Mandela - Long Walk to Freedom: Quem foi Nelson Mandela?
Efectivamente, os criadores da homenagem renderam-se à evidência e admitiram que tinham confundido Nelson Mandela com o actor norte-americano Morgan Freeman. O erro foi reconhecido tarde demais e o cartaz esteve visível durante dias, indo parar às redes sociais e dando a volta ao mundo.
Este "fait-divers" é a prova de que Mandela já não tem cara nem existe claramente na memória colectiva. O estadista africano é um daqueles nomes que todos podem citar mas que pouca gente sabe dizer o que fez e o que foi, numa determinada época da História.
Mas confundir Mandela com um actor tem outro aspecto curioso para quem gosta de cinema. Morgan Freeman interpretou o líder negro em "Invictus", um filme de Clint Eastwood sobre a selecção sul-africana de râguebi. Por isso, Freeman é mais uma das caras de Mandela no imaginário colectivo mundial.
Quando o filme saiu já Mandela estava debilitado por problemas de saúde e as imagens que dele se viam eram raras. Ficou a imagem de Freeman, como para Gandhi ficou a de Ben Kingsley.
A relação entre o cinema e a realidade é incestuosa. Os filmes biográficos são um terreno perigoso que permite reescrever a História mais facilmente que nos manuais escolares ou nos discursos oficiais.
Por todo o mundo – à volta da morte de Nelson Mandela – estreou um filme intitulado "Mandela: Long Walk to Freedom". Uma tentativa de contar a história do ex-presidente da África do Sul antes da sua morte que acabou por usufruir dela.
Justin Chadwick (realizador de "The Other Boleyn Girl") baseia-se na autobiografia de Mandela para tentar um filme que é um desafio. A longa vida de Mandela tem muitas histórias e momentos importantes e, certamente também, várias versões. O realizador opta por começar cedo, oferecendo imagens da criança e do jovem, mas trata-se de pequenas aparições. O filme arranca quando entra em cena Idris Elba, que interpreta Mandela adulto. O ritmo é acelerado porque há muito para contar.
O espectador descobre o jovem advogado e a sua vida profissional, o casamento com Evelyn (Terry Pheto) e as infidelidades, o segundo casamento com Winnie (Naomie Harris) e, obviamente, a carreira política do homem que se tornaria no símbolo do movimento anti-apartheid.
O espectador pode sentir-se como num avião com turbulência com tanta informação e eventos, mas a força da interpretação de Elba transmite uma certa calma e assegura uma continuidade na acção que, por vezes, se despista.
O Mandela de Elba é convincente. Elba, diz quem sabe, consegue mesmo adaptar-se à pronúncia sul-africana da língua inglesa e "imitar" Mandela. O actor é de origem ganesa e formou-se no Reino Unido.
Naomie Harris, no papel de Winnie Mandela, é um vulcão que contrasta com a calma do protagonista. A interpretação é excelente e transmite mais emoções ao filme.
"Mandela: Long Walk to Freedom" tem aquele tom dos grandes épicos que antes de o serem já o queriam ser. Com tantos momentos históricos é fácil cair nos excessos e abusar de todos os lugares comuns das biografias. Chadwick acaba por se deixar tentar algumas vezes e borra um bocado a pintura.
Noutros casos, compacta eventos e pode deixar baralhado o espectador que conheça menos a bem a realidade histórica. Contudo, o filme acaba por ser uma bela homenagem ao líder que se tornou num símbolo de justiça e que muitos gostariam mesmo de santificar.
Logo depois da sua morte contava-se que, algures no paraíso, Gandhi e Madre Teresa de Calcutá estariam desiludidos porque os epítetos que antes eram usados para eles estavam a ser todos aplicados a Mandela.
E para quem tenha dúvidas sobre quem foi verdadeiramente Nelson Mandela, aconselha-se a leitura, por exemplo, da Wikipédia. Ficará a saber mais sobre o líder sul-africano do que neste filme.
"Mandela: Long Walk to Freedom", de Justin Chadwick, com Idris Elba, Naomie Harris e Terry Pheto.
Raúl Reis