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Mural do artista português Vhils vai poder ser visitado na zona franca do Luxemburgo 
Cultura 5 min. 19.09.2014 Do nosso arquivo online
Em Setembro

Mural do artista português Vhils vai poder ser visitado na zona franca do Luxemburgo 

Em Setembro

Mural do artista português Vhils vai poder ser visitado na zona franca do Luxemburgo 

Foto: Guy Jallay
Cultura 5 min. 19.09.2014 Do nosso arquivo online
Em Setembro

Mural do artista português Vhils vai poder ser visitado na zona franca do Luxemburgo 

O mural do artista português Vhils no Freeport do Luxemburgo, a zona franca para armazenar obras de arte e artigos de luxo que já foi descrita como um "bunker", vai poder ser visto pelo público a título excepcional, a 28 de Setembro.

O mural, com 26 metros por 10, foi esculpido por Vhils, pseudónimo de Alexandre Farto, no átrio central do edifício inaugurado esta semana, um depósito de alta segurança para guardar e transaccionar "obras de arte, vinhos finos, metais preciosos, jóias, diamantes e automóveis de colecção", segundo o portal do Freeport do Luxemburgo.

Ao contrário de outros trabalhos do artista urbano português, que começou por pintar paredes com "graffiti" aos 13 anos e atraiu a atenção do mundo a escavar muros com retratos, o mural realizado para o Freeport não vai poder ser visto pela generalidade do público, já que o acesso ao edifício de alta segurança é limitado.

A título excepcional, o Freeport organiza a 28 de Setembro uma visita aberta ao público, no âmbito da exposição "Private Art Kirchberg", organizada pelo Museu de Arte Moderna do Luxemburgo (Mudam).

"É uma ocasião excepcional, porque é uma obra impressionante e vai poder ser vista no local, em vez de ver apenas imagens ou vídeos", disse ao CONTACTO o responsável de comunicação do museu, Valerio d'Alimonte.

Composto por rostos esculpidos no betão, recorrendo a técnicas de cofragem, picaretas e martelos pneumáticos, o mural levou três semanas a concluir, decorando agora o átrio principal do Freeport, um local que já foi descrito como um "bunker" e onde, segundo o director, "só se entra por convite".

As visitas guiadas vão decorrer a 28 de Setembro (um domingo), entre as 12h30 e as 18h. O Freeport organiza um serviço de autocarros que saem de meia em meia hora da entrada do Deustche Bank, em Kirchberg, em direcção ao entreposto aduaneiro, situado perto do aeroporto. Para participar, não é necessário inscrição prévia, mas os lugares são limitados. Cada visita tem um limite máximo de 25 pessoas, e é necessário levar o bilhete de identidade ou um documento de identificação para poder entrar no Freeport. 

Um armazém para atrair os "super-ricos"

O Freeport foi inaugurado na quarta-feira, durante uma cerimónia com o Grão-Duque e membros do Governo
O Freeport foi inaugurado na quarta-feira, durante uma cerimónia com o Grão-Duque e membros do Governo
Foto: Gerry Huberty

O Freeport do Luxemburgo é o primeiro entreposto aduaneiro deste género na União Europeia, e surge em resposta ao aumento da procura de arte por investidores desde a crise financeira de 2008.

"As pessoas deram-se conta que os bancos podiam falir e levar o dinheiro com eles, o que aumentou a procura de ouro mas também de arte”, disse o director do Freeport de Singapura, propriedade do consórcio que também detém a empresa no Luxemburgo, citado pela agência Reuters.

Segundo o portal da empresa, os clientes, que incluem "coleccionadores públicos e privados, museus, investidores, galerias e fundos de investimento", vão poder armazenar obras de arte e bens valiosos "sem limite de tempo", podendo também transaccioná-los no local sem pagar IVA ou taxas alfandegárias, enquanto ali estiverem armazenados.

Antes mesmo de abrir, o estabelecimento luxemburguês detido maioritariamente pelo empresário suíço Yves Bouvier, que também é proprietário do Freeport de Singapura e de Genebra, na Suíça, foi alvo de críticas.

Economist denunciou casos de evasão fiscal e lavagem de dinheiro em estabelecimentos deste tipo a funcionar noutros países, a que chamou os "super-armazéns dos ultra-ricos". O jornal inglês apontava ainda casos de antiguidades roubadas que foram escondidas durante vários anos em Genebra, pioneira deste tipo de "portos francos".

Em resposta às críticas, o director do Freeport do Luxemburgo, David Arendt, disse ao jornal Luxemburger Wort que os bens "vão ser fiscalizados" por funcionários alfandegários e que a empresa não vai tolerar infracções à lei.

"Isto não é uma zona de não-direito, como já li em vários sítios. Estamos em território luxemburguês e as leis sobre lavagem de dinheiro também se aplicam aqui", afirmou David Arendt.

O Freeport também foi alvo de críticas no mundo artístico. O grupo luxemburguês "Richtung 22" teme que a concessão de vantagens fiscais ao depósito de obras de arte leve "a cultura a desaparecer por detrás de betão e arame farpado". O grupo vai apresentar uma sátira teatral intitulada "Freeport, Cultura Segura" no Teatro do Centauro, na capital luxemburguesa, a partir de 26 de Setembro.

Em Maio, quando esteve no Luxemburgo para terminar o mural, o CONTACTO perguntou ao artista, conhecido por realizar retratos em fachadas de prédios, incluindo na maior favela do Rio de Janeiro, se a mensagem artística que quer transmitir não corre o risco de ser neutralizada pelo facto de esta obra estar num local polémico, fechado à generalidade do público.

"O que mais me interessa no final é que a mensagem que eu quero passar com os meus projectos chegue às pessoas, e se isso implica eu fazer um ou dois projectos destes, que me dão algum dinheiro para poder fazer outros projectos, vou fazê-lo", disse na altura ao CONTACTO Alexandre Farto. "Se eu fizesse estes projectos todos os dias, aí sim, havia uma neutralização, estava a abdicar da mensagem e do conceito que eu quero passar com o meu trabalho”, afirmou.  

O artista tem actualmente uma exposição no Museu da Electricidade, em Lisboa, que já foi visitada por mais de 47 mil pessoas.

Paula Telo Alves

(Clique para ver a fotogaleria do mural)


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