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Mayra Andrade: "Cantar no Luxemburgo para imigrantes é como estar em casa"
Cultura 9 min. 21.11.2018 Do nosso arquivo online

Mayra Andrade: "Cantar no Luxemburgo para imigrantes é como estar em casa"

Mayra Andrade: "Cantar no Luxemburgo para imigrantes é como estar em casa"

Foto: Sébastien Gröbille/Wort
Cultura 9 min. 21.11.2018 Do nosso arquivo online

Mayra Andrade: "Cantar no Luxemburgo para imigrantes é como estar em casa"

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
A cantora cabo-verdiana Mayra Andrade esteve quinta-feira passada, na Kulturfabrik, em Esch-sur-Alzette, para deixar antever o seu novo álbum “Manga”, que vai ser apresentado oficialmente em janeiro de 2019. A conversa tida a poucas horas do concerto fala da sua música e do mundo.

É o seu quinto disco, o facto de se ter mudado para Portugal alterou alguma coisa na sua música ou está no mesmo ponto?

Isso seria grave.

Há pessoas que têm um tipo muito vincado na sua música e fazem discos muito semelhantes, mas são geniais.

Sim, mas como passaram cinco anos do anterior disco, seria muito grave que eu tivesse no mesmo ponto. Mas sim, Portugal influenciou o meu estado de espírito e a cor geral deste disco.

Mais alegre, pop e menos melancólico?

Sim, mas é também fruto de um momento concreto. O continente africano dentro da sua contemporaneidade influenciou-me muito. O que se faz hoje em dia na Nigéria e no Gana, esse afrobeat, é algo de que eu gosto e ouço muito e tinha vontade de trazer a alegria que essa música me dá para o meu trabalho. Foi preciso este disco para encontrar o caminho entre o meu ADN e essas músicas.

Tem uma relação diferente com a música cabo-verdiana. O facto de ter nascido em Cuba, vivido em países africanos, em França e Portugal, não lhe criou uma distância e um conjunto de influências que tornam diversa a sua música?

A música de Cabo Verde foi sempre a matéria-prima a partir da qual eu trabalho. Pouco importa a influência que há, sinto no momento, pode ser jazz, música brasileira, pop, afro-beat seja o que for, o ADN das minhas origens é muito forte e concentrado. Acresce que a música cabo-verdiana sempre foi isso: uma música influenciada por todas as passagens. Eu sou uma cabo-verdiana do mundo, consigo sentir-me bem em partes muito diferentes do planeta e adapto-me muito bem aos sítios. Viajar faz parte da minha vida. Acho que se me dissessem que agora tinha de passar dez anos em Cabo Verde sem sair, eu morria. Mas, apesar disso, não há duvida nenhuma que Cabo Verde nunca saiu de mim, nem da minha música. Parto sempre daí para o meu trabalho. Tenho a total consciência de que o que me faz única para o mundo é ser de Cabo Verde.

Sendo a música de Cabo Verde, como disse, feita de muitas influências, em que é que consiste essa identidade cabo-verdiana tão demarcada?

Quem conhece o mínimo de música cabo-verdiana consegue distinguir ao fim de um tempinho. Às primeiras batidas vê que está perante uma música diferente da brasileira. Brasileira ou mesmo de outra parte de África. Existe uma alma muito particular. Ela não tem de chegar com fogo de artifício, até pode estar em doses homeopáticas. Mas é única. O facto de uma música ter nascido de uma mistura não quer dizer que não tenha uma identidade forte.

Disse que este disco tem muito do seu estado de espírito e para isso contribuiu a sua presença em Portugal. A música portuguesa também a influenciou?

Há uma coisa inspiradora em Portugal neste momento que é essa cena crioula que hoje existe no sentido mais lato do termo. Há uma cena underground, que vem dos bairros à volta da música africana com hip hop e eletrónica, que é super-inspiradora para mim. Lisboa é uma cidade muito pequena, uma aldeia, é muito fácil estar em contacto com artistas muito diferentes. Apercebo-me de que há uma série de artistas no bairro que nunca se cruzaram com fadistas, nunca os ouviram, nunca lhes disseram “olá”. Eu que lido com os dois mundos, e estou no meio, acabo por colher coisas boas dos dois lados. Mas não tenho dúvidas de que aquilo que está a inspirar-me mais é este lado alternativo, que tem uma energia muito boa e é típica dos sítios que passaram por uma crise um bocado forte, como por exemplo em Berlim nos anos 80, 90. As circunstâncias difíceis fazem com que as pessoas tenham de ter a capacidade de se desenvencilhar e isso afeta tudo, desde a cozinha até à música.

Mas Lisboa não está a ficar um pouco...

Trendy? Sim.

Mais do que isso, com a multiplicação de espaços turísticos todos iguais aos espaços turísticos de todo o mundo, com a gentrificação da cidade e a expulsão das populações mais pobres do centro da cidade...

Estamos a falar de um processo, como todos os processos têm prós e contras. Eu estou a falar da influência que isso pode ter na arte, nos artistas e nos processos criativos. Nesse aspeto, acho que tem sido bom. Mas eu percebo, há muita gente, até pessoas que vêm de fora, que comentam que Lisboa, de alguma forma, está a perder o seu lado autêntico.


Mayra Andrade durante o concerto na Kulturfabrik, em Esch-sur-Alzette.
Mayra Andrade apresentou novo álbum "Manga" no Luxemburgo
A cantora cabo-verdiana Mayra Andrade esteve esta quinta-feira em concerto no Luxemburgo, para desvendar o seu novo álbum "Manga", que vai ser apresentado oficialmente em janeiro de 2019.

Sente que o facto de estarmos num mundo mais intolerante com os migrantes e mais xenófobo pode dar um valor e conteúdo diferente à sua música?

Não é porque um artista usa um microfone, um pincel ou uma máquina fotográfica que tem a obrigação de passar uma mensagem política. Mas é verdade que nós somos o grito da beleza do amor, da emoção. E a música tem um apelo forte. Cantando uma canção, por muito tradicional que seja, esta tem um poder muito forte no coração das pessoas. Uma canção tradicional ou mais miscigenada pode estar a contribuir para que a pessoa, mesmo a mais racista, perceba melhor a história diferente de quem canta, e compreenda o outro que está ao seu lado. Percebendo que todos somos pessoas. Se calhar você é muito politizado e pode ver na missão da arte algo de político, mas cada um vê a arte com os seus próprios olhos e dá-lhe, muitas vezes, significados diferentes.

A música nunca foi inócua. No tempo do colonialismo havia ritmos africanos proibidos, por exemplo a funaná, em Cabo Verde, porque eram considerados expressão de uma identidade e cultura perigosa. O mundo está aparentemente mais perigoso, isso influencia a sua música?

A vida influencia a minha música. Tenho uma música neste álbum sobre a imigração, mas por acaso é uma música que foi escrita em 2002 e só agora ela ficou como eu queria que ficasse. Mas coincidência ou não é o momento em que a emigração está numa fase muito triste e muito dramática. Mas a verdade é que no tempo em que a escrevi também havia uma situação igualmente dramática. O problema das migrações toma formas diferentes e os seus percursos são diversos, seja por estrada, avião ou mar. Mas desde que comecei a cantar as coisas não mudaram muito. O mundo em que eu vivi, há 15 ou 18 anos, não me parece muito melhor do que aquele em que vivemos hoje. Estou a apresentar um disco, aqui no Luxemburgo, que vai sair em janeiro, que se chama “Manga”. Não consigo, apesar do que está a acontecer à minha volta, atribuir-lhe um cunho mais político. Este disco nasceu de coisas mais íntimas, mais interiores, mais pessoais. De um processo de cura, um processo de reconciliação com muitas coisas. Percebo o que me diz, mas provavelmente não vai descobrir neste disco um espelho para essas preocupações. O importante para mim é que cada um encontre na música uma mensagem de amor. Acho que a esperança vem daí. Vem de dar às pessoas um lugar que existe para lá das palavras. Até porque a maioria das pessoas não percebe o que canto. Venho de um país de 500 mil habitantes que se expressa numa língua falada por um milhão e quinhentas mil pessoas. Noventa e sete por cento do meu reportório sempre foi em crioulo.

Neste disco, África e as suas vivências estão mais presentes do que no álbum anterior?

África está muito presente neste novo disco porque trabalhei com produtores da Costa do Marfim e senegaleses da minha geração. Não quero alimentar nenhuma ideia romanceada da minha relação com África. Eu sou africana, vivi em Cabo Verde uma parte da minha vida, vivi no Senegal e Angola, mas não como um pintor francês que fez uma passagem por uma paisagem africana de barco e trouxe essas cores para o seu quarto. Comigo não é nada disso: eu sou de África. O que muda é a forma como me conecto com as coisas mais tradicionais ou modernas. No caso deste disco, trabalho uma cena africana muito mais contemporânea. Estas cores que transmito vêm com cada sonoridade, vêm através de pessoas que tiveram uma intervenção no disco.

O Luxemburgo é um país onde 42% dos habitantes são imigrantes. Como cabo-verdiana, isso é um sítio especial para a sua música?

Não direi que estou a tocar em casa, porque sempre que cá venho é para apresentar um disco. Mas tocar para um público, em grande parte imigrante, faz-me sentir em casa, porque o cabo-verdiano é um povo de migrações. Esta música que se chama “Vapor de imigração”, que vou tocar no concerto, é uma música de homenagem ao meu avô que tinha um veleiro e que ajudou muita gente a emigrar. É uma homenagem à vida sacrificada daqueles que têm sempre esperança de que os filhos não tenham de passar pelo mesmo que eles, que a vida não tenha de ser tão difícil. Uma vez estava em Paris, com a minha mãe, havia lá um senhor completamente louco a gritar, junto ao Carrefour. Um mês depois, passei pelo mesmo lugar, e esse senhor continuava, no mesmo sítio, a gritar coisas revoltado e enlouquecido. A minha prima, que estava comigo, perguntou-me: “porque será que ele está assim?”. A resposta que me veio à cabeça é que a emigração é uma vida muito difícil. Sobretudo para um homem negro que vem trabalhar para a Europa, abandonando a família e procurando uma vida melhor, deve ser muito complicado. Se, para mim, Paris foi difícil, eu que sou uma pessoa super privilegiada, para esse homem e muitos imigrantes é algo muito mais violento. Tocou-me quando fui à Gare do Leste, para vir para cá, ver esse homem no mesmo sítio, como se não saísse da rua e não parasse de gritar. Voltando à sua questão sobre a imigração, ela está em tudo na nossa vida, nas notas da minha música. Os cabo-verdianos são um povo de emigrantes. Mas, de facto, cantar no Luxemburgo para gente que é imigrante é um bocado como cantar em casa.

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