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Mário Cruz. O fotojornalismo como prova de um crime
Cultura 6 min. 05.11.2019

Mário Cruz. O fotojornalismo como prova de um crime

Mário Cruz. O fotojornalismo como prova de um crime

Foto: Mário Cruz
Cultura 6 min. 05.11.2019

Mário Cruz. O fotojornalismo como prova de um crime

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Viveu nas margens do rio Pasig, em Manila, para documentar a miséria dos que vivem no lixo. Infiltrou-se em escolas islâmicas no Senegal para denunciar a escravatura de meninos mendigos. Com estes trabalhos, o fotojornalista português ganhou dois prémios do World Press Photo.

Podemos até identificar pedaços da montanha de lixo que faz parte do ‘mobiliário urbano’ daquela comunidade miserável. Numa das fotos da exposição Living Among What’s Left Behind (Viver entre o que foi deixado para trás), no primeiro plano, uma embalagem de Dove, o sabonete da beleza real. Há crianças a brincar por entre dejetos e um rapaz esquelético deitado num sofá respira ligado a uma bomba de oxigénio. Desde os três anos recolhia embalagens para reciclar no rio Pasig. Os vapores tóxicos do rio destruíram-lhe os pulmões. Durante a semana em que decorreu em Bruxelas o Festival das Liberdades (Festival des Libertés), que aborda temas sociais e de direitos humanos, a exposição esteve patente no Teatro Nacional.

Mário Cruz, de 32 anos, fotógrafo da agência portuguesa de notícias Lusa, lembrou-se de ir para Manila quando começou a “encontrar notícias sobre ondas de lixo que entravam nas casas de muitos filipinos”. Numa entrevista ao Contacto, recorda: “Tentei perceber o que realmente se passava e descobri o rio Pasig, em Manila. O lixo não está presente somente na época das monções. Milhões de pessoas têm uma ligação dramática com o lixo que se encontra no rio, são comunidades que vivem em pobreza extrema”.

Durante um mês, Mário Cruz mudou-se para a capital filipina e fotografou e viveu com as pessoas nas margens do curso de água que foi considerado biologicamente morto nos anos 90, um dos 20 rios mais poluídos do mundo, e que não é mais do que um esgoto coberto de porcaria e embalagens e, às vezes, carcaças de animais.

Em Manila, mais de um quinto da população de 1,6 milhões de habitantes vive abaixo do limiar da pobreza: “A maior parte migrou do interior do país para a capital com a esperança de ter uma vida melhor, mas infelizmente acabaram a viver em construções rudimentares junto ao rio que outrora foi a principal via comercial de Manila. Entretanto, passaram décadas e o rio tornou-se o esgoto da cidade por estas comunidades nunca terem acesso a saneamento básico e pela falta de um sistema de tratamento de resíduos”.

Para o fotojornalista de Lisboa, “foi um choque viver um mês naquela realidade, mas foi absolutamente necessário perceber que o que muitas vezes é projetado como um cenário negro para o futuro é na verdade o presente para milhões de pessoas em Manila”.

Living Among That’s Left Behind existe também em livro editado pela Nomad (quase esgotado), com capas feitas a partir de 160 quilos de plástico reciclado. E uma das fotos da reportagem ganharia o terceiro prémio do World Press Photo 2019, na categoria Ambiente. É uma imagem de um miúdo deitado num colchão no meio do lixo. Por baixo, sem se ver, corre o Pasig, mas a acumulação de despojos é tão grande que se pode caminhar como se fosse sólido. O Pasig despeja no mar cerca de 63 mil toneladas de plástico por ano. Na montagem da exposição em Lisboa, para se chegar às fotos era preciso literalmente pisar embalagens e garrafas de plástico espalhadas sobre os corredores do palácio Anjos. O que, no meio de todas as notícias sobre a crise do plástico, dava uma dimensão próxima da maneira como vivem muitos filipinos.

Em maio deste ano, o presidente Rodrigo Duterte ameaçou cortar laços diplomáticos com o Canadá se o país não aceitasse de volta 69 contentores com 1.500 toneladas de plástico. Outros países do sudeste asiático, como a Tailândia, a Malásia e o Vietname estão a enviar de volta para o ocidente o lixo que tem entrado muitas vezes ilegalmente. Os líderes asiáticos avisaram os vários países do ocidente que a onda de lixo vai cair-lhes em cima. Entretanto, a realidade em Manila é pobreza extrema e lixo sem fim.

Resgate de rapazes escravizados

A reportagem em Manila não foi a primeira do fotojornalista português a chegar à final do World Press Photo. Um outro trabalho anterior de Mário Cruz teve um resultado prático ainda mais surpreendente e recompensador. Mário Cruz refere que “o fotojornalismo é uma ferramenta essencial para questões relacionadas com injustiça social e direitos humanos”. E, às vezes, a publicação de fotografias tem o efeito de ser a prova do crime.

Em 2016, foi atribuído o primeiro lugar na categoria Temas Contemporâneos, a uma reportagem sobre escravatura de crianças no Senegal, os meninos talibés, um nome de origem árabe que significa discípulo. A reportagem foi publicada no Washington Post, na CNN e na Newsweek e viria a ter repercussão internacional. Com o prémio da World Press Photo chegaria também a publicação em livro pela FotoEvidence Press, uma editora especializada em fotojornalismo de temas sociais e direitos humanos.

Para se infiltrar nas escolas islâmicas, Mário Cruz diz ter tido um “trabalho intenso e extenso” e conseguido uma rede de contatos que lhe permitiu ter acesso “ao mundo perturbador em que vivem milhares de crianças no Senegal”. Na altura, em 2016, estimava-se que cerca de 50 mil miúdos, entre os 5 e os 15 anos, estivessem sujeitos a condições de escravatura nestas casas de tortura, muitos deles acorrentados e obrigados a mendigar nas ruas. Um mundo violento e onde é perigoso entrar.

Graças ao trabalho, que apresentou a evidência documental que faltava das atrocidades a que eram sujeitas as crianças, o presidente do Senegal ordenou o resgate das crianças por parte da polícia e o registo oficial de todas as escolas islâmicas, numa tentativa de pôr cobro ao tráfico de menores. Foram distribuídos panfletos naquele país e na Guiné Bissau, com fotos da reportagem, de forma a tentar consciencializar a população e ajudar a resgatar os meninos mendigos. E o livro Talibés, Escravos Modernos, existe em muitas bibliotecas senegalesas, escolas e associações. Mário Cruz refere que “o resgate de crianças foi o melhor resultado possível, mas também o facto de o governo senegalês agir de forma ativa através do trabalho fotográfico foi um excelente sinal de que o fotojornalismo está bem vivo”.

Desde 2012 focado nos projetos pessoais, nos quais trabalha sem bolsas, nem apoios e realizados de forma independente, Mário Cruz fez igualmente um vasto trabalho sobre um dos reflexos da crise económica em Portugal, que ainda está em fase de conclusão. O projeto Roofs documenta “a vida das pessoas que não têm casa mas que não vivem na rua, ou seja, sobrevivem em locais abandonados em Lisboa. É um trabalho que estou a completar após estes anos da austeridade e do virar da página. Quero perceber se realmente o problema deixou de existir”, diz. E é sobre a miséria à porta de casa, a que mais vezes preferimos não ver.

Embora consiga ter os seus trabalhos regularmente publicados na imprensa internacional, Mário Cruz refere que não é esse o seu objetivo único. “Eu quero que o meu trabalho seja visto da forma mais completa possível seja através de exposições, instalações ou livros. É importante para mim o uso da fotografia e não acho que a mesma deve estar presa a uma publicação”.


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