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Marco Godinho, o "nosso homem" em Veneza

Marco Godinho, o "nosso homem" em Veneza

Foto: Sven Becker
Cultura 3 min. 14.06.2018

Marco Godinho, o "nosso homem" em Veneza

O artista plástico Marco Godinho foi escolhido para representar o Luxemburgo na Bienal de Veneza, no próximo ano. É a consagração que faltava ao artista luso-luxemburguês, filho de imigrantes portugueses.

Muito antes de obter a nacionalidade luxemburguesa, Marco Godinho já era apresentado como “artista luxemburguês” nas exposições que realizou no Grão-Ducado. Os portugueses, esses, continuam a reclamá-lo como seu, mesmo depois de ter obtido a dupla nacionalidade. A ’disputa’ dá a medida do sucesso do luso-luxemburguês.

Nascido em Salvaterra de Magos, em 1978, Marco Godinho chegou ao Grão-Ducado com nove anos, e também acha que a sua nomeação “é uma boa notícia para os portugueses no Luxemburgo, porque é uma forma também de integração”. E mostra-se particularmente satisfeito pelo facto de o júri que o nomeou – que incluía Suzanne Cotter, ex-diretora do Museu de Serralves e atual responsável do Museu de Arte Moderna no Luxemburgo (Mudam), e a diretora do Centro Pompidou em Metz (França) – ter reconhecido o seu trabalho, em que procura afirmar “uma certa ideia poética e política sobre a imigração”.

A nomeação foi anunciada na sexta-feira, seis dias depois de Marco Godinho ter completado 40 anos. “Foi a minha prenda”, brincou o artista, que reconhece que está a viver um bom momento.

Sentir-se em casa em todo o lado

Filho de um trabalhador da construção e de uma costureira que trocaram Portugal pelo Luxemburgo, Marco Godinho admite que a experiência da imigração o moldou. “Cheguei ao Luxemburgo muito novo, tal como muitas outras pessoas, mas isso trouxe-me uma grande liberdade. Passei a sentir-me em casa em todo o mundo”. O português sabe do que fala: já expôs em quase todos os pontos do globo, de Beirute a Nova Iorque. E, tal como o Ulisses da “Odisseia” – que lhe serviu de inspiração para uma exposição recente –, passa muito tempo sem regressar a casa. ”Há seis meses que não vinha a casa, estive em residência em Paris e em Bruxelas. E nos últimos meses estive em três continentes”.

A experiência de viajante confirmou-lhe o que já sabia: “As pessoas são iguais em todo o lado. Quando se pode partilhar o humor, não há muitas diferenças”.

O humor é aliás uma constante nos trabalhos de Marco Godinho. Há 11 anos, na composição “Guia mental do Luxemburgo”, encomendada pelo Museu da História da cidade, pôs operários da construção a mudar monumentos de sítio e a desarrumar o país. Na colagem fotográfica, a estátua da Grã-Duquesa Charlotte, venerada pelos luxemburgueses, é transplantada para Esch-sur-Alzette, alterando radicalmente a simbologia do monumento. No pedestal da soberana pode ler-se “Mir hun Iech gaer” (“Gostamos de si”), mensagem que, enxertada no Sul do país, passa a ler-se como uma declaração de boas-vindas aos imigrantes italianos, chegados ao país no final do séc. XIX, e aos portugueses que os substituíram, nos anos 60.

A emigração e o nomadismo são temas que marcam o seu trabalho – a exemplo de “Forever Immigrant”, uma obra apresentada em 2015 no Museu do Chiado, em Lisboa, formada pela sobreposição de carimbos, a evocar o calvário burocrático dos imigrantes. Em 2016, na feira de arte contemporânea Art Central de Hong Kong, fez uma performance em que leu e rasgou páginas de “Os Lusíadas”, de Luiz Vaz de Camões. Em Palermo e Lampedusa, apresentou a “Declaração Universal dos Direitos do Homem”, um texto escrito em sobreposição (um método utilizado no séc. XIX para economizar papel) que faz lembrar arame farpado – uma alusão à chegada de milhares de refugiados à costa italiana.

Quando este artigo for publicado, esta quarta-feira, Marco Godinho terá acabado de chegar ao Canadá, para inaugurar mais uma exposição, depois de ter apresentado em Bruxelas, na sexta-feira passada, o projeto “Written by Water” (“Escrito pela Água”). Para o concretizar, o português mergulhou, literalmente, em vários pontos do Mediterrâneo, de Marselha a Lampedusa, passando por Gibraltar, Nápoles, Nice, Palermo ou uma praia perto de Arles, onde Vincent van Gogh pintou alguns dos seus mais belos quadros. Com ele mergulham cadernos em branco, que depois retêm as marcas do mar. “É como se a memória da água ficasse guardada nos cadernos”, explica, admitindo que a peformance evoca também a tragédia dos refugiados. “O Mediterrâneo, com a crise dos refugiados, é o maior cemitério a céu aberto”, lamenta.

A Bienal de Arte de Veneza 2019 decorre de 11 de maio a 24 de novembro de 2019.

Paula Telo Alves


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