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Maestro António Victorino d'Almeida: "Em Portugal sinto-me um pescador de baleias na Suíça!"
Cultura 25 3 min. 05.06.2015

Maestro António Victorino d'Almeida: "Em Portugal sinto-me um pescador de baleias na Suíça!"

Cultura 25 3 min. 05.06.2015

Maestro António Victorino d'Almeida: "Em Portugal sinto-me um pescador de baleias na Suíça!"

“Em Portugal, sinto-me como um pescador de baleias na Suíça”. Foi com esta frase que o maestro António Victorino d’Almeida criticou a falta de investimento na música em Portugal. O maestro actuou na quinta-feira no Teatro Municipal de Esch-sur-Alzette, naquela que foi a sua primeira visita ao Luxemburgo.

“Em Portugal, sinto-me como um pescador de baleias na Suíça”. Foi com esta frase que o maestro António Victorino d’Almeida criticou a falta de investimento na música em Portugal. O maestro actuou na quinta-feira no Teatro Municipal de Esch-sur-Alzette, naquela que foi a sua primeira visita ao Luxemburgo.

“Creio que Portugal está na terceira divisão a nível mundial porque não joga muito bem e as pessoas não conhecem nada dos nossos compositores. Para ser um país de nível internacional, acho que nem 500 mil euros devem chegar”, disse o maestro ao CONTACTO, referindo-se à pouca divulgação e às obras dos compositores portugueses que continuam por gravar.

António Victorino d’Almeida lamenta ter apenas uma obra gravada. “Gravar em Portugal é caro”, diz o compositor, que denuncia a falta de apoios. “Em Portugal, sinto-me como um pescador de baleias na Suíça. As condições em termos musicais são mínimas. O meu maior desejo é gravar a minha obra, mas isso custa milhões. A única obra que tenho gravada é a minha primeira sinfonia, dedicada ao meu clube, o Benfica, que pagou a gravação. É o único clube do mundo que tem uma sinfonia, mas nem sequer pensam nisso”.

A solução pode estar no estrangeiro, considera o maestro. “Com 200 mil euros gravava-se tudo na Bulgária ou na Hungria, porque é mais barato e melhor. Melhor, não porque não tenhamos bons músicos, mas por causa do tempo e da organização”, acrescenta.

Além da falta de investimento nas gravações, Victorino d’Almeida aponta também o dedo ao desaproveitamento dos novos talentos da música em Portugal. “Valores há, mas o desaproveitamento é grande. Por isso, há quem vá para o estrangeiro, e se estiver bem, não volta”, diz o compositor, que viveu 26 anos em Viena (Áustria).

Comparando o peso da cultura na economia dos dois países, a conclusão é clara: “A cultura é uma das fontes de receitas da Áustria. Já em Portugal temos o turismo de pé descalço e não se vê os turistas a ir a um concerto, à ópera ou ao teatro. Estão convencidos que lá só temos concertos de rock. Isto tudo depende do ’maestro’ que estiver a dirigir a cultura, mas também da comunicação social, que não ajuda. Não sabem que as coisas existem e há falta de informação e esclarecimento”, critica.

Mas o cenário não é todo dissonante. “Tenho de reconhecer que nem tudo está mau. O Ministério dos Negócios Estrangeiros, nos últimos meses, tem feito coisas muito boas. Pediram-me 30 canções que vão ser interpretadas em todas as línguas da UE. Já acabei 22 e faltam oito. Estão a apoiar estas 30 canções”, conta o também pianista.

O maestro falava à margem da conferência-concerto “Portugalidade”, que teve lugar na quinta-feira, no Teatro Municipal de Esch-sur-Alzette.

O Luxemburgo foi o primeiro país escolhido para esta digressão, que tem como objectivo “homenagear Victorino d’Almeida pelos seus 75 anos e também os emigrantes portugueses”, disse ao CONTACTO o professor Miguel Leite, que acompanhou o maestro, realçando a iniciativa da Secretaria de Estado das Comunidades em levar “outro tipo de música” aos emigrantes.

“Com todo o respeito pelo Toy, de quem sou amigo, pelo Quim Barreiros e outros artistas, é importante que se mostre que em Portugal não há só isso. Há outro tipo de música. Portugal é um país que tem grandes compositores, grandes pianistas e jovens músicos a dar cartas pelo mundo fora em grandes orquestras. Somos bons em tantas coisas, mas somos maus a divulgar”, acrescenta Miguel Leite.

A conferência-concerto decorreu num ambiente descontraído. Victorino d’Almeida passou em revista alguns dos momentos marcantes dos seus 75 anos de vida e relembrou alguns compositores portugueses.

Ao piano, tocou o fado “A Severa”, do “compositor ignorado” Frederico Freitas, e “Verdes Anos”, de Carlos Paredes, entre outras obras.

Nesta deslocação ao Luxemburgo, o maestro fez-se ainda acompanhar por Manuela Aguiar, presidente da Assembleia da Associação Mulher Migrante. A ex-secretária de Estado das Comunidades (1980-1987) coordena a digressão do maestro, que vai estar também em Paris, mas em Setembro.

Victorino d’Almeida é o compositor português com mais composições, contando com mais de 200 obras (sinfonias, óperas, fados, músicas de câmara) e 14 livros.

Henrique de Burgo



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