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Marco Godinho leva a Veneza "remédio contra racismo" feito de aguardente luso-luxemburguesa
Marco Godinho durante uma das suas performances, no projeto "Written by Water".

Marco Godinho leva a Veneza "remédio contra racismo" feito de aguardente luso-luxemburguesa

Marco Godinho durante uma das suas performances, no projeto "Written by Water".
Cultura 6 min. 12.03.2019

Marco Godinho leva a Veneza "remédio contra racismo" feito de aguardente luso-luxemburguesa

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
A região demarcada do artista plástico, filho de imigrantes portugueses no Luxemburgo, é o mundo todo. A exposição com que vai representar o Luxemburgo na Bienal de Veneza é uma coleção de fragmentos das suas explorações, espécie de Odisseia infinita.

Marco Godinho está sentado ao lado da ministra da Cultura, Sam Tanson, e do curador do pavilhão do Luxemburgo na Bienal de Veneza, Kevin Muhlen, numa sala cheia de jornalistas, para apresentar o projeto que vai expor a partir de 9 de maio. Há slides, fotos, vídeos, citações de escritores que o inspiraram, de Homero a Borges, e um discurso em que proliferam as associações de ideias. O artista plástico que representa este ano o Grão-Ducado na Bienal diz que concebeu a exposição "para ser impossível vê-la na sua totalidade, mesmo que se passem lá duas horas, um dia, uma semana". Há risos na sala, mas Marco Godinho fala a sério. "Quanto mais tempo se ficar [na exposição], mais ela se torna incerta".

O projeto para a Bienal de Veneza, intitulado "Written by Water" ("Escrito pela Água"), começou em 2013 e levou o artista plástico a mergulhar em vários pontos do Mediterrâneo, de Marselha a Lampedusa, passando por Gibraltar, Nápoles, Nice, Palermo e Tunísia. Com ele mergulham cadernos em branco, que depois retêm as marcas do mar, uma performance que evoca a tragédia dos refugiados e, com ela, a Odisseia, de Homero. Agora, do Luxemburgo a Veneza, "é uma odisseia no sentido contrário aos fluxos migratórios recentes", num movimento que "opera assim um regresso ao Mediterrâneo, berço da sociedade contemporânea e das narrativas gregas às quais o mar serviu de palco".

O mar está no centro de todo o projeto de Marco Godinho para esta Bienal. O mar como "aedo", poeta ambulante da Grécia antiga, mas também como "kenos", cenotáfio, túmulo de milhares de refugiados que ali perdem a vida a tentar chegar à Europa. "Não é só um trabalho poético, é também político", sublinha. Os cadernos "escritos pelo mar" vão ser expostos no pavilhão, como uma espécie de biblioteca infinita (e ilegível) de Jorge Luis Borges.

"Borges foi importante para mim, mais uma vez – a ideia da biblioteca infinita, e também a ideia da memória", explica ao Contacto o artista, no final da conferência, evocando também o conto "Funes, o memorioso", do escritor argentino. Uma personagem com memória fotográfica, capaz de reter os mais inúteis pormenores, mas que não consegue "pensar". "Pensar é esquecer diferenças", diz Borges no conto. "Essa ideia é fascinante. Tens mesmo de esquecer, para continuar a ser aberto, senão podes limitar-te muito", defende o lusodescendente.


Marco Godinho, o "nosso homem" em Veneza
O artista plástico Marco Godinho foi escolhido para representar o Luxemburgo na Bienal de Veneza, no próximo ano. É a consagração que faltava ao artista luso-luxemburguês, filho de imigrantes portugueses.

A importância de "esquecer para viver" vai estar presente também numa performance que o artista vai apresentar em Veneza. Numa das suas muitas viagens, Marco Godinho encontrou em Djerba o que muitos pensam ser o "fruto do esquecimento", a jujuba, evocado na viagem de Ulisses, no episódio da ilha dos Lotófagos, habitantes mitológicos do Norte de África que comem plantas que lhes fazem perder a memória. É o perigo que ameaça o emigrante, ou pelo qual ele se sente ameaçado: o país para onde vai pode ser tão fantástico que se arrisca a esquecer de onde veio, e com isso, a esquecer-se de si mesmo. Mas tem de haver uma dose de esquecimento, defende o artista.

Marco Godinho vai macerar estas "bagas do esquecimento" num líquido composto por aguardente do Luxemburgo e de Portugal, durante toda a duração da exposição, de maio a novembro. No final, vai propor que as pessoas provem a bebida homeopática para esquecer. "A ideia é criar um líquido que seria um placebo, uma espécie de remédio contra a ignorância racista", explica o artista, preocupado com os populismos emergentes na União Europeia: "É a ideia de que é preciso protegermo-nos, para não entrarmos em contacto com o estrangeiro". "Isto é quase um remédio para se abrir – esquecer os preconceitos, as ideias negativas que temos do outro". À imagem de uma frase que citou na conferência, do escritor francês Édouard Glissant, nascido na Martinica: "Je peux changer en échangeant avec l'autre sans me perdre ni me dénaturer" ("Eu posso mudar ao mudar/trocar com o outro, sem me perder nem desnaturar").

A escolha do líquido onde o "fruto do esquecimento" vai macerar durante toda a exposição não é acidental: aguardente (que em francês se diz "eau de vie", literalmente, água de vida) de Portugal e do Luxemburgo, tal como os dois países a que está ligado, ele que chegou ao Grão-Ducado com nove anos mas se sente em casa "em todo o lado". "A ideia de reconstruir uma outra identidade é interessante, e eu comecei com a minha. Gostei muito dessa ideia de 'eau de vie', porque é um processo que demora até ser destilado, não é um processo imediato, como as migrações".

Quando o rosto do Luxemburgo em Veneza é um português

A escolha de Marco Godinho, filho de uma costureira e de um operário portugueses, para representar o Luxemburgo em Veneza, é uma consagração, mas mostra também uma outra face do país lá fora. "No Luxemburgo há uma certa abertura, com muitos contras, também, mas onde pessoas como eu são necessárias para mostrar uma outra cara também do país", defende. "Eu se calhar sou a cara mais luxemburguesa – não eu, Marco, mas identidades como a minha: somos os mais luxemburgueses dos luxemburgueses".

A conversa volta ao herói de Homero e ao regresso a Ítaca com que sonha a maioria dos emigrantes. "A ideia de Ulisses era voltar a casa. Mas é complicado voltar, porque tudo muda, tudo é efémero. Ulisses, quando volta, já não volta", reflete. Hoje, esse regresso ao que já foi é ainda mais difícil, num mundo em permanente mudança, e nem sequer é desejável, defende. "Não sei se se pode dizer ‘vou voltar’, como os nossos pais diziam quando emigraram. Hoje a ideia é mais não esquecer de onde vens, porque é importante, mas realizar um trabalho mais forte dentro de ti para poderes não voltar, mas voltares a outro sítio. Gosto dessa ideia de voltar a sítios que não conheces". E explica: "Voltar é ser reconhecido. Quando Ulisses volta a casa, a única criatura que o reconhece é o cão", Argos. "Voltar é ser reconhecido por outras identidades". E se o estrangeiro é sempre "alguém a quem falta alguma coisa”, a nova odisseia fundadora proposta pelo artista seria "sentir-se em casa em todo o mundo": uma utopia construída com base no que falta. "Questionar esta qualquer coisa que falta é, segundo Ernst Bloch, a definição da utopia", aponta o artista. 

Fábio Godinho, irmão do artista plástico, lê em silêncio a "Odisseia", de Homero, para depois rasgar as páginas da narrativa fundadora da nostalgia.
Fábio Godinho, irmão do artista plástico, lê em silêncio a "Odisseia", de Homero, para depois rasgar as páginas da narrativa fundadora da nostalgia.

"Left to their own fate" ("deixados à sua sorte") é outra das facetas que o luso-luxemburguês leva à Bienal de Veneza. Um filme em que o irmão, o ator Fábio Godinho, lê em silêncio as páginas da Odisseia, de Homero, frente ao mar, e rasga uma a uma as páginas dos três tomos do livro, lançando-as ao vento, "como uma oferta ao mundo". Um rasgar da "narrativa fundadora da nostalgia", como lhe chamou Kundera, que é também o símbolo desta utopia pós-homérica que quer que, um dia, Ítaca seja em todo o lado. 



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