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Morreu Amos Oz, o escritor da coragem

Morreu Amos Oz, o escritor da coragem

Foto: dpa
Cultura 3 min. 28.12.2018

Morreu Amos Oz, o escritor da coragem

O escritor e ativista israelita Amos Oz, cujas obras foram traduzidas em mais de 45 idiomas, morreu hoje, aos 79 anos.

“O meu querido pai acaba de morrer de cancro, depois de um rápido agravamento do seu estado de saúde”, escreveu a filha do escritor, Fania Oz-Salzberg, na sua conta na rede social Twitter.

Nascido a 4 de maio de 1939 em Jerusalém, depois de deixar a sua família com origens russa e polonesa e entrar aos 14 anos para um Kibboutz, uma cooperativa comunitária típica nos movimentos socialistas sionistas dos primeiros tempos, Amos mudou de apelido em 1954. Era Klausner e passou para Oz, que significa “força” ou “coragem”. Foi com essa força que enfrentou, a partir do pacifismo, a opinião maioritária no seu país favorável à ocupação da Palestina.

Nasceu num minúsculo apartamento do bairro de Kerem Avraham, no nordeste da cidade santa de Jerusalém, então sob controlo britânico. Amos Klausner cresceu em condições modestas mas num meio intelectual. O seu pai, Arié Klausner, originário da cidade de Odessa, especialista em literatura estrangeira e hebraica, trabalhava na Biblioteca do Monte Scopus, que veio dar origem à biblioteca nacional de Israel. A sua mãe Fania, nasceu em Rovno na Ucrânia, licenciada na Universidade de Praga dava cursos de literatura e história em liceus.

A família emigrou para a Palestina nos anos 30. A atmosfera no lar era de um sionismo nacionalista. O jovem Amos foi educado exclusivamente em hebreu, quando o seu pai falava onze línguas. Mais tarde o escritor escreveu sobre si mesmo nesses anos, descrevendo-se como “um pequeno chauvinista disfarçado de fanático. Um nacionalista hipócrita e adocicado”, “um fanático” que se inflamava e vociferava contra ingleses e árabes, como descreveu no seu romance “Uma Pantera na Cave”.

Salvaram-no os livros e a imponente biblioteca paterna. Ganhou uma paixão física e quase erótica pelos livros. Na época sonhava ser mais um livro que um escritor: “Os homens fazem-se matar como formigas. Os escritores também. Mas um livro mesmo que a gente o destrua metodicamente, restará sempre uma parte que ressuscitará...”, confessou na sua “Uma História de Amor e Trevas”, uma espécie de autobiografia que foi considerada, por muitos, a sua obra prima.

O suicídio da sua mãe, com apenas 38 anos, depois de uma longa depressão teve o efeito de romper com o fio de vida então seguido pelo jovem Amos. Tinha apenas 12 anos de idade, mas tudo mudou. Dois anos depois, rompeu com o pai, que entretanto tinha voltado a casar, e fez uma rutura radical, decidindo ir viver para o Kibboutz Houlda, no centro de Israel, ligado ao partido de esquerda Mapaï, que veio dar origem ao Partido Trabalhista.

Oz sabia o que é ser considerado um traidor, bem como a personagem do seu último romance aclamado pela crítica, “Judas”. Desde cedo se mostrou contra a ocupação dos territórios palestinianos após a Guerra dos Seis Dias, conflito no qual foi soldado. Pouco depois dessa guerra terminar, ele e alguns amigos lançaram uma coletânea de textos desoladores para um país que ainda caminhava sobre os louros da vitória.

No seu “Judas”, os traidores, como Iscariotes, são na realidade visionários. Judas revela-se como o mais fervoroso dos crentes com a missão de divinizar Jesus. Se ele se enforca, é apenas por decepção, não é devido a quaisquer remorsos.

Abraham Lincoln, os generais alemães que planearam matar Hitler, Mikhail Gorbachev e, mais perto de casa, o fundador de Israel, David Ben-Gurion, são alguns dos exemplos oferecidos na altura pelo romancista como "traidores". “Às vezes a traição é só a coragem de estar à frente do teu tempo.”, explicou o escritor em entrevista ao Guardian.

Com vários romances publicados em Portugal, destaca-se precisamente “Judas”, “Uma História de Amor e Trevas” e “A Caixa Negra”, todos editados pelo Dom Quixote. "Como Curar um Fanático", editado em Portugal pela Companhia de Letras em 2016, é hoje ensinado em escolas suecas como um exemplo de luta política através do diálogo.

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