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Motins, drogas e agressões sexuais. O pesadelo do Woodstock'99 em documentário
Cultura 4 min. 22.09.2022
Festivais

Motins, drogas e agressões sexuais. O pesadelo do Woodstock'99 em documentário

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Motins, drogas e agressões sexuais. O pesadelo do Woodstock'99 em documentário

Foto: Netflix - "Anthology Chaos: Woodstock '99"
Cultura 4 min. 22.09.2022
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Motins, drogas e agressões sexuais. O pesadelo do Woodstock'99 em documentário

AFP
AFP
O documentário da Netflix mostra o caos que foi a reedição do festival de Woodstock de 1999, o oposto da edição original que ficou conhecida por celebrar a paz e o amor.

Incêndios, pilhagens, drogas, agressões sexuais: "Anthology Chaos: Woodstock '99", um documentário da Netflix, que revisita este festival americano mostra como o evento se tornou um pesadelo e o oposto do festival original, realizado em 1969, que celebrava a paz e o amor. A edição de 1999 foi um desastre, cujos contornos são retratados nesta série documental.

No dia seguinte ao evento, no final de julho de 1999 - onde se celebrou o 30º aniversário do Woodstock original - as notícias televisivas apenas retransmitiram a espessa coluna de fumo negro que se elevava de um local devastado, símbolo do fiasco. 

Mais de 20 anos mais tarde, em 2021 começou a revelar-se a verdadeira dimensão deste fiasco da indústria musical, com um primeiro documentário produzido pela HBO e intitulado "Woodstock 99, paz, amor e fúria".

Mas "Anthology Chaos: Woodstock '99", dirigido por Jamie Crawford e disponível na Netflix, vai mais fundo. Em três episódios de cerca de uma hora cada são revelados vários testemunhos, de organizadores a festivaleiros, passando por jornalistas, socorristas, seguranças e funcionários da saúde pública. 

O resultado é uma sequência de memórias fragmentadas que permaneceram de um tempo em que ainda não havia redes sociais.

Ganância, motins e cenário de guerra

"Foi a queda de Hanói", descreveu Tim Healy, um produtor de televisão na altura, em "Anthology Chaos: Woodstock '99", falando sobre a última noite do evento. Anthony Kiedis, líder dos Red Hot Chili Peppers, também fez uma comparação semelhante. É o 'Apocalypse Now', exclamou, em filmagens de arquivo quando a banda regressou ao palco para o bis. O local acabou incendiado pelas chamas. 

Milhares de festivaleiros (na altura publicitou-se um total de 250.000 pessoas), que tinham recebido 100.000 velas, acenderam fogueiras e atiraram tudo o que encontraram para a fogueira. Ou estavam bêbedos ou zangados depois de terem sido massacrados em condições indignas numa antiga base aérea militar no Estado de Nova Iorque. 

Os tanques dos camiões de organização estacionados mais longe explodiriam em enquanto saqueadores atacariam, entre outras coisas, a área de merchandising e as caixas automáticas do recinto.

Como é que se chegou a isto? Lee Rosenblatt, na altura com 22 anos de idade, gerente assistente no evento, aponta a "ganância" dos responsáveis como causa: "aproveitaram-se destes jovens". 

Michael Lang foi um dos pais do Woodstock original, o de 1969. Morreu recentemente.
Michael Lang foi um dos pais do Woodstock original, o de 1969. Morreu recentemente.
Foto: Michael Loccisano/AFP

Os organizadores do Woodstock 1999 foram Michael Lang, 'pai' fundador do Woodstock 1969 (que morreu recentemente) e o seu "poderoso parceiro" para o 30º aniversário, John Scher, promotor. Ambos deram o seu testemunho no documentário da Netflix. Enquanto o primeiro parece esmagado pela dimensão do espetáculo criado, o segundo admite que "era absolutamente necessário fazer lucro". 

Uma garrafa de água que custava 65 cêntimos na cidade era vendida por 4 dólares no festival e os festivaleiros acabavam por esvaziá-las logo à entrada, com o alcatrão a refletir temperaturas de mais de 35 graus. 

Falta de segurança e violações

Ao mesmo tempo que os promotores procuravam fazer lucro, os custos de organização também foram reduzidos, comprometendo a segurança dos festivaleiros. 

As amostras recolhidas pelos serviços de saúde revelaram que as poucas fontes de água potável existentes estavam contaminadas por excrementos. Além disso, o  "Woodstock '99 não tinha agentes de segurança decentes" e  "suficientes", afirmou Colin Spear, membro da produção à época. Spear também não escondeu o facto de as drogas circularem livremente no recinto e deu o seu próprio exemplo, revelando que ia tomar ecstasy, oferecido por uma rapariga, para celebrar o facto de fazer 29 anos durante o festival.

A par com a circulação livre de drogas, o pessoal de segurança tinha sido recrutado à pressa e sem formação suficiente. A Guarda Nacional acabou por ser chamada no final do festival. 

O Woodstock '99 já estava a meio, quando o set do dj Fatboy Slim foi interrompido. Uma carrinha tinha sido sequestrada por um grupo de festivaleiros e estava a conduzir lentamente através do público. 

A.J. Srybnik, supervisor do espetáculo na altura, disse à Netflix que o condutor da carrinha estava em estado de choque. O supervisor descobriu uma rapariga na traseira da carrinha, "com 15 ou 16 anos (...) com as calças à volta dos tornozelos, desmaiada", enquanto um jovem se vestia ao seu lado. 

Os meios de comunicação social americanos acabariam por se referir a "alegações de violação", numa era pré-MeToo em que as agressões sexuais em festivais eram varridas para debaixo do tapete. 

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