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Nebraska: Lotaria

Nebraska: Lotaria

Cultura 3 min. 09.04.2014

Nebraska: Lotaria

Na minha primeira visita aos Estados Unidos passeei pela costa leste de automóvel. De Nova Iorque para cima não me escapou nada.Um certo dia, a regressar da fronteira canadiana, comprei aquilo que parecia ser uma raspadinha. Não era caro. Por muito menos de um dólar fiquei habilitado a não sei que imenso montante.

Os meus companheiros de viagem acharam aquela rifa um excelente investimento e concordámos que, no caso de ganharmos, dividiríamos a maquia.

Horas depois acabámos por raspar o bilhete e descobrimos que tínhamos ganho. Uau! Tratava-se de um montante que nos permitiria aos quatro pagar um bom jantar. Vamos levantá-lo já na próxima bomba de gasolina!

A desilusão aguardava-nos. O bilhete era provavelmente ganhador, mas estávamos no Massachusetts e a raspadinha era de New Hampshire. Era impossível receber o nosso prémio ali. A decisão foi tomada rapidamente: meia volta e vamos lá fazer umas centenas de “miles” a mais para embolsar o dinheiro.

Esta história não podia deixar de me ocorrer a propósito de “Nebraska”. Neste filme de Alexander Payne, Woody (Bruce Dern) recebe uma carta, que tem tudo de um “spam”, a informá-lo de que ganhou um milhão de dólares mas que para receber o dinheiro tem de ir buscá-lo ao Estado do Nebraska. Note-se que Woody tem mais de 80 anos e vive no Montana, a mais de mil quilómetros do Nebraska.

A primeira reacção de Woody é ir até ao Nebraska a pé. Descobrimos isso quando um xerife o pára na beira da via rápida. Woody regressa a casa contrafeito, deixando a impressão nos espectadores de que o seu comportamento tem provavelmente a ver com o seu gosto pelo álcool. Ou será que Woody está a ficar xexé? É preciso continuar a ver “Nebraska” para responder a estas questões.

Quando David, o filho de Woody, o questiona sobre o que faria com o dinheiro, a resposta é clara: comprar uma carrinha nova. Contudo, Woody já não tem carta de condução. Woody quer também comprar um compressor para substituir aquele que emprestou a um amigo há 40 anos e que nunca lhe foi devolvido.

A mulher de Woody também tem um objectivo para o dinheiro: colocar o marido num asilo. O seu filho Ross concorda, pois acha que essa é a melhor solução para toda a família.

David – que como quase toda a gente neste filme não tem trabalho – decide fazer-se à estrada com o pai. A rota escolhida não é necessariamente a mais curta. Uma passagem pelo monte Rushmore e pela cidade natal de Woody fazem parte do itinerário e da descoberta de quem é verdadeiramente este octogenário mal humorado.

“Nebraska” é um filme belíssimo rodado a preto e branco pelo responsável pela fotografia Phedon Papamichael. Cada imagem parece uma fotografia artística pronta a ser publicada nas melhores revistas do género. E tudo o que Alexander Payne decide mostrar ao espectador dá a impressão de que o tempo parou.

A música de Mark Orton contribui para complementar as imagens admiráveis, acrescentando uma boa dose de melancolia.

Bruce Dern obteve o prémio para o melhor actor em Cannes, onde o filme teve a sua estreia mundial. Nos Óscares foi finalista mas ofuscado pela prestação de Matthew McConaughey em “Dallas Buyers Club”. 2013 foi um bom ano para interpretações masculinas e a de Dern está entre as melhores.

Alexander Payne cria neste filme um ambiente cheio de esperança, apesar de tanta ironia e tristeza. Pai e filho não vão regressar a casa com uma vida melhor nem fazem nenhuma descoberta essencial sobre as suas vidas. Woody sabe que está a envelhecer rapidamente, enquanto que David tem uma vida aborrecida e solitária. Curiosamente, esta viagem não muda nada nas personagens, mas nada será igual para eles nem para o público que tiver a sorte de ver “Nebraska”.

“Nebraska”, de Alexander Payne, com Bruce Dern, Stacey Keach, Will Forte, June Squibb e Bob Odenkirk.

Raúl Reis