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“Lighthouse”. O farol que nos guia
Cultura 3 min. 02.07.2020

“Lighthouse”. O farol que nos guia

“Lighthouse”. O farol que nos guia

Foto: “Lighthouse”
Cultura 3 min. 02.07.2020

“Lighthouse”. O farol que nos guia

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
A escolha visual contribui ainda para a impressão geral de que estamos na época retratada, por exemplo num filme alemão do tempo do expressionismo, ou a ver um Fritz Lang encontrado na semana passada num baú.

Deste filme lembro-me do prazer que foi sair da sala. A “vaca” do farol estava a enlouquecer-me. E eu não era o único. A linguagem corporal das pessoas que partilharam a estreia mundial comigo, na Quinzena dos Realizadores em Cannes, era evidente: o filme perturbava-as profundamente e todos chegámos ao final com um suspiro de alívio.

O que me ficou na memória foi o que se seguiu aos aplausos à equipa, com destaque para as estrelas Robert Pattinson e Willem Dafoe. De repente alguém disse: vens à festa? Em Cannes esta mágica pergunta só pode ter uma resposta: claro que sim!

E fui à festa; segui duas ou três pessoas que se dirigiam para uma das belas salas do hotel Marriott. Já no local percebi que se tratava de uma festa bastante restrita, com a equipa do filme e - sim - os atores. As amigas que me acompanhavam quase desmaiaram quando se aperceberam de que iam estar nos copos com Robert Pattinson, mas o que eu queria era conversar com Willem Dafoe sobre o filme que tinha acabado de ver, sobre ele, sobre mim, sobre Tarantino, sobre a sua cara de mau e sobre tantas outras coisas.

Acabei por descobrir que Pattinson também é um tipo interessante e inteligente e, sobretudo, nada vaidoso. A conversa com ambos foi o momento alto de Cannes 2019, mas as minhas amigas acabaram por açambarcar as duas estrelas com selfies sucessivos e brindes de champanhe.

Curiosamente, pouca gente falava do filme que todos tínhamos acabado de ver, incluindo Pattinson que reconheceu ter aterrado horas antes, chegado dos States, para ver pela primeira vez a obra que tinha rodado meses antes e que descreveu com “um desafio físico e psicológico”.

Para os atores, “The Lighthouse” obrigou a uma profunda imersão, mas para o público a experiência é quase idêntica. E quem disse que para isso é necessário um ecrã último grito, 3D ou efeitos especiais? Robert Eggers consegue afogar-nos no seu filme com um quase quadrado a preto e branco.

A escolha visual contribui ainda para a impressão geral de que estamos na época retratada, por exemplo num filme alemão do tempo do expressionismo, ou a ver um Fritz Lang encontrado na semana passada num baú.

Estamos numa ilha, fechados com dois homens. E nessa ilha há algo de maléfico, a não ser que o mal esteja em Thomas Wake (Willem Dafoe) responsável do farol que agora tem a companhia de um estagiário, o silencioso Ephraim Winslow (Robert Pattinson).

O filme é exagerado, claustrofóbico, mete medo, faz barulho e acompanha esses dois homens isolados num espaço que pouco a pouco os enlouquece e a nós também. Cada dia que passa é um martírio para os dois homens e para nós.

O homem mais velho aparentemente domina tudo o que acontece no farol e na pequena ilha. Tem histórias para contar e uma forma pouco simpática de tratar o estagiário. Willem Dafoe assume essa personagem, conformada mas irada e infame. Robert Pattinson tem um personagem mais difícil porque mais comedida, entre a timidez e o silêncio. E o ator consegue passar perfeitamente de maldade em vários graus a explosões emocionais.

Podia falar-se longamente de simbolismos: o farol, a ilha, a corrupção que a solidão e o medo provocam, mas o melhor é sentir isto tudo por si mesmo. Prepare-se para os horrores que se calhar não o são, prepare-se para o farol omnipresente pelo ruído e pela luz, e prepare-se para um dos melhores filmes que vai ver este ano.

The Lighthouse” de Robert Eggers, com Willem Dafoe, Robert Pattinson e Valeriia Karaman.

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