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Morreu a mãe do Homem-Aranha
Cultura 7 min. 08.07.2018

Morreu a mãe do Homem-Aranha

Normalmente a paternidade do anti-herói da teia é atribuída a Stan Lee, mas como o agora falecido Steve Ditko dizia: "Ter uma ideia não é nada, se ela não se materializa". Podemos assim dizer que Ditko é co-criador do Homem-Aranha, e ser mãe é tão, ou mais importante, que ser o pai. Ditko, que morreu este fim de semana com 90 anos, estava encerrado em casa desde os anos 60. Conheça as pranchas da sua aventura.

Steve Ditko, 90 anos, um dos pioneiros da banda desenhada norte-americana conhecido, sobretudo, pelo seu papel na criação do Homem-Aranha foi encontrado morto pela polícia. A descoberta do corpo data de dia 29 de junho, mas dada a reclusão do autor, que se fechou em casa em Manhattan no final dos anos 60, só agora a polícia e a comunicação social descobriram o sucedido.

A morte foi confirmada pelo porta-voz do departamento da polícia de Nova Iorque, George Tsourovaka, que não adiantou nenhum detalhe sobre as causas do falecimento.

Ditko, com o artista Jack Kirby e o editor Stan Lee fez parte da espécie de santa trindade que jogou um papel fundamental no fenómeno cultural dos anos 60 que foi o aparecimento da Marvel Comics, que hoje é um império que se expande dos livros para cinema e o merchandising.

Nascido em 1927 em Jojnstown, na Pensilvânia, filho de um pai operário numa siderurgia, Ditko descobriu a banda desenhada com o “Principe Valente” de Hal Foster e “Spirit” de Will Eisner.

Depois de acabar o ensino secundário em 1945, Ditko vai para a tropa e é colocado na Alemanha, onde desenha cartoons para o jornal do exército. Em 1950, aproveitando as facilidades que são dadas, para ingressar no ensino superior, para ex-militares, frequenta a Cartoonist and Illustrator School, que mais tarde se virá a chamar School of Visual Arts de Nova Iorque.

É em Nova Iorque, sob a batuta de Jerry Robinson que desenhava Batman, começa a desenhar em 1953. Trabalha na editora obscura Key Publications, e durante um tempo colabora com o estúdio de Jack Kirby e Joe Simon, criadores do “Capitão América”, antes de encontrar poiso fixo na Charlton Comics, editora barateira que inunda o mercado. Aí goza, apesar de ganhar menos que em anteriores empregos, de uma grande liberdade criativa.

A introdução, em 1954, da Comics Code Authority, um conjunto de legislação para regular a indústria da banda desenhada, em resposta às conclusões de um sub-comissão do Senado dos EUA, que garantia que a banda desenhada promovia a criminalidade juvenil, veio a ditar a perda de vitalidade económica da Chaelton Comics e a saída de Ditko dessa empresa.

Algum tempo depois, começa também a colaborar com a Atlas Comics, que irá mudar o seu nome para Marvel.

Em 1954, uma tuberculose força-o a regressar à Pensilvânia, fica às portas da morte. Um ano depois regressa a Nova Iorque e começa a trabalhar com Stan Lee, ao tempo editor da Atlas Comics. Em 1962, toma parte na criação,nas páginas da antologia Amazing Fantasy, de um personagem de um homem com poderes de aranha, que rapidamente se torna popular e ganhará direito a série própria. No traço de Ditko, o Homem-Aranha é um personagem denso e cheio de texturas, que na sua fragilidade revoluciona o universo dos super-heróis. “ A grande distinção é que ele faz super-heróis frágeis, mesmo os vilões – ele acabou por desenhar muitos – são bastante humanos. Penso que é este o enorme contributo de Ditko para a história dos super-heróis, faz personagens mais ricas e dinâmicas. O Homem-Aranha é um adolescente em crise, não tem as certezas morais do Super-Homem, procura o bem e o mal”, refere ao “Contacto”, João Paulo Cotrim, editor e fundador da Bedêteca em Lisboa.

A paternidade da personagem do repórter fotográfico mais célebre da banda desenhada é complexa e será sujeita a muitas discussões. Lee, argumentista e responsável editorial da Marvel, reivindicou muitas vezes ter todo o mérito nessa criação, mas Ditko sublinhava que “ter uma ideias não é nada, enquanto essa ideia não ganha carne e existência física”. O debate é complicado até pelo o método de trabalho próprio da Marvel e da indústria dos comics nos EUA: os desenhadores trabalham livremente, a partir de um argumento resumido dado pelos argumentistas, que apenas retomam o controlo da obra ao preencherem as filacteras (os conhecidos balõezinhos) dos diálogos. Podemos dizer de alguma maneira que Ditko deu o corpo ao Homem-Aranha e Stan Lee o espírito. A forma é a organização do conteúdo e o corpo é muito mais que um simples recetáculo da alma. O Homem-Aranha nasceu na caneta de Ditko.

Zangou-se por causa de um vilão

A colaboração entre os dois terminou depois de 40 números do Homem-Aranha. Não se entenderam sobre a identidade de um vilão. Lee queria que no final se percebesse que o Green Goblin era na realidade um amigo próximo do jovem fotógrafo Peter Parker. Ditko insistia que devia ser alguém desconhecido para sublinhar a absurdidade de um mundo em que os ódios campeiam sem razão. A diferença de opiniões resolve-se por um divórcio: o desenhador é forçado a deixar a Marvel, a quem acusa, e ao seu patrão Martin Goodman, de nunca lhe ter pago os devidos direitos pela criação e utilização posterior do célebre super-herói.

Durante a sua permanência na Marvel, Ditko colaborou na criação de outros conhecidos heróis, como o Homem de Ferro e o Incrível Hulk. E criou o Dr. Strange, recentemente levado a filme, um “mestre das artes místicas”, que viu luz em 1963.

As pranchas de Dr. Strange estão embebidas numa liberdade gráfica que faz lembrar trips psicadélicas, durante muito tempo dizia-se que elas eram uma espécie de ode à droga e ao movimento contestatário hippie. Estranhamente, Ditko nunca se identificou com a contra-cultura dos EUA e as suas contestações políticas, o desenhador reivindicava-se, pelo contrário, como adepto da filosofia objetivista de Ayn Rand, que inspira muitos dos ultra-conservadores e libertários de direita norte-americanos. De tal maneira que uma vez , perante uma plateia de estudantes irados, Lee teve que explicar que frases de Peter Parker, referindo-se a importância do livre comércio, eram da autoria de Ditko e não dele. A aplicação das teorias de Ayn Rand continua em outras obras do autor, nomeadamente na saga a preto e branco, de Mr. A, criado para a Witzend, em que o herói reafirmar que só há uma verdade, e que na realidade está dividida preto no branco, entre bons e maus, como forças na sociedade, e que ,contrariamente aos super-heróis normais, os novos super-heróis de Ditko matam os criminosos. Para Mr. A, o mundo era a preto e branco e nenhum compromisso era possível com os maus. Há um bem absoluto que se opõe a um mal absoluto.

Em 1964, Ditko deixa de aparecer em público remetendo os seus contactos apenas para conversas telefónicas, cartas e posteriormente emails. As ideias de Rand e o seu confinamento em casa adensam o mistério sobre a sua obra e vida. Desde essa época nunca mais foi visto em público ou sequer deu uma entrevista.

Ditko nunca se reformou oficialmente. Chegou mesmo a voltar a trabalhar para a Marvel nos anos 90. Em 1997, o editora Fantagraphics deu-lhe liberdade total para criar uma nova série e respetivo herói. Uma falha na colorização da capa do primeiro número de “Steve Ditko's Strange Avening Tales” leva-o a romper o contrato.

“Hoje, toda a família Marvel está de luto pela perda de Steve Ditko. Steve transformou toda a banda desenhada e o universo Marvel, a sua herança nunca mais será esquecida”, referiu em comunicado no passado sábado, o presidente da Marvel Entertainment, Dan Buckley.

“Reservado e modesto, nunca procurou a celebridade”, declarou por seu turno o presidente da DC Enternainment, Jim Lee, que notou algumas semelhanças com os heróis que o falecido criou: “De uma certa maneira, ele representava o herói escondido que via em cada um dos humanos”.

Todos os artistas que o tentaram encontrar, depois da sua reclusão voluntária, contam histórias semelhantes. Daniel Clowes, desenhador autor de “Ghost World”, conta que uma vez tropeçou num diretório de um computador com o contacto de “Steve Ditko, artista” . Foi ao endereço indicado. Um prédio com um cinema pornográfico em baixo. Perguntou ao porteiro se era ali que morava Steve Ditko. O homem apesar de ter-lhe garantido que nunca se tinha cruzado com alguém com aquele nome, deixou-o subir no elevador. Tocou à porta, entreabriu-se uma porta e respondeu-lhe uma voz: “o quê que você quer?”. Timidamente disse-lhe, “é o Steve Ditko, o desenhador?”. A porta fechou-se com estrondo. “Apanhei com a porta no nariz”, relembra Clowes.

Neste sábado, a polícia de Nova Iorque confirmou ter encontrado morto Steve Ditko, de 90 anos, que terá morrido no dia 29 de junho. Sozinho, como todas as pessoas e os anti-heróis no momento da sua morte.

Nuno Ramos de Almeida

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