmente faz parte da minha identidade e da minha maneira de me expressar", refere a cantora, nascida em Vialonga, no concelho de Vila Franca de Xira.

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Aos 11 anos mudou-se com a mãe para França, para os subúrbios de Paris, onde viveu alguns anos. A vida aí não se revelou menos dura que em Portugal. Um caminho comum a muitos daqueles que se aventuram na emigração em busca de melhor trabalho e condições de vida e que Nenny espelhou também no tema 'Dona Maria', cantando 'Mudámos de país, fomos p’ra França / Escravas à mesma mas língua diferente'. Sobre essa passagem, explicou em entrevista ao Observador, em fevereiro deste ano, que se refere ao facto de a sua "mãe ter de estar sempre a trabalhar". "Sempre que encontrava um trabalho ia, às 19h ia, às 22h ia, era aquela coisa de: 'onde houver trabalho, vou'", explicou ao jornal online português.

Em setembro de 2019, veio para o Luxemburgo com a mãe e começou novamente uma nova escola e uma nova vida. Ao Contacto adianta que o que as levou a mudar outra vez país e a mais este recomeço "foi o ambiente" que o Grão-Ducado lhes ofereceu. "Gosto muito de viver no Luxemburgo", sublinha. Aqui, afastada geograficamente do país onde nasceu e cresceu e onde vai constantemente para gravar os temas e respetivos vídeos, é uma jovem comum, estudante de liceu, que, nos tempos livres, escreve as letras para os 'beats' que a equipa de produtores com quem trabalha lhe envia. No Luxemburgo, o seu dia a dia é "tranquilo, sem stress e sempre positivo".

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

Com um gosto especial pelo estudo de línguas, a música nunca interrompeu a escola. Pelo contrário, foi nela que Nenny deu os primeiros passos de um sonho que começou ainda em criança. "A primeira fez que cantei em público foi na escola, onde tinha uma pequena banda com os meus professores. Comecei a ganhar interesse pela a música desde muito cedo, com uns 6 ou 7 anos, quando via muitos canais de música e a Disney".

A prova de que cantar não seria apenas um desejo infantil, comum ao de tantas outras meninas, veio através das primeiras letras que criou. "Apercebi-me que o meu interesse pela música era sério quando comecei a querer escrever e a fazer 'covers'". A primeira música, como disse ao Observador, terá sido escrita cerca dos 10 anos e "falava sobre racismo e preconceito".

Há dois anos, passou então a encará-la com uma perspetiva mais profissional, quando gravou as suas primeiras canções, às quais se seguiriam, mais tarde, os vídeos seguidos por milhões no YouTube. "Comecei em 2018 quando fui pela primeira vez ao estúdio", conta ao Contacto. A 'cover' do tema 'Devia Ir', dos Wet Bed Gang, seria o ponto de partida. "As pessoas começaram a partilhar [o vídeo publicado online] e foi aí que comecei a ir ao estúdio deles [Wet Bed Gang]", contou em entrevista à Lusa, em Lisboa, numas férias da escola que frequenta no Luxemburgo.

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Quase dois anos depois estaria no mesmo patamar daquele grupo – formado por amigos do irmão e do primo e vizinhos do bairro onde viveu em Vialonga – a disputar a categoria de Melhor Canção, com 'Bússola', na última edição dos Prémios Play.

Nenny é autora de quase todas as letras e músicas a que dá voz e nelas põe o que é e o que quer ser, assim como ao que veio, nesse campo infinito que pode ser o da música. Tal como diz no tema 'Sushi', o seu primeiro original, em que canta 'Isto não é só hip hop/Aqui é matéria futurista no meu guimbo'. "Essa frase quer dizer que a minha arte não se trata só de hip hop, trata-se de uma ideologia e de um legado". Uma arte que passa pelo gosto de cantar questões como "o amor próprio e a motivação" e que se inspira e espelha muitas influências musicais.

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De Chris Brown, Cristina Aguilera e Rihanna, passou a ouvir, mais recentemente "muito Bob Marley, Richie Campbell, Teyana Taylor...". Se lhe perguntamos por preferências no hip hop lusófono, a resposta também sai sem demoras: "Para mim, uns dos melhores são o Phoenix Rdc e o GSon". E se o hip-hop é veículo e megafone de tantas questões, batida de combate a injustiças e inquietações, a artista, que não gosta do rótulo de rapper, faz também questão de dizer o que pensa quando o tentam menorizar. "O que sempre revoltou no hip hop foi a expressão livre que é julgada demasiado invulgar e imprópria aos olhos da sociedade".

Quanto à sua "arte", como refere, e até onde ela pode ir também não há limites. "O meu sonho para a minha música é o de ajudar o máximo de pessoas possível, psicologicamente, e de ser ouvida no mundo inteiro". A partir do Luxemburgo, onde diz estar "super bem", a sua bússola "agora aponta para a conquista de ouvintes a nível internacional", mas não vai parar por aí. "Mais tarde penso criar a minha própria empresa e a minha própria marca", diz-nos Nenny, a jovem artista que canta "vou levar o meu nome ao espaço", mas que se sente "feliz e agradecida" com o que já alcançou.

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