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Melanie Pereira, a realizadora que dá voz aos pais imigrantes
Cultura 9 min. 27.10.2018 Do nosso arquivo online

Melanie Pereira, a realizadora que dá voz aos pais imigrantes

Melanie Pereira, a realizadora que dá voz aos pais imigrantes

Cultura 9 min. 27.10.2018 Do nosso arquivo online

Melanie Pereira, a realizadora que dá voz aos pais imigrantes

"Aos meus pais" é o primeiro filme da jovem ativista e realizadora. Conta o percurso dos pais, imigrantes no Luxemburgo, e estreou esta semana no Doclisboa em Portugal e é exibido a 31 de outubro no festival Vista Curta em Viseu.

De onde vem a paixão pelo cinema e pela fotografia?

Começou muito cedo. Por volta de 2010, o meu pai comprou uma câmara, uma DSLR, e era um bocado uma novidade lá em casa. Comecei a brincar com aquilo, até começar mesmo a ganhar gosto e a fotografar com um propósito. Depois comecei a ganhar gosto pela fotografia analógica, a colecionar câmaras analógicas, que no Luxemburgo são extremamente baratas, quando se sabe onde ir. Foi algo que cresceu comigo. E ainda me acompanha. A fotografia está sempre presente.

Até que em 2015 decidiu deixar o Luxemburgo e estudar cinema em Portugal...

Na verdade eu ia estudar para Londres: já estava inscrita na faculdade, tinha casa... Mas no verão vim passar dois meses com o meu irmão, que estava a tirar o mestrado no Porto. E muito rapidamente percebi que Portugal era onde me sentia bem, onde me sentia melhor. E assim, dum dia para o outro, decidi: não vou estudar para Inglaterra, vou para o Porto, e seja o que deus quiser!

Melanie Pereira trocou Londres pelo Porto para tirar a licenciatura em cinema.
Melanie Pereira trocou Londres pelo Porto para tirar a licenciatura em cinema.

Como era esse sentir-se bem?

Senti-me em casa. Não era nada difícil falar em português, sair e comunicar com as pessoas. Foi muito fácil adaptar-me. Achei estranho: Portugal sempre foi mais um país para passar férias do que um país onde tivesse crescido. Senti um grande contraste relativamente ao Luxemburgo. Lá há sempre aquele sentimento de, "no fundo, sou portuguesa e isto não é o meu país, apesar de ter nascido e crescido cá".

"Aos meus pais" aborda esses contrastes?

O filme foi um projeto académico e, sabendo que era bastante íntimo, onde me exponho muito, não tinha certeza sobre se queria projetá-lo. Recebi muito boas críticas, da parte de professores e colegas, e avancei. Era para ser um filme sobre mim e sobre essa relação, depois acabou por ser sobre os meus pais e o seu processo de migração: porque emigraram, como foi adaptarem-se ao Luxemburgo e o que foi eu e o meu irmão crescermos lá. A relação constante Luxemburgo-Portugal e Portugal-Luxemburgo. Acho que muitas pessoas, pelo menos muitos imigrantes, conseguem identificar-se com isso.

Qual é o impacto desse vai-vem entre esses dois mundos na sua vida?

Tem um impacto muito grande. Neste momento estou no Porto, e tenciono ficar cá em Portugal, e tenho os meus pais e o meu irmão lá. Parece um círculo vicioso: os meus pais vão para lá, para nós voltarmos para cá, para eles estarem lá... Isso persegue e vai sempre perseguir: tenho lá muita família e amigos, vai sempre haver uma relação Portugal-Luxemburgo, Luxemburgo-Portugal. Em casa sempre falámos português, sempre fomos muito ligados à cultura portuguesa: ver televisão portuguesa, ouvir rádio portuguesa, andar na escola portuguesa, ter muitos amigos e vizinhos portugueses.

E considera-se luxemburguesa?

(Risos) Tenho nacionalidade luxemburguesa… Mas considero-me luxemburguesa? Um bocadinho. Tive uma educação luxemburguesa, no fundo, e sei reconhecer as vantagens que isso me deu. Talvez não seja a maior parte - mas faz parte de mim, e está sempre cá.

No trailer de "Aos meus pais", fala de 35 viagens entre Portugal e Luxemburgo. Quando será a viagem 36?

Em fevereiro! Tenho um projeto para filmar no Luxemburgo. Vai ser de novo sobre o tema da imigração: vou reunir com várias pessoas, todas filhas de imigrantes, e fazer uma série de entrevistas. Portugueses, franceses, de Montenegro, do Congo, da Polónia... Estou a tentar reunir o máximo de nacionalidades. Vamos ter uma discussão sobre o que é o Luxemburgo para nós, o que é o Luxemburgo do ponto de vista de um filho ou filha de imigrantes.


Vídeo. O filme-homenagem de uma realizadora portuguesa aos pais imigrantes
"Aos meus pais" é o primeiro filme da jovem ativista e realizadora Melanie Pereira, uma homenagem aos seus pais, emigrantes no Luxemburgo. Veja o trailer do documentário.

Gostava que "Aos meus pais" fosse exibido no Luxemburgo?

Gostava muito. Ando a tentar perceber como funcionam os festivais lá e onde seria melhor mostrá-lo.

O que procura partilhar com ele?

No fundo, o que tenciono com o filme, tanto lá como cá, é perceber-se o que é a vida, o percurso de um imigrante. Eu sempre cresci muito com a noção de sacrifício, a noção de ter de poupar, e a noção de saudade. E acho que tanto cá em Portugal como no Luxemburgo há uma necessidade de entender isso. Não se pensar que se vai para lá para encher os bolsos, e que estamos a roubar trabalho e todos os disparates que se contam por aí. Acho que filmes sobre imigração são muito precisos, sobretudo neste momento que vivemos: um momento de migração massiva por todo o mundo.

Num próximo projeto quer abordar dois temas delicados: abuso sexual e incêndios florestais. Porquê?

No ano passado, no dia 15 de outubro, a minha zona foi muito afetada. Sempre tive grande preocupação com os incêndios, mas quando se torna tão pessoal há uma voz que diz: temos de falar sobre este assunto de forma séria. Cá no Porto não faziam a mínima noção do que era estar numa aldeia e ter tudo à volta ardido, ter casas ardidas no meio de aldeias. Havia essa falta de noção da realidade, que eu queria abordar. E o abuso sexual porque me considero feminista. Há muitos anos sou ativista. O tema da mulher é sempre algo que quero explorar nos meus filmes, e trazer algo a debate sobre isso. Não é por acaso que neste filme tenho uma entrevista com a minha mãe e não tenho com o meu pai. A mulher há de ser sempre um ponto focal nos meus filmes.

Qual é a razão para escolher dar-lhe a voz?

A minha mãe é uma mulher muito forte. Tem carregado muito peso e muita responsabilidade, e tem menos visibilidade e menos reconhecimento. E achei muito importante dar-lhe voz, deixá-la falar e exprimir-se. Falar sobre imigração e o que é para ela. É algo que o meu pai partilha muito, mas a minha mãe é mais reservada.

[A mulher portuguesa no Luxemburgo] é uma mulher muito oprimida  (...) há um forçar o silêncio na mulher, não dar espaço à mulher para opinar sobre certos temas. Isto não é só na comunidade portuguesa.

É algo que acha comum nas mulheres portuguesas no Luxemburgo? Como vê o papel da mulher na comunidade?

É uma mulher muito oprimida. No fundo, são as mulheres que trabalham durante o dia, se for preciso vêm a casa ao meio dia para tratar dos filhos, à noite estão em casa para tratar dos filhos, ficam até às tantas a tratar de contas. Não é que os homens não trabalhem, não é isso. Mas há muito isso de chegar a casa e não fazer mais nada, brinca-se com os filhos mas não se toma conta, preocupa-se com as contas mas não se vai tratar em conjunto com a mulher. E há um forçar o silêncio na mulher, não dar espaço à mulher para opinar sobre certos temas. Isto não é só na comunidade portuguesa. Em almoços em casa de amigos ou familiares, os homens vão sentar-se à mesa, beber e conversar, e nós as mulheres somos as que temos de estar na cozinha e tratar daquele convívio. Algo que desde pequena nunca achei correto. E comecei logo lá em casa a criar conflito, digamos assim (risos).

Sentiu diferença quando voltou para Portugal?

Não, de todo. É na minha aldeia que mais convivo com mulheres e é exatamente o que se passava no Luxemburgo. É o meio em que a minha mãe e por aí fora foram criadas. É lógico que o façam quando crescem. Foi muito complicado também na minha turma de cinema. Éramos sete raparigas numa turma de quase trinta, e havia sempre falta de podermos impor a nossa voz. Mas fiquei orgulhosa quando começámos a ir por esse caminho. É ainda um caminho muito longo - mas estamos no caminho certo para chegar a alguma igualdade. A mudança pode ser lenta, mas vem.

Recorda algumas situações concretas?

Dizerem que cinema não é para mulheres, porque as mulheres choram muito. Um disparate completo. Ou eu ter cargos importantes, como diretora de fotografia, e perguntarem-me se era eu que estava a fazer a maquilhagem, ou a cozinhar para os atores. Da parte de colegas, de professores, de atores, de profissionais. Situações escusadas que não percebo bem porque é que ainda existem.

De que forma é que lidaram com isso e tocaram na ferida?

Tínhamos um grupo de colegas que decidiram ser um grupo só de raparigas a fazer filmes. Termos mulheres a realizar filmes em projetos finais é algo que não me lembro de ter existido nos anos anteriores na escola. Estarmos a assumir projetos, assumir cargos com mais responsabilidade - eu era muitas vezes diretora de fotografia, outras raparigas faziam produção e realização. E fico muito feliz por estar agora em festivais, porque é um filme que sai lá da faculdade, mas é um filme feito por uma mulher. É um motivo de orgulho, é gratificante, e é bom mostrar a quem lá está agora a estudar que tudo é possível.

Fenómenos como o #MeToo têm um papel papel importante nessa luta?

Tenho seguido esse movimento desde que começou e, sim, cá em Portugal há coletivos feministas que estão a impulsioná-lo muito. Mas temos um país com uma população e um estado que é ainda muito misoginista. Por exemplo o que aconteceu aqui em Gaia: uma mulher que foi violada e não condenaram o violador, com claras evidências do que tinha acontecido! Há muito para fazer em Portugal. É um país profundamente sexista e profundamente racista, um país que tem muitos problemas e tem de ser muito trabalhado. Não vale a pena termos alguma ilusão sobre o povo português ser aberto e simpático com todos, porque não é. Ainda há muito, muito por fazer.

O cinema pode contribuir para essa mudança?

Toda a arte pode contribuir. O que tento fazer é contribuir para essa discussão, esse debate. Gosto de chamar-lhe um cinema para o povo, um cinema de causa. É um cinema essencial.

Interessa-se também pelo direitos dos animais. São causas que se complementam por um mundo mais justo?

Definitivamente. A causa animal tem tido muito impacto na minha vida, tanto privada como profissional. Há-de vir um dia um filme sobre isso. Estou a fazer toda a transição para usar produtos vegan, e desde abril que sou vegetariana. Engordei, coisa que nunca me acontecia, e tenho muito orgulho nisso! Cozinho com muito mais gosto - eu odiava cozinhar. E sinto-me muito melhor. É muito mais fácil afirmar-me como vegetariana no Porto ou numa cidade qualquer. Numa aldeia questionam mais, e é normal. Tem de ser pelo sistema educativo, desde pequeno. Em Portugal o movimento está a ganhar força e isso é muito bom, têm sido anos muito interessantes de ativismo. Temos como sempre um longo caminho pela frente.

Francisco Pedro Colaço

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