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Na segunda-feira: Morreu o poeta Herberto Helder
Cultura 4 min. 24.03.2015 Do nosso arquivo online

Na segunda-feira: Morreu o poeta Herberto Helder

Na segunda-feira: Morreu o poeta Herberto Helder

Foto: Alfredo Cunha/Porto Editora
Cultura 4 min. 24.03.2015 Do nosso arquivo online

Na segunda-feira: Morreu o poeta Herberto Helder

O poeta Herberto Helder, de 84 anos, morreu na segunda-feira na sua casa em Cascais, disse na terça-feira à Lusa fonte da família. A mesma fonte adiantou que nesta quarta-feira haverá uma cerimónia privada apenas para a família e que não serão dadas mais informações sobre o funeral do poeta.

O poeta Herberto Helder, de 84 anos, morreu na segunda-feira na sua casa em Cascais, disse na terça-feira à Lusa fonte da família. A mesma fonte adiantou que nesta quarta-feira haverá uma cerimónia privada apenas para a família e que não serão dadas mais informações sobre o funeral do poeta.

Considerado um dos maiores poetas portugueses, Herberto Helder deu sua última entrevista em 1968 e recusou o Prémio Pessoa em 1994, rejeitando quase sempre o mediatismo literário.

Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira nasceu a 23 de Novembro de 1930 no Funchal, ilha da Madeira, numa família de origem judaica. Aos 16 anos viajou para Lisboa para frequentar o liceu, tendo posteriormente ingressado na Faculdade de Direito de Coimbra. Em 1949, mudou para a Faculdade de Letras, onde frequentou o curso de Filologia Romântica, que não chegou a concluir.

De regresso a Lisboa, passou a viver “por razões pessoais” numa ’casa de passe’ e começou a trabalhar na Caixa Geral de Depósitos e posteriormente como angariador de publicidade.

SEIS DÉCADAS DE POESIA 

O poeta Herberto Helder morreu na segunda-feira aos 84 anos
O poeta Herberto Helder morreu na segunda-feira aos 84 anos
Foto: Alfredo Cunha/Porto Editora

Em 1954, publicou o seu primeiro poema, em Coimbra, e regressou à Madeira, onde trabalhou como meteorologista.

Quando regressou a Lisboa, em 1955, frequentou o grupo do Café Gelo, formado por figuras como Mário Cesariny, Luiz Pacheco, Hélder Macedo, João Vieira e António José Forte.

Trabalhou como delegado de propaganda médica e redactor de publicidade durante três anos.

Em 1958 publicou o seu primeiro livro, “O Amor em Visita”, ao qual se seguiu “A colher na boca”, “Poemacto” e “Lugar”, editados no início da década de 1960.

Nos anos seguintes viveu em França, Holanda e Bélgica, como operário, empregado numa cervejaria, cortador de legumes, empacotador de aparas de papel e policopista, tendo mesmo vivido na clandestinidade em Antuérpia, onde foi guia de marinheiros no submundo da prostituição.

Regressado a Portugal em 1960, tornou-se encarregado das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, profissão que o fez percorrer vilas e aldeias do Baixo Alentejo, Beira Alta e Ribatejo.

Em 1963 publica “Os passos em volta”, obra reeditada pelo Porto Editora em Janeiro último.

Em 1968, envolveu-se na publicação de “Filosofia na Alcova”, do Marquês de Sade, que desencadeou um processo judicial no qual foi condenado, com pena suspensa, o que não impediu que fosse despedido da rádio oficial.

Um ano depois, tornou-se director literário da Editorial Estampa, onde começou a publicar a obra completa de Almada Negreiros. Neste mesmo ano publicou “Apresentação do Rosto”, uma autobiografia, livro que foi apreendido pela Censura.

Foi para Angola em 1971, trabalhar numa revista. Como repórter de guerra, sofreu um grave acidente e esteve hospitalizado três meses. Regressou a Lisboa e partiu novamente, agora para os Estados Unidos, em 1973, ano em que publicou “Poesia Toda”, reunindo a sua produção poética até à data, e fez uma tentativa falhada de publicar “Prosa Toda”.

A Portugal, voltaria só depois do 25 de Abril, já em 1975, para trabalhar na rádio e em revistas, como meio de sobrevivência, tendo sido editor da revista literária Nova, de que se publicaram apenas dois números.

Depois de publicar, nos anos seguintes, mais algumas obras, entre as quais “Cobra” (1977), “O Corpo, o Luxo, a Obra” (1978) e “Photomaton & Vox” (1979), remeteu-se ao silêncio. Em 1977 tinha enviado uma carta à revista Abril, endereçada a Eduardo Prado Coelho, na qual sobre si escreveu: “O que é citável de um livro, de um autor? Decerto a sua morte pode ser citável. E, sobretudo, o seu silêncio”. Por isso, pediu aos amigos que não falassem dele num documentário que António José de Almeida pretendia realizar para a RTP2, em 2007. O documentário, “Meu Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro”, acabou por ser feito, mas apenas adensou o mistério em torno da figura do poeta, já que 17 das 29 pessoas contactadas pela produção se recusaram a dar o seu testemunho.

Já neste século, o poeta voltou a editar, em 2008, “A faca não corta o fogo – Súmula & Inédita”, sucedendo-se no ano seguinte “Ofício Cantante”. Editou também a sua poesia completa em “Poemas completos”, obra que segue a fixação empregue na edição anterior, “Ofício Cantante”, e inclui o esgotado “Servidões”, que foi considerado pela crítica literária como o livro do ano em 2013, e “A morte sem mestre”, o seu último livro de inéditos, escrito em 2013 e publicado em Junho de 2014, numa edição limitada da Porto Editora. 

"Um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos”

Sobre ele, escreveu o crítico literário e responsável pela primeira edição brasileira da poesia de Herberto Helder publicada no Brasil em 2000, Jorge Henrique Bastos, que o poeta “impulsiona a viva encantação das palavras [e que] o abalo que a sua poesia provoca é um dos mais profundos que a literatura de língua portuguesa já sofreu”.

O escritor Manuel Alegre lamentou a morte de Helder, sublinhando que “era um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos”. Em declarações à agência Lusa, Alegre disse-se muito comovido por “ter perdido um grande amigo”. “Onde morre um grande poeta fica sempre um grande vazio”, acrescentou.

Para a Porto Editora, Helder foi um “poeta maior que ficará entre a meia dúzia de nomes incontornáveis da poesia portuguesa do século XX”.


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