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"Madres paralelas". Mulheres à beira de um ataque de paternidade
Opinião Cultura 2 min. 25.12.2021
Crítica de cinema

"Madres paralelas". Mulheres à beira de um ataque de paternidade

Almodóvar defende que a mulher é a infraestrutura em que se baseia toda a nossa sociedade.
Crítica de cinema

"Madres paralelas". Mulheres à beira de um ataque de paternidade

Almodóvar defende que a mulher é a infraestrutura em que se baseia toda a nossa sociedade.
Foto: DR
Opinião Cultura 2 min. 25.12.2021
Crítica de cinema

"Madres paralelas". Mulheres à beira de um ataque de paternidade

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
O cinema de Pedro Almodóvar assenta nos pilares de uma enorme personalidade e de um universo icónico único. Mas em vez de nele se instalar, o cineasta espanhol está sempre em constante processo de evolução e transformação.

Em cada um dos seus filmes encontramos ideias, narrativas e formais, absolutamente inéditas, que o fazem caminhar para territórios até então inexplorados, abrindo portas a novas formas de experiências, sobretudo a nível da representação de um mundo sempre novo mas sempre muito almodovariano.

Há já alguns anos que o realizador enveredou por um caminho onde não há contenção dramática. Almodóvar agora desenvolveu um método em que as emoções se transmitem através de um nó constante no estômago. Em "Madres paralelas", o espanhol dá um passo em frente a nível estilístico, ao mesmo tempo que propõe um mecanismo de enredo pleno de metáforas, em torno dos traumas e das feridas do passado e do presente.

A maternidade em "Madres paralelas" adquire um duplo sentido, o da mulher que dá à luz uma nova vida e o de um país, a Espanha, que – diz Almodóvar – ainda não enterrou os seus mortos.

'Madres paralelas' aposta no diálogo realista em vez da artificialidade, mas é um filme político que consegue manter-se profundamente humano.

O pessoal e o político unem-se para juntar várias gerações através do luto. A partir dessa base, Almodóvar aproveita a oportunidade para falar sobre novos modelos de família, sexualidade e identidade. Sobretudo, defende que a mulher é a infraestrutura em que se baseia toda a sociedade. E dá exemplos de mulheres solteiras que são levadas a seguir em frente com base apenas nos seus instintos e convicções, mas também há mulheres que renunciam, mulheres que aprendem, mulheres que se dão ou, ainda, mulheres que lutam.

"Madres paralelas" constrói-se sobre o conceito tentador de cruzamento de destinos: o de uma mulher com um homem "útil" e outra jovem que com quem ela coincide no parto e nas circunstâncias. São duas mulheres à beira de um ataque de maternidade – ou será também de paternidade?

O filme tem aroma de telenovela, mas as duas personagens femininas são tão perfeitas nas suas paixões e infortúnios, especialmente a interpretada por Penélope Cruz, que a força do filme e a sua originalidade prendem o mais exigente.

"Madres paralelas" aposta no diálogo realista em vez da artificialidade, mas é um filme político que consegue manter-se profundamente humano.

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