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Lovelace: Dor de garganta
Tão amigos que nós éramos

Lovelace: Dor de garganta

Tão amigos que nós éramos
Cultura 3 min. 16.04.2014

Lovelace: Dor de garganta

Um dos motores da internet é a indústria pornográfica. Não há números exatos e a maioria dos especialistas discordam, contudo, é um facto que 6% das buscas feitas nos motores de pesquisa, em 2013, incluíam palavras relacionadas com sexo e 4% dos sites ativos têm conteúdo pornográfico.

Recentemente, a revista Forbes dizia que um dos negócios mais florescentes na internet é a pornografia. A prova veio da criação do domínio xxx que se tornou bastante popular e veio trazer ainda mais conteúdo pornográfico.

Quando ainda não existia a internet, nem as cassetes de vídeo, e ainda menos os DVD, a indústria pornográfica existia sobretudo nas revistas e nos cinemas. O aparecimento do vídeo caseiro (com as cassetes VHS, Beta e outras) colocou a indústria pornográfica num patamar superior, sendo – para alguns especialistas – a principal razão para o êxito do comércio de vídeos.

O cinema pornográfico, como indústria, não é muito antigo quando comparado com o advento da Sétima Arte. Um filme chamado “Deep Throat” (em português, “Garganta Funda”) é considerado como o primeiro grande filme porno da História. “Deep Throat” está para a pornografia no cinema como “Gone With the Wind” (“E Tudo o Vento Levou”) para a indústria da Sétima Arte tal como hoje a conhecemos. Por isso, fazer um filme sobre um trabalho tão fundador era uma necessidade.

“Lovelace” de Rob Epstein e Jeffrey Friedman conta a história de Linda Lovelace (Amanda Seyfried), uma miúda de 21 anos que conhece o charmoso Chuck Traynor (Peter Sarsgaard) e decide apresentá-lo aos seus pais Dorothy (Sharon Stone) e John (Robert Patrick) para logo a seguir casarem.

O verniz de Chuck vai estalar rapidamente, revelando-se um homem interesseiro que prepara a jovem para participar num filme pornográfico em troca de 25.000 euros. Chuck treina Linda nas artes do sexo oral e esta acaba por se tornar uma estrela de um dia para o outro. O filme é obviamente “Deep Throat”.

“Lovelace” mostra bem como aquilo que poderia ter sido mais um filme pornográfico se torna num fenómeno de sociedade acabando por faturar mais de 600 milhões de dólares. Apesar do êxito, a vida de Linda Lovelace não é uma sucessão de bons momentos, antes pelo contrário: Chuck trata Linda muito mal e esta torna-se depressiva.

Este trabalho de Rob Epstein e Jeffrey Friedman surge oito anos depois de um documentário intitulado “Inside Deep Throat”, mas opta pela ficção para mostrar a história triste de Linda Lovelace.

“Lovelace” vive muito da força que lhe transmitem as boas interpretações dos atores principais. Amanda Seyfried consegue retratar a atriz com uma vasta gama de emoções de forma convincente e eliminando o “glamour” que poderia esconder a verdadeira mulher. Peter Sarsgaard é excelente na criação do marido manipulador capaz de tudo por dinheiro.

Mas é inevitável não mencionar a aparição de Sharon Stone no papel da mãe de Linda Lovelace. Trata-se de um pequeno papel, mas que a atriz desempenha com grande honestidade e de forma quase irreconhecível. Robert Patrick também é impressionante no papel do pai de Linda.

Aliás, todos os atores secundários são excelentes, com destaque para Juno Temple e James Franco. Este último interpreta o patrão da revista Playboy, Hugh Hefner.

O filme é mais ou menos como uma cebola. Os criadores de “Lovelace” começam pelas camadas exteriores da experiência de Linda, mostrando o êxito e a superficialidade. Devagarinho, os espectadores começam a descobrir o pesadelo que vive a jovem. O público acompanha-a nos seus sentimentos e nas contradições do sucesso. Ninguém se importa com os sentimentos de Linda, nem sequer os polícias que a controlam na estrada e que não a deixam ir-se embora sem que lhes assine um autógrafo. Pior: ninguém acredita nela porque toda a gente imagina que a jovem vive uma existência de fausto e felicidade.

Linda Lovelace não usufruiu do êxito extraordinário da obra que protagonizou e o filme de Rob Epstein e Jeffrey Friedman mostra muito bem como ela se torna numa fonte de rendimento para muita gente. Os realizadores nunca abusam das imagens pornográficos, utilizando-as apenas como pano de fundo para demonstrar que o “glamour” da indústria do sexo é apenas aparente. Os atores de filmes pornográficos não se divertem nas filmagens tanto como poderíamos imaginar e uma vez que se vestem têm de assumir a profissão, o que não é fácil de assumir.

“Lovelace”, de Rob Epstein e Jeffrey Friedman, com Amanda Seyfried, James Franco, Peter Sarsgaard, Sharon Stone, Juno Temple, Robert Patrick, James Franco e Chloë Sevigny.

Raúl Reis