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Morreu o fadista Carlos do Carmo
Cultura 1 16 min. 01.01.2021

Morreu o fadista Carlos do Carmo

Morreu o fadista Carlos do Carmo

Foto: LUSA
Cultura 1 16 min. 01.01.2021

Morreu o fadista Carlos do Carmo

Redação
Redação
O cantor, de 81 anos, morreu na manhã desta sexta-feira, no hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde tinha dado entrada ontem com um aneurisma. Confirmou ao semanário português Expresso fonte da família.
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 A noticia foi confirmada ao Expresso pela família. O cantor tinha sido hospitalizado na quinta-feira com um aneurisma, vindo a falacer na manhã do dia 1 de janeiro.

 O fadista, que nasceu em 1939 e eternizou canções como “Lisboa, menina e moça” e “Os putos”, tinha feito 81 anos no dia 21 de dezembro.  

 Infância e juventude

Carlos do Carmo, nome artístico de Carlos do Carmo de Ascensão Almeida nasceu na Maternidade Magalhães Coutinho, a 21 de dezembro de 1939,e passou a infância no bairro da Bica. Filho de Alfredo de Almeida, comerciante de livros e, posteriormente, proprietário da casa de fados O Faia, e de sua mulher, a fadista Lucília do Carmo. 

Estudou no Liceu Passos Manuel, antes de partir, com 15 anos de idade, para a Suíça. Neste país frequentou o Institut auf dem Rosenberg, um colégio alemão situado em São Galo, durante três anos, tendo oportunidade de estudar línguas estrangeiras, tornando-se fluente em francês, inglês, alemão, italiano e espanhol.  Depois, já em Genebra, obteve um diploma em Gestão Hoteleira.

Carlos do Carmo recusou-se a salientar, como mais importante, qualquer uma das salas onde já cantou, “pois seria até ingrato, não era justo estar a escolher um ou outro” palco, mas destacou “o peso da emigração”, que sempre o recebeu “como um rei”.  

Anos 60 — a carreira artística

Empregado na Companhia Nacional de Navegação, a morte do pai, em 1962, levou Carlos do Carmo a assumir a gerência d'O Faia, que, com o passar dos anos, se tornara numa concorrida casa de Fados da capital. N' O Faia começou a atuar para os amigos e clientes mais frequentes da casa, até que em 1964 abraçou definitivamente a carreira artística.

O surgimento de Carlos do Carmo como fadista dá-se após gravar com Mário Simões uma versão de Loucura, fado de Júlio de Sousa, interpretado também por Lucília do Carmo. O fadista afirma que escolheu o Loucura porque era o único fado de que sabia a letra. Se bem que habituado a ouvir o Fado desde criança, quer na voz de sua mãe, quer na voz de outros intérpretes, como os fadistas populares que ouvia nas verbenas de Lisboa ou dos artistas que passavam pel'O Faia — Alfredo Marceneiro, Maria Teresa de Noronha ou Carlos Ramos, para citar os que mais admirava — o fadista viria a confessar que, nessa época, andava afastado da canção tradicional de Lisboa. Ganhara gosto, no limiar da adolescência, pela música de Luiz Gonzaga e Dorival Caymmi, até se deixar fascinar, pouco mais tarde, por Frank Sinatra e Jacques Brel. De resto, também o facto de passar vários anos no estrangeiro, contribuíra para que Carlos do Carmo se afastasse do Fado.

A interpretação gravada com o quarteto de Mário Simões é um desafio à forma tradicional de interpretação do Fado. Carlos do Carmo canta este tema acompanhado de piano, baixo, guitarra elétrica e um coro de vozes femininas. A faixa começa a passar regularmente na rádio e, em consequência do sucesso que tem, o fadista estreante lança, logo no ano seguinte, um EP em nome próprio: "Carlos do Carmo com Orquestra de Joaquim Luiz Gomes".

Em 1967, a Casa da Imprensa distingue-o com o prémio Melhor Intérprete e, em 1970, atribui-lhe o prémio Pozal Domingues de Melhor Disco do Ano, para o seu primeiro álbum, intitulado O Fado de Carlos do Carmo, editado pela Alvorada em 1969.

Seria o início de uma das mais exemplares carreiras do panorama musical português, em geral, e do Fado, em particular.

Ainda em 1964, casou com Maria Judite de Sousa Leal, com quem teve três filhos, Cila do Carmo, Becas do Carmo e Gil do Carmo.

Anos 70 — Ary dos SantosFestival RTP da Canção e Um Homem na Cidade

À entrada da década de 1970, Carlos do Carmo grava diversos EPs e LPs, como "O Fado em Duas Gerações", "Carlos do Carmo e Lucília do Carmo", "Por Morrer uma Andorinha" ou "Carlos do Carmo".

Entretanto, depois de algumas aparições na televisão, surge em 1972 como produtor e apresentador de um programa semanal na RTP: o "Convívio Musical", por onde passam alguns dos grandes nomes da canção portuguesa e internacional.

Depois do 25 de abril, no Festival RTP da Canção de 1976, em que esta adotou um modelo diferente do habitual, foi o único intérprete. Cantou oito canções, previamente selecionadas por um júri de dois elementos: Manuel da Fonseca e Pedro Tamen. As canções foram "No teu poema" (José Luís Tinoco), "Novo Fado alegre" (José Carlos Ary dos Santos/ Fernando Tordo), "Os lobos e ninguém" (José Luís Tinoco), "Maria-criada, Maria-senhora" (Tozé Brito), "Flor de verde pinho" (Manuel Alegre/ José Niza), "Onde é que tu moras" (Joaquim Pessoa/ Paulo de Carvalho) e "Estrela da tarde" (Ary dos Santos/ Fernando Tordo) — de entre estas, seria "Flor de Verde Pinho", poema de Manuel Alegre e música de José Niza, a canção mais votada pelo público e, por consequência, aquela que interpretou em representação de Portugal no XXI Festival Festival Eurovisão da Canção. A participação daria o mote para a gravação do disco "Uma Canção Para a Europa".

Referência obrigatória na história do Fado e na carreira de Carlos do Carmo é o disco "Um Homem na Cidade", editado em 1977 pela Trova. Neste álbum, interpreta poemas de José Carlos Ary dos Santos, aliados a um conjunto de composições musicais inovadoras, de autorias tão diversas como José Luís Tinoco, Paulo de Carvalho, António Victorino de Almeida, Frederico de Brito, Fernando Tordo, Joaquim Luís Gomes, Mário Moniz Pereira ou Martinho d'Assunção.

Com efeito, Carlos do Carmo deve grande parte dos seus êxitos a Ary dos Santos, entre eles "Um homem na cidade" (letra de Ary dos Santos e música de José Luís Tinoco), "Lisboa, menina e moça" (letra de Ary dos Santos, Joaquim Pessoa e Fernando Tordo, e música de Paulo de Carvalho), "Estrela da Tarde" (Ary dos Santos/ Fernando Tordo), "Novo Fado alegre" (Ary dos Santos/ Fernando Tordo), "O homem das castanhas" (Ary dos Santos/ Paulo de Carvalho), "O amarelo da Carris" (Ary dos Santos/ José Luís Tinoco), "Sonata de Outono" (Ary dos Santos/ Fernando Tordo), "Fado varina" (Ary dos Santos/ Mário Moniz Pereira), "Fado do Campo Grande" (Ary dos Santos/ António Victorino de Almeida), "Balada para uma velhinha" (Ary dos Santos/ Martinho d'Assunção) ou "Menor maior" (Ary dos Santos/ Fado das Horas).

Mas o fadista irá trazer, ao longo da sua carreira, diversos novos autores, consagrados em outras áreas para o Fado, como José Luís Tinoco ("No teu poema", "Os lobos e ninguém"), António Lobo Antunes ("Canção da Tristeza Alegre"), José Saramago ("Aprendamos o rito"), Manuela de Freitas ("Fado Penélope"), Vasco Graça Moura ("Nasceu assim, cresceu assim"), Nuno Júdice ("Lisboa Oxalá"), Maria do Rosário Pedreira ("Pontas soltas", "Vem, não te atrases"), Fernando Pinto do Amaral ("Fado da Saudade") ou Júlio Pomar ("Fado do 112").

Anos 80 — atuações ao vivo e carreira internacional

Desde as suas atuações n'O Faia, inicialmente de forma informal para amigos, que se sucedem as apresentações ao vivo de Carlos do Carmo. As suas primeiras digressões foram realizadas ainda no início da década de 1970, com espectáculos em Angola, EUA e Canadá e, em 1973, estreou-se no Brasil, cantando ao lado de Elis Regina, no Copacabana Palace, Rio de Janeiro.

A partir do ano de 1979, quando abandona a gerência d'O Faia, intensifica as suas apresentações fora do país. As suas passagens no Olympia de Paris, na Ópera de Frankfurt, na Ópera de Wiesbaden, no Canecão do Rio de Janeiro, no Hotel Savoy de Helsínquia, no Teatro da Rainha em Haia, no Teatro de São Petersburgo, no Place des Arts em Montreal, no Tivoli de Copenhaga ou no Memorial da América Latina em São Paulo, são momentos muito altos na carreira do fadista. Em Portugal, salienta as suas apresentações em locais como os coliseus de Lisboa e do Porto, o Casino Estoril, o Centro Cultural de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos ou a Fundação Calouste Gulbenkian. Em entrevista ao jornal A Capital, revela que: (...) cantar é um ato de prazer, mas sobretudo no palco, que é um constante jogo de sedução, uma troca indescritível de sentimentos e emoções (...).

Com efeito, a carreira internacional de Carlos do Carmo deve muito à sua passagem pelo Olympia de Paris, onde se apresentou pela primeira vez a 11 e 12 de outubro de 1980. A estreia foi bem sucedida e o fadista recorda o momento em que interpretou a canção La Valse A Mille Temps, de Jacques Brel: "A sala veio abaixo!" (cf. Carlos do Carmo: Um Homem no Mundo, in RTP Play). Seguiu-se a primeira atuação na Alte Oper de Frankfurt, em 1982, palco onde teve tal sucesso que a gravação do espetáculo foi editada em disco e regressou para atuar nos dois anos seguintes.

Outro facto assinalável nesta década e que marca a obra discográfica de Carlos do Carmo é o lançamento de "Um Homem no País", em 1984, novamente um projeto em torno de poemas de Ary dos Santos, que se destaca como a primeira edição em formato CD de um artista português.

Anos 90 até à atualidade — novos originais e ligação às novas gerações do Fado

No início de 1990, sofre um acidente durante um espetáculo em Bordéus, caindo do palco para a primeira fila da plateia, uma queda de uma altura equivalente a um andar, que o obrigará a uma longa recuperação. Em março de 1991, faz o seu regresso no Casino Estoril, apresentando um espectáculo intitulado Vim Para o Fado e Fiquei.

Regressa à televisão,com um programa como o seu próprio nome — "Carlos do Carmo" — transmitido em mais de 30 emissões entre 1997 e 1998, onde conversa com diversos convidados, sobre temas que vão desde o Fado, à música em geral, mas também a outras vertentes artísticas.

Em 2007, Carlos do Carmo apresentou, no Museu do Fado, um álbum intitulado "À Noite", que reúne textos inéditos de Nuno Júdice, Fernando Pinto do Amaral, Maria do Rosário Pedreira, Júlio Pomar, Luís Represas, José Luís Tinoco e José Manuel Mendes, para as músicas de fados tradicionais da autoria de Armandinho, Joaquim Campos e Alfredo Marceneiro.

Em 2010, junta-se ao pianista e compositor Bernardo Sassetti para fazer o álbum Carlos do Carmo & Bernardo Sassetti, onde recria canções marcantes de outros intérpretes, entre elas "Cantigas do Maio" (Zeca Afonso), "Lisboa que amanhece" (Sérgio Godinho), "Porto sentido" (Rui Veloso), "Foi por ela" (Fausto Bordalo Dias), "Quand On N'a Que L'Amour" (Jacques Brel) ou "Gracias a la vida" (Violeta Parra).

Desde o início da década de 2000, numa relação próxima com as novas gerações do Fado, promove atuações conjuntas com novos fadistas. É o caso de Mariza; — Gala de Fado do Casino Estoril, a 8 de junho de 2004, por exemplo — ou Camané; concerto de encerramento das Festas de Lisboa, nos jardins da Torre de Belém, em 2006, por exemplo.

Essas ligações seriam reforçadas com a edição, em 2014, do álbum Fado é amor, apresentado nesse ano no Coliseu dos Recreios, onde o fadista apresenta temas gravados com Camané, Mariza, Ana Moura, Aldina Duarte, Cristina Branco, Mafalda Arnauth, Ricardo Ribeiro, Marco Rodrigues, Raquel Tavares e Carminho.

Anunciou em 7 de fevereiro de 2019 o fim de atuação em palcos. Os seus últimos concertos foram a 12 de outubro no Theatro Circo, a 2 de novembro no Coliseu do Porto e a 9 de novembro no Coliseu dos Recreios.

Esse último concerto tinha o título de "Obrigado!".

O cantor justificou a retirada: “É altura de acalmar”, disse em entrevista à agência Lusa dias antes de subir ao palco, recordando que começado a cantar há 57 anos.

“É só uma saída de cena, dos palcos”, sublinhou Carlos do Carmo, na altura, afirmando que a decisão “não foi difícil” de tomar, “foi pensada” e "este era o momento”.

“Tomei-a no ano passado. São 57 anos a cantar, quase no mundo inteiro. São poucos os países onde não cantei. Foi muita viagem, [foram] muitos hotéis, muitos palcos, é muita coisa e é uma altura boa de acalmar. E como gosto muito de ouvir cantar bem, ainda me vou desforrar a ouvir quem canta bem”, disse, então, o fadista à Lusa.

Carlos do Carmo recusou-se, naqule momento, a salientar, como mais importante, qualquer uma das salas onde já cantou, “pois seria até ingrato, não era justo estar a escolher um ou outro” palco, mas destacou “o peso da emigração”, que sempre o recebeu “como um rei”.

“Passei momentos muito bonitos em grandes salas, em salas mais modestas. Às vezes estava em Paris e aparecia alguém que me perguntava se eu não me importava de ir cantar ao seu restaurante com os meus guitarristas, e eu ia cantar para 50/60 pessoas, e isso dava-me muito prazer, não tive esses preconceitos”, declarou.

O fadista afirmou que “é muita coisa vivida, [são] muitas experiências”, num percurso profissional de 57 anos.

Referindo-se ao concerto, no momento, já esgotado, Carlos do Carmo disse que foi “todo construído” pelo filho Alfredo de Almeida, que é o seu agente, o que lhe acontece pela primeira vez na carreira.

“Não dei um palpite. Nunca me aconteceu na minha carreira, pois sou sempre eu que faço o guião, o alinhamento”, enfatizou, acrescentando que os dois concertos anteriores, em Braga e no Porto, “correram muito bem”.

Carlos do Carmo é, segundo a “Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX”, uma “figura marcante no estabelecimento de mudanças na tradição fadista", sendo uma das “suas maiores referências, com reconhecimento nacional e internacional”.

Prémios e distinções

Foi, por duas vezes, agraciado pela presidência da República com graus honoríficos — no final da década de 90, mais precisamente, a 4 de setembro de 1997, o Presidente Jorge Sampaio atribuiu-lhe o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Posteriormente, a 28 de novembro de 2016, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa fê-lo Grande-Oficial da Ordem do Mérito, distinção que lhe foi entregue em cerimónia realizada a 3 de dezembro de 2016.

Recebeu diversos outros prémios, atribuídos pelos seus álbuns ou pela sua carreira — em 1991, a Casa da Imprensa, entrega-lhe o prémio Prestígio, no âmbito da Grande Noite do Fado. Em 1998, a SIC e a revista Caras atribui-lhe o Globo de Ouro de Excelência e Mérito; uma distinção que antes tinha sido atribuída a Mário Soares, David Mourão-Ferreira ou Ruy de Carvalho. Já em 2002, o álbum "Nove Fados e Uma Canção de Amor", valeu-lhe um Globo na categoria de Melhor Disco do Ano.

Em 2003, recebeu o Prémio José Afonso, atribuído pela Câmara Municipal da Amadora, na sequência do qual foi publicado o livro Carlos do Carmo, do Fado e do Mundo, uma entrevista biográfica realizada por Viriato Teles.

Em 2004, o então Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Pedro Santana Lopes, atribuiu-lhe a Medalha de Mérito Municipal, de grau ouro, o mais elevado.

Prémio Goya

Em 2008, recebeu em Espanha, em conjunto com o poeta Fernando Pinto do Amaral, o prestigiado Prémio Goya, na categoria de Melhor Canção Original, com o "Fado da Saudade". A canção faz parte da banda sonora do filme "Fados", que concorria à edição de 2008 daqueles que são considerados os óscares espanhóis. 

Grammy Latino

Em 2014, torna-se, a par da soprano Elisabete Matos, no segundo artista português a ganhar um Grammy, obtido na categoria Lifetime Achievement, entregue apenas aos artistas pelo conjunto da obra que produziram ao longo da sua carreira e não devido ao êxito que lograram com determinada canção ou álbum. No mesmo ano, a 19 de novembro, o fadista recebe o Grammy Latino de Carreira, no Hollywood MGM de Las Vegas.

Na sequência do prémio volta a ser homenageado pela Câmara Municipal de Lisboa, que lhe outorga, pela mão de António Costa, uma nova Medalha de Mérito Municipal.

Também a Rádio Comercial lhe prestou uma singular homenagem, ao produzir um vídeo onde 35 cantores portugueses de diferentes gerações cantam Lisboa "Menina e Moça", entre eles Paulo de Carvalho, Jorge Palma, Rui Reininho, Camané, Mariza, Ana Moura, Tiago Bettencourt ou David Fonseca.

(Dados da biografia retirados da Wikipédia).

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