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#metoo com algemas
Cultura 2 min. 23.04.2021

#metoo com algemas

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Foto: DR
Cultura 2 min. 23.04.2021

#metoo com algemas

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Conheça a crítica de cinema do filme “Promising Young Woman”.

Quando vi este filme pela primeira vez, no LuxFilmFest de 2020, fiquei impressionado. Cheguei a casa e postei no Instagram um excerto do trailer com o hashtag #metoowithcuffs. Hoje não consigo encontrar melhor título para falar de “Promising Young Woman” do que este hashtag.

O filme de Emerald Fennell, com Carey Mulligan no papel principal, é um doce cor-de-rosa mas com um sabor agridoce. Se calhar ainda se compara mais facilmente a algodão-doce, só que, em vez de um pauzinho a segurar no açúcar, imaginem uma dúzia de lâminas daquelas japonesas que cortam cabelos em dois.

Há momentos de “Promising Young Woman” que fazem pensar em filmes de loiras burras ou em comédias românticas de domingo à tarde, mas, na verdade, o filme parece ter sido escrito por um “serial killer” ou por qualquer outro sociopata. Com um detalhe: todos os momentos de violência são filmados com estilo.

Cassandra, a personagem interpretada por Carey Mulligan, tem 30 anos, deixou a faculdade de medicina e ainda vive com os seus pais que só lhe desejam a felicidade e, de preferência, um namorado. Cassandra trabalha num bar “contemporâneo” durante a semana e ao fim de semana dedica-se a caçar. Não pensem que a jovem empunha uma espingarda e vai caçar javalis. As presas de Cassandra têm apenas duas pernas: são homens.

Contar mais é estragar a surpresa de descobrir esta personagem incrível e a sua cruzada antimasculina.

“Promising Young Woman” é uma mistura de comédia negra, thriller de vingança e congresso feminista. Trata-se de um mix explosivo, mas que muitas vezes se afasta da sua configuração potencialmente arrasadora.

O argumento, que também é obra do realizador, nem sempre permite ao filme evoluir e manifestar a sua profunda e fortíssima indignação.

Apesar de algumas falhas, toda a obra é linda de se ver com cores vibrantes e um design de Barbie a iluminam cenas surpreendentes. Ou seja, perdoa-se-lhe as faltas.

A aparição da personagem de Ryan no filme, um ex-colega da protagonista que agora é cirurgião pediátrico, envia o filme para o território da comédia romântica e Cassandra, de repente, quase parece uma mulher normal. Mas a vingança rapidamente volta a possuir a personagem central.

Loira, com uma franja fora de moda, Carey Mulligan confere profundidade e sensibilidade a uma personagem que é pouco mais do que uma boneca vingativa.

As performances de algumas das personagens secundárias adicionam brilho e textura a um filme que entretém, sobretudo pela sua violente originalidade.

Infelizmente, à medida que se aproxima do fim, o filme perde a coragem. Tudo chega ao clímax numa sequência inesperada, mas infelizmente confusa. Apesar de se tratar de um momento visualmente maravilhoso, é desanimador porque não está ao nível dos melhores momentos da obra.

Mas este não será um daqueles filmes que se definem pela cena final. As pérolas estão ao longo do colar: dos compassos de abertura ao distinto traje de enfermeira de Cassie; Fennell faz uma estreia marcante na realização esteticamente astuta e cheia de espírito. E, melhor ainda, debaixo dos tons rosa-choque e barbiescos escondem-se mensagens importantes.

“Promising Young Woman” de Emerald Fennell, com Carey Mulligan, Bo Burnham e Adam Brody. 

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