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Músico e jornalista Manuel Ribeiro: Luso-descendente é o especialista de música clássica na rádio pública luxemburguesa
Cultura 5 min. 18.10.2014

Músico e jornalista Manuel Ribeiro: Luso-descendente é o especialista de música clássica na rádio pública luxemburguesa

Músico e jornalista Manuel Ribeiro: Luso-descendente é o especialista de música clássica na rádio pública luxemburguesa

Foto: Tania Bettega
Cultura 5 min. 18.10.2014

Músico e jornalista Manuel Ribeiro: Luso-descendente é o especialista de música clássica na rádio pública luxemburguesa

Manuel Ribeiro vive para a música. O luso-descendente é o especialista de música clássica da rádio "100,7", a estação pública luxemburguesa, e crítico musical da revista Pizzicato. Mas além de apresentador de programas de rádio, este filho de imigrantes portugueses da região de Anadia, que estudou no Conservatório do Luxemburgo, também toca clarinete. O músico e jornalista actua este sábado na capital.

"A minha vida é música de manhã à noite", garante Manuel Ribeiro. Na emissora nacional luxemburguesa, Manuel produz e apresenta vários programas, da ópera ao jazz, e já entrevistou os maiores intérpretes da música clássica que passaram pelo Luxemburgo. O maestro Mariss Jansons, um ícone mundial, a mezzo-soprano sueca Charlotte Hellekant ou o compositor holandês Johan de Meij, conhecido pela Sinfonia do Senhor dos Anéis, são alguns dos nomes que já entrevistou.

Filho de imigrantes portugueses que chegaram ao Luxemburgo em 1969, Manuel Ribeiro, de 43 anos, fez um "desvio" antes de chegar à rádio. O menino que aos nove anos começou a tocar clarinete na Banda Filarmónica de Rumelange, "em vez de ir jogar futebol com os amigos", passou a adolescência no Conservatório de Esch-sur-Alzette e a tocar em orquestras luxemburguesas, mas acabaria por tirar o curso de engenharia e por trabalhar durante 15 anos na companhia siderúrgica Arcelor. A música, essa, continuou a ser uma presença diária na sua vida: concluiu o curso superior de clarinete no Conservatório do Luxemburgo, foi chefe de orquestra de várias bandas filarmónicas e deu aulas durante dez anos na União Grand-Duc Adolphe (UGDA), a maior escola de música do país.

"Nunca deixei a música, e não havia quase noite nenhuma em que eu não tocasse, enquanto trabalhei na Arcelor. Era trabalho-música, trabalho-música", conta Manuel Ribeiro ao CONTACTO. Um feito tanto maior quando se sabe que o trabalho de engenheiro na Arcelor o obrigava a viajar para países como o Cazaquistão, Ucrânia ou África do Sul.   

Mudar de vida

A oportunidade de integrar os quadros da rádio pública luxemburguesa surgiu há seis anos, quando viu um anúncio no jornal. "Estavam à procura de um especialista em música clássica e decidi candidatar-me", recorda Manuel Ribeiro, que nasceu no Luxemburgo e se naturalizou aos 18 anos.

Hoje, a música deixou de ser apenas uma paixão para se converter numa profissão, mas ao fim de um dia de trabalho na rádio luxemburguesa, Manuel Ribeiro ainda encontra tempo para ouvir mais música clássica.

"Depende do humor, mas ouço muito o Adágio de Bruckner, da Sinfonia n° 8: são 30 minutos de tranquilidade", conta ao CONTACTO, sentado na biblioteca do espectacular edifício de betão armado da rádio "100,7", em Kirchberg, para onde a estação se mudou há cerca de um ano.

O apresentador de rádio e músico actua hoje na capital luxemburguesa
O apresentador de rádio e músico actua hoje na capital luxemburguesa
Foto: Tania Bettega

A música é a linguagem de eleição deste luso-descendente discreto e reservado, que fala um português com sotaque, mas fluente. "Sou sensível às vozes das pessoas e aos sons, ao ruído das impressoras, dos carros, e há coisas que até podem ser musicais. Uma ribeira na floresta é pura música", diz.

Uma banda sonora que é uma constante e o assalta em todos os momentos. "Não canto, mas fecho os olhos e tenho a música gravada na cabeça", diz Manuel Ribeiro. "Agora, por exemplo, é a sinfonia n° 6 de Tchaikovsky, a 'Pathéthique'", conta, entoando timidamente alguns compassos.

Mas é eclético, desde que os músicos sejam "virtuosos": gosta de rock progressivo ("o rock e o barroco têm muitas semelhanças, a começar pelos ritmos", garante), e entre os portugueses prefere os antigos Madredeus e Cristina Branco - a única excepção que abre no fado, que não quadra bem com a suavidade deste luso-descendente.

"Aquilo de que nunca gostei no fado é o dramatismo exagerado", admite Manuel Ribeiro, "mas acho a Cristina Branco fantástica".

Além de apresentar vários programas na rádio "100,7", em luxemburguês ou francês, Manuel Ribeiro é ainda crítico musical na antiga revista Pizzicato, que desde Dezembro de 2013 passou a ser publicada apenas na internet. Uma a duas vezes por ano, troca o microfone pelos palcos, tendo já actuado em Portugal com o 'Ensemble' de instrumentos de plectro de Esch-sur-Alzette, dirigido por Juan Carlos Muñoz, "um dos melhores intérpretes de bandolim do mundo", numa digressão que os levou a Coimbra, Braga e à Maia, há um ano.

Manuel Ribeiro actua este sábado com o pianista Romain Kerschen na Casa Fabiana, em Bonnevoie, a partir das 21h. No programa, um misto de jazz "easy listening", de "Strangers in the night" a "Moonlight Serenade", mas também o "Libertango" do argentino Astor Piazzola, a "Meditação" da ópera Thaïs, do francês Jules Massenet, ou um dos concertos para clarinete de Carl Stamitz. Um programa que ilustra bem o ecletismo do jornalista de origem portuguesa, para quem a música é um modo de vida.

"Antigamente, a música tinha outra importância. Hoje é apenas entretenimento, mas antes tinha um valor cultural e mesmo político. É uma pena que esteja a desaparecer das escolas: para mim devia ser de aprendizagem geral para todos a partir da escola primária, porque tem vantagens a nível social e mesmo na saúde, tal como o desporto".

Quem toca por gosto não cansa, e Manuel Ribeiro actua hoje novamente na capital luxemburguesa.

Paula Telo Alves