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Luxembourg Film Festival: A adolescência de um “enfant terrible”
Cultura 4 min. 04.03.2015

Luxembourg Film Festival: A adolescência de um “enfant terrible”

Tim Burton enviou para o Luxemburgo um filme com mais olhos que barriga

Luxembourg Film Festival: A adolescência de um “enfant terrible”

Tim Burton enviou para o Luxemburgo um filme com mais olhos que barriga
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Cultura 4 min. 04.03.2015

Luxembourg Film Festival: A adolescência de um “enfant terrible”

Os decisores políticos do Grão-Ducado, e sobretudo os autarcas da capital, decidiram já há uma dezena de anos que era necessário criar um festival de cinema institucional que os poderes públicos apoiariam.

Os decisores políticos do Grão-Ducado, e sobretudo os autarcas da capital, decidiram já há uma dezena de anos que era necessário criar um festival de cinema institucional que os poderes públicos apoiariam.

Como em muitas coisas públicas que são “forçadas” por decreto, o nascimento do projecto demorou e começou com bases trôpegas. O festival do Luxemburgo chamou-se então DirActors. O conceito era interessante: projectar filmes assinados por realizadores que fossem ou tivessem sido actores.

Nem sempre uma boa ideia é fácil de pôr em prática; foi o caso. Acresceu o facto de a forma de gestão escolhida para o festival ter falhado e a reciclagem foi necessária.

Neste entretanto, o festival CinÉast – especializado no cinema dos países da Europa Central e de Leste – batia recordes de audiência e tornava-se no primeiro festival do país.

O festival “oficial” do Luxemburgo passou então a chamar-se Discovery Zone. O modelo desenvolvido foi genérico no que respeita à amostragem de filmes e a gestão entregue a equipas locais.

Contudo, e num ano em que o Luxemburgo procura estabelecer o seu “branding”, o festival voltou a mudar de nome. O ano de 2015 conheceu assim a aparição do Luxembourg Film Festival, ou Lux Film Fest na versão reduzida e gráfica.

As alterações foram maiores do que em termos de marca. O comité organizador decidiu alargar o evento a mais contribuições, envolvendo mais estreitamente a Cinemateca, o Centro Nacional de Audiovisual (CNA) e outras entidades.

A evolução positiva sente-se claramente na selecção, que é o aspecto essencial deum festival de cinema que pretende inclusivamente premiar obras recentes e inéditas.

Tendo a possibilidade de participar no júri da imprensa, através da recém-criada Associação Luxemburguesa da Imprensa Cinematográfica (ALPC), pude seguir com surpresa e satisfação uma dúzia de filmes em competição que surpreenderam os jurados até ao fim.

As longas metragens de ficção em concurso, sendo sobretudo europeias, têm origens variadas, da Grécia ao Irão, dos Estados Unidos à Letónia.

Com o filme de abertura do festival, “Big Eyes”, de Tim Burton, a constituir uma decepção (é uma obra menor na carreira do realizador, mas não é um mau filme), a vedeta do certame passou a ser “Taxi”, de Jafar Panahi. Para os mais distraídos, recorde-se que esta obra conquistou o prémio supremo do festival de Berlim, que teve lugar no mês passado.

Mas o Festival do Luxemburgo propôs aos jurados outras belas surpresas, sobretudo vindas da Europa de leste.

“Three Windows and a Hanging”, de Isa Qosja, é um filme rodado no Kosovo albanês sobre uma das mais dramáticas consequências da guerra: as violações de mulheres nas aldeias invadidas pelos sérvios. Nesta obra, a protagonista tenta rebelar-se contra o silêncio que reina em torno do assunto.

Da Bulgária chega outro filme com uma mulher corajosa no principal papel: “The Lesson” é um drama sobre o papel do dinheiro na sociedade, mas também um retrato fiel da Bulgária dos nossos dias. A mesma coisa tenta fazer o realizador Syllas Tzoumerkas em “A Blast”, mas peca por excesso de bombas e de fantasia, embora o seu retrato e a sua visão da Grécia actual fiquem bem estabelecidos.

Da Rússia para o Luxemburgo veio “Test”, de Aleksandr Kott, que será talvez o mais belo filme da selecção do ponto de vista visual. Neste trabalho regressamos ao início do cinema, sem palavras.

“Dora or the Sexual Neuroses of our Parents” e “Refugiado” são duas decepções. O primeiro é um estranho filme suíço-alemão que parece não saber o que quer mostrar, enquanto que o segundo, depois de ter passado por Cannes, continua a fazer valer a temática tratada muito mais do que a qualidade.

“Rocks in my Pockets”, de Signe Baumane, é uma estranha proposta chegada da Letónia: um tratado em animação sobre a depressão e as causas do suicídio. É surpreendente observar como é possível tratar um assunto tão sério e complexo com uma aparente ligeireza. A cegueira é o aspecto central de “Blind”, um belo produto norueguês que chegou ao Luxemburgo já com o carimbo da Berlinale.

Para não deixar Tim Burton sozinho como decepção norte-americana, Noah Baumbach assina outro filme em concurso, “While We’re Young”. Protagonizado por Naomi Watts e Ben Stiller, trata-se de uma comédia ligeira que não se enquadra no contexto geral do certame, mas que será certamente um êxito nas salas e nos alugueres em linha.

À hora em que escrevo estas linhas, não eram ainda conhecidos os filmes vencedores do festival, mas o principal ganhador nesta edição de 2015 foi a qualidade dos filmes e, consequentemente, o público.

Raúl Reis


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