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Na Rua da Grande Cidade: Amor, fama e tragédia

Na Rua da Grande Cidade: Amor, fama e tragédia

Foto: Reuters
Editorial Cultura 4 min. 25.07.2018

Na Rua da Grande Cidade: Amor, fama e tragédia

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Todas as pressões e contradições foram transformadas por Picasso numa energia criativa febril e aparentemente inesgotável.

Natal de 1931. Pablo Picasso acaba de completar 50 anos e, longe do exilado anónimo que tinha vivido na maior pobreza em Paris, é um nome facilmente reconhecido pelo público. A fortuna acompanha a fama, e além da limusina Hispano-Suiza (com correspondente chauffer) e do duplo apartamento na rua de la Boètie, o artista acaba de adquirir um verdadeiro castelo rural na província francesa. Os críticos indagam-se se Picasso ainda é um artista relevante ou se pelo contrário está ultrapassado, confortável no seu aburguesamento, incapaz de ser credível ao retratar um submundo – saltimbancos, bêbados, prostitutas – a que há muito não pertence. Há quem se incline para conceder o trono dos pintores a Matisse, o rival (e amigo) de sempre que acaba de obter a honra sem precedentes de uma retrospetiva da sua carreira quando ainda em vida; e depois, claro, Picasso tem sempre presente a comparação da sua obra com a dos grandes mestres do passado, desde Delacroix a Ingres passando por Velázquez, todos num pedestal a que ele aspira mas não está ainda certo de pertencer.

Provar a sua relevância para a posteridade nem sequer é o único desafio na vida do mestre. Picasso está aprisionado num casamento infeliz de 13 anos com a fria Olga, e a vida de um respeitável e previsível pai de família revela-se sufocante para este eterno boémio. A tudo isto soma-se a biologia – talvez Picasso seja um génio imortal, mas não deixa de ser também um egocêntrico homem de meia-idade com as inseguranças inerentes que tal pressupõe. A conquista de uma jovem de 17 anos, loura e voluptuosa, traz-lhe essa validação, essa tranquilidade de enganar a lei da idade e da decadência – mas o que Pablo talvez não esperasse era apaixonar-se tão perdida e fogosamente. É por isso que nesse natal, depois das dolorosas festividades, se refugia no seu estúdio para escapar à esposa e ali, em apenas uma noite, termina dois quadros: um pequeno, cruel, onde uma mulher ciumenta esfaqueia a rival; o segundo, de muito maiores dimensões e à base de pinceladas suaves, carinhosas, mostra uma mulher loura, sentada numa poltrona. No lugar da cara, que o artista não pode pintar para não revelar o seu segredo, há um coração estilizado. Ela é Marie- Thérèse, a amante secreta de Picasso que toda a sua longa vida esperou vir finalmente a casar-se com ele.

Com esses dois quadros se inicia a extraordinária exposição agora em Londres, “Amor, fama e tragédia”, que incide sobre um só ano da vida do pintor. Todas essas pressões, com o estado preocupante do mundo como pano de fundo, foram transformadas por Picasso numa energia criativa febril e aparentemente inesgotável. 1932 foi um ano efervescente, um “ano de maravilhas” em que os acontecimentos – e grandes quadros – se sucedem a velocidade vertiginosa.

Cada sala da exposição fala-nos sobre um período de um ou dois meses, cada um deles mais surpreendente que o anterior; o salão central serve de vértice onde culminam todas as contradições de que enfermava a vida do mestre. Ali se reproduz a – tão desejada por Picasso, e organizada por ele mesmo – retrospetiva de carreira que teve lugar naquele junho. Nela os quadros estavam todos misturados, sem coerência de estilos, ordem cronológica ou cartões explicativos; na maioria a musa era uma nova mulher, mas no centro ainda apareciam orgulhosamente os retratos da família Picasso, como que estruturando o caos envolvente.

Quem costuma ler este espaço talvez se lembre dos paralelismos que traço entre o início da década de 1930 e os tempos perigosos em que vivemos hoje. Para Picasso, o ano das maravilhas de 1932 começou sob a força de um amor arrebatador, ao qual se juntaram, ao longo do verão, os benefícios da fama. No final do ano, no entanto, as cores tornam-se mais escuras, as formas mais ameaçadoras. A arte imita a vida, em Picasso ambas chegam a confundir-se, e Marie-Thérèse, a amada secreta, apanha uma grave infeção viral por nadar num rio poluído – perde o cabelo louro e quase morre.

Nesse dezembro, Picasso pinta sucessivos quadros onde um homem salva uma mulher que se afoga; no último destes, estas personagens já se metamorfosearam numa mãe aflita que carrega um filho. Trata-se de um prenúncio das nuvens negras com que aquele ano termina… Mussolini consolida o poder em Itália e na Alemanha, poucos dias depois é eleito chanceler um tal Adolf Hitler. A exposição termina com a frase premonitória “Tudo o que amamos está prestes a desaparecer, e por isso devemos vivê-lo mais intensamente uma última vez”. Picasso parecia pressentir que a tragédia se sucedia ao amor, e que o seu mundo intenso e extraordinário de 1932 estava já perdido para sempre. Se 2018 for o nosso 1932, ao menos que tenhamos a mesma consciência.


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