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Tullio Forgiarini apresenta 'Céruse' aos portugueses
Cultura 4 5 min. 18.06.2021
Livros

Tullio Forgiarini apresenta 'Céruse' aos portugueses

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Tullio Forgiarini apresenta 'Céruse' aos portugueses

Foto: Marc Schroeder
Cultura 4 5 min. 18.06.2021
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Tullio Forgiarini apresenta 'Céruse' aos portugueses

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
O autor levou à Noite da Literatura Europeia, que se realizou em Oeiras (Lisboa), a 5 de junho, o seu mais recente romance 'Céruse'. A participação do escritor marcou a estreia do Luxemburgo naquela iniciativa que junta vários escritores europeus.

Foi com um sol radioso que Lisboa recebeu o escritor Tullio Forgiarini, acabado de chegar do Luxemburgo, na mesma altura em que o mau tempo fazia alguns estragos no país. 

O autor luxemburguês aterrou na capital portuguesa a 4 de junho para se apresentar na Noite da Literatura Europeia, celebrada no dia seguinte, 5 de junho, no Parque dos Poetas, em Oeiras, e passou as horas livres a conhecer um pouco de Lisboa, aproveitando o passeio para trocar algumas impressões com o Contacto, sobre a sua participação no evento e o livro que escolheu para o apresentar, o seu mais recente romance, 'Céruse'.

"Estou a descobrir a cidade, é bastante impressionante", confessou. 

Para Tullio Forgariani, esta vinda a Portugal foi uma estreia a vários níveis. A estreia do autor luxemburguês nesta iniciativa literária, em território português, organizada pela EUNIC Portugal, a rede de institutos culturais dos países europeus e a Representação da Comissão Europeia, coincidiu com a do próprio Luxemburgo, através da sua embaixada em Lisboa, o que deixou o escritor "honrado", ao ser a escolha para representar o Grão-Ducado na sua primeira participação neste encontro europeu. Além disso, a presença no evento que junta, anualmente, autores de vários países da UE, poderá marcar também a entrada de 'Céruse' no mercado editorial português e na língua de Camões. "Espero que este meu último livro seja traduzido em português", referiu o escritor que, na véspera da Noite da Literatura Europeia se encontrou com o representante de uma editora portuguesa.  A concretizar-se o acordo, até ao final deste ano, ou mais tardar no próximo, 'Céruse' poderá ser editado em Portugal.


Quem esteve no evento em Oeiras teve oportunidade de conhecer, já em língua portuguesa - através da leitura encenada da lusodescendente Lucie Marinho -, um pouco deste livro, que faz parte de uma série de romances noir em língua francesa e que conta a história de um professor de meia idade, do ensino secundário, que perde o seu emprego, depois de um incidente numa excursão com estudantes. Nessa altura é contratado para escrever a biografia de Céruse, um homem de negócios rico, com um passado conturbado, que está a morrer. A tarefa de biografar esta personalidade vai revelar-se desafiante, envolta pela oposição de colaboradores e por segredos familiares. À medida que a narrativa se desenvolve a verdade e a mentira vão-se confundindo. 


Tullio Forgiarini representa Luxemburgo na Noite da Literatura Europeia em Lisboa
Esta é a primeira vez que o Grão-Ducado participa no evento, organizado pela EUNIC Portugal, rede de institutos culturais dos países europeus representados no país, e pela Representação da Comissão Europeia.

"Todas as personagens deste romance estão de alguma forma a mentir. A partir de um certo ponto, na história, o leitor percebe que há qualquer coisa de estanho. Não é claro o que se passa", revela Tullio Forgiarini. A atmosfera de 'Céruse' tem sido comparada, por alguns, à do cineasta David Lynch". Um elogio para o escritor, que se confessa grande fã de cinema e do trabalho do realizador americano, ainda que não tenha sido intencional criar qualquer semelhança entre a história do seu mais recente romance e o universo do autor de 'Twin Peaks' ou 'Mulholland Drive'. Como acontece neste filme de 2001, a história começa de uma forma bastante simples mas vai ficando cada vez mais complexa, compara o autor.

À semelhança da personagem do biógrafo do romance 'Céruse', Tullio Forgiarini também é professor, no Lycée du Nord, em Wiltz, e até certo ponto essa personagem tem reflexos autobiográficos, reconhece. "Não posso escrever sobre algo que não experienciei, ou que pelo menos não tenha visto nas pessoas à minha volta. Eu absorvo tudo aquilo que vejo, oiço ou experiencio e depois há algo que sai", misturado com a fantasia da ficção. "Até certo ponto qualquer livro é biográfico, mesmo que esteja no extremo oposto", considera o escritor.

Todas as personagens deste romance estão de alguma forma a mentir. A partir de um certo ponto, na história, o leitor percebe que há qualquer coisa de estanho."

A crítica social e o humor negro estão presentes neste romance, tal como noutros livros seus, e o gosto pela literatura e pelos filmes noir é assumido plenamente pelo autor. Um género onde as histórias refletem a subversão das regras, onde "tudo pode correr mal e os crimes não serem resolvidos". "Às vezes [as histórias] são um pouco pessimistas, a personagem principal não é o herói, é mais o anti-herói, ou a justiça, quando é aplicada, nunca o é por muito tempo", ilustra o autor de 55 anos, para quem "tudo isso tem a ver a sociedade, com os problemas da sociedade, com aquilo que se passa de mal".

Filho de pai italiano e de mãe luxemburguesa, Tullio Forgiarini escreve em francês, luxemburguês, alemão e inglês e o seu trabalho bibliográfico não se limita aos romances, tendo assinado também guiões e peças de teatro. Se umas vezes a escolha da língua é intencional e selecionada previamente, noutras é o tema que dita qual deve seguir, como aconteceu com 'Amok. Eng Lëtzebuerger Liebeschronik', que ganhou o Prémio de Literatura da União Europeia, em 2013. "É uma história sobre jovens, e é também um pouco biográfica, sobre jovens que encontro na escola. Comecei-a em francês mas percebi imediatamente que não funcionava, não eram as palavras que eles usavam. Tinha de ser escrita em luxemburguês."

A relação de Tullio Forgiarini com esta geração não se esgota nas aulas de História que leciona. O escritor e professor está também envolvido em atividades e aulas de apoio para adolescentes e jovens de contextos sociais e psicológicos difíceis, que tentam prevenir o absentismo escolar, sobretudo em idades como os 13 e 14 anos. "De certa forma, tentamos, durante cinco ou seis meses ou mesmo um ano inteiro, mantê-los na escola e encontrar soluções para eles", resume. 

A pandemia e os confinamentos, com casos de violência juvenil a serem reportados em vários países europeus, incluindo no Luxemburgo, nos últimos meses, vieram agravar as diferenças entre adolescentes privilegiados e não-privilegiado e mostrar a importância social dos estabelecimentos de ensino. "Se um jovem tiver um quarto só para si, em casa, acesso a um computador, uma família que cuida dele consegue adaptar-se, mas se não tem condições em casa, pode ser um inferno e levar à desistência da escola", exemplifica, acrescentando que "mesmo não sendo perfeito, o sistema escolar tenta proteger estes adolescentes e muitos deles preferem ir para escola do que ficar em casa". "A escola não é perfeita mas sem ela é ainda pior. Isso é um facto."  

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