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Equívocos das origens do racismo
Opinião Cultura 5 min. 27.08.2021
Livro

Equívocos das origens do racismo

Grada Kilomba
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Equívocos das origens do racismo

Grada Kilomba
Foto: DR
Opinião Cultura 5 min. 27.08.2021
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Equívocos das origens do racismo

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Continuam a revelar-se inúmeras formas de discriminação racista, que permitiram a formação e o pleno desenvolvimento de uma melhor percepção dos modos de discriminação racial, que se encontram naturalizados no corpo, na linguagem, tal como no plano das subjectividades.

 A crítica é uma forma de dar dignidade a um objecto. Por isso, é difícil perceber por que razão livros de larga audiência como o de Grada Kilomba – Memórias da plantação: episódios de racismo quotidiano, trad. Nuno Quintas (Orfeu Negro, 2019; 1.ª ed. inglesa 2008) – não são alvo de uma crítica sistemática. O mais estranho é a crítica não existir no interior dos círculos que partilham com a autora o mesmo antirracismo e lutam por uma maior participação de sujeitos racializados, num espaço público que os continua a rejeitar. 

O argumento principal deste livro académico está contido no seu título: o racismo experimentado no dia-a-dia teve origem no colonialismo e nas formas de exploração do trabalho escravo desenvolvidas em torno da plantação. Porém, os tempos pós-coloniais, se continuam a revelar inúmeras formas de discriminação racista, permitiram a formação e o pleno desenvolvimento de uma melhor percepção dos modos de discriminação racial, que se encontram naturalizados no corpo, na linguagem, tal como no plano das subjectividades. Último elemento desta sequência: as mulheres racializadas em sociedades europeias, nomeadamente na Alemanha, onde este livro foi escrito como dissertação académica, carregam consigo as marcas de uma dupla discriminação, racista e de género. 

Nenhum dos elementos que compõem o argumento que atravessa este livro é original. À excepção de Freud, Frantz Fanon e Derrida (citado em inglês; tal como Lacan, que é citado em segunda mão, também por via de obra em inglês), a bibliografia em que este mesmo livro se baseia reporta, sobretudo, à década de 1990, que correspondeu à grande expansão das perspectivas pós-modernas e pós-coloniais nas ciências sociais e humanidades. Porém, a fixação numa dimensão considerada teórica equivale, neste livro, a um exercício escolar que costuma ser denominado, na gíria académica, como estado da questão. Um estado da arte que privilegia alguns livros e autores, que circulam pelos campos universitários anglo-americanos e alemães, transformados numa espécie de símbolos ou de instrumentos rituais de uma atitude progressista e emancipada, mas que padece de enormes lacunas. Dois exemplos: o camaronês Achille Mbembe nem sequer é referido; e a leitura de Gayatri Spivak exclui do seu horizonte as críticas de uma deriva pós-moderna e linguística que lhe foram feitas pelos seus colegas do grupo de Estudos Subalternos, tais como Sumit Sarkar, numa perspectiva marxista e gramsciana. 

Estou convencido de que, no livro em causa, a excessiva fixação na teoria e nos legados europeus do colonialismo, discriminatórios e racistas (em flagrante detrimento de uma prática analítica), se constitui em obstáculo para compreender e integrar todo o trabalho de recolha e análise que tem sido feito por várias gerações, no sentido de reconhecer a voz das sociedades e pessoas que passaram por situações de dominação. Um trabalho, com diferentes periodizações consoante os continentes, mas que, no caso africano, se desenvolveu em paralelo às lutas dos movimentos de libertação (muito antes da década de 1990). Um trabalho, aliás, que não encontra correspondente nas duas únicas entrevistas de cerca de três horas feitas pela autora – artista, académica e psicóloga, com interesses pela psicanálise e por exercícios interdisciplinares – a duas mulheres negras alemãs. Uma investigação que tem, sublinhe-se, na base cerca de seis horas de entrevistas. Um facto que, só por si, revela uma mais do que débil preparação para o trabalho de campo e que não encontra justificação em nenhuma reivindicação de que a autora recorre a uma qualquer perspectiva mágica, seja ela artística ou interdisciplinar. 

Em termos internacionais, desde as décadas de 1950-1960, o historiador de origem belga, mas fixado na Universidade do Wisconsin, Jan Vansina, em conjunto com os seus discípulos, desenvolveu todo um trabalho de pesquisa e de formação de uma equipa, que consistiu tanto em fazer reconhecer a voz dos africanos na construção da sua própria história, como em formar o que hoje se denomina de sujeitos racializados para investigarem e escreverem essa mesma história. Em Portugal, foi talvez Alfredo Margarido quem, apesar da falta de meios institucionais e da marginalidade a que foi votado, melhor representou esse mesmo papel, em domínios tão diversos e interdisciplinares quanto os da história, da antropologia, da literatura e das artes plásticas. 

Ora, nem Vansina, nem Margarido eram sujeitos racializados. Porém, ninguém pode duvidar do seu papel pioneiro em romper com as perspectivas dos donos do poder colonial e das plantações. Para isso, ambos souberam articular a compreensão do lugar de fala dos africanos colonizados, com a análise das estruturas do colonialismo. Esta simples constatação tem água no bico. Ela não visa só antecipar no tempo rupturas, do ponto de vista do conhecimento interdisciplinar, em relação às sociedades coloniais. Por um lado, trata-se de sugerir que nem a produção de conhecimento sobre as sociedades coloniais pode ser limitada aos autores que experimentaram as lógicas de dominação do colonialismo, enquanto sujeitos racializados ou seus descendentes. Por outro lado, nada pode impedir os que estão ou estiveram de fora dessas mesmas lógicas de produzir formas válidas de conhecimento rigoroso sobre as sociedades colonizadas e os seus respectivos legados. (continua)

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