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Mitos gregos em BD pela mão de ex-ministro francês
Cultura 3 min. 12.08.2019

Mitos gregos em BD pela mão de ex-ministro francês

Mitos gregos em BD pela mão de ex-ministro francês

Cultura 3 min. 12.08.2019

Mitos gregos em BD pela mão de ex-ministro francês

"A Sabedoria dos Mitos" dá novo fulgor a velhas histórias, com simplicidade e erudição.

 A guerra contra os Titãs terminou e a paz reina no Olimpo. Os deuses morrem de tédio, mas Zeus encarrega o seu primo Prometeu de criar um divertimento inesgotável, de que fazem parte os homens...

É assim que começa a história contada neste volume da nova coleção em banda desenhada, que oferece uma panorâmica da mitologia grega, completada em cada livro com um dossiê factual e interpretativo.

Todos os livros são feitos a três, por Luc Ferry — filósofo, ex-ministro da Educação, e personalidade da cultura francesa —, pela guionista Clotilde Bruneau e pelo desenhador Giuseppe Baiguera. Luc Ferry é responsável pela conceção e autor do dossiê final.

Se lhe ocorrer que o nome mais mediático associado à coleção não passa de um isco comercial, está enganado. Adaptar as histórias de deuses e heróis gregos é muito diferente de adaptar os contos de Grimm; não se trata de ir às fontes, escolher os mais suculentos e contá-los por outro meio, por exemplo a banda desenhada.

O fundo mitológico da Grécia antiga tem origem numa tradição oral que sobreviveu de forma fragmentária e em versões muitas vezes incompletas e contraditórias, em registos literários muitos variados e ao longo de um período de vários séculos. Para montar o puzzle de cada herói ou núcleo de aventuras pode ser preciso ir buscar uma alusão à "Odisseia", uma parte a uma tragédia de Ésquilo e outra a um poema, todos com mais de 2 mil e quinhentos anos mas com mais de um século a separá-los entre si. Por esta razão, contar uma história no sentido moderno a partir destas fontes exige um intérprete, o papel que cabe a Luc Ferry.

Mas adaptar os clássicos não é uma ideia de hoje e a competição neste mercado é imensa. Em Portugal, além das adaptações de João de Barros, publicadas a partir dos anos 30, têm sido traduzidos muitos livros sobre mitologia, especialmente obras ilustradas para crianças, muitas atualmente ainda à venda.

Tudo isto levanta duas questões óbvias: porquê mais uma adaptação e porquê preferir esta a outras? Quando a primeira edição de "Prometeu" saiu em francês, Luc Ferry deu uma resposta inesperada a estas perguntas. As adaptações que hoje se encontram nas livrarias, mesmo as que se apresentam como obras de divulgação e por isso se anunciam como fiéis às fontes, estão repletas de erros. O objetivo da nova série é por isso restituir a mitologia grega numa versão mais autêntica.

O esforço de fidelidade desta versão tem um preço alto: não pode recorrer a reviravoltas tão inesperadas como os livros de fantasia ou a efeitos tão espetaculares como os jogos de computador. Por outro lado, não faz sentido criticar uma obra de divulgação por fazer o que promete, que é restituir os mitos originais. Na realidade, para quem tem aversão à fantasia, ou está simplesmente saturado de universos em que as regras do jogo mudam a qualquer momento, chega a ser refrescante regressar a histórias mais lineares, em que os heróis são injustos, desleais, vingativos e sobretudo excessivos — o contrário dos heróis beatos do nosso tempo.

O traço do livro é moderno, e os tons da Idade de Ouro reinam devidamente sobre o verde e o azul da natureza que vê nascer os primeiros bichos. A impressão é de qualidade, e o mesmo se aplica ao papel. Um livro que apetece ter ou dar de presente. Ou ler à noite a uma criança antes de dormir, e sonhar que somos os últimos herdeiros de uma tradição oral com milhares de anos.

Isabel Pedrome 

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