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"Liberdade": Mariza dedica concerto no Luxemburgo a vítimas de atentados em Paris

"Liberdade": Mariza dedica concerto no Luxemburgo a vítimas de atentados em Paris

Cultura 5 3 min. 15.11.2015

"Liberdade": Mariza dedica concerto no Luxemburgo a vítimas de atentados em Paris

Sábado, na Philharmonie, era palpável a emoção suscitada pelos atentados perpetrados um dia antes em Paris, tanto na sala como em palco. A comunhão com o público foi ainda mais forte.

Por Sónia da Silva - O concerto vai começar, as últimas cadeiras vazias são ocupadas e a sala não tarda a ficar cheia. Uma certa intranquilidade reina na atmosfera. À frente, no meio do palco, vê-se um ramo de cravos vermelhos, com uma folha de papel branco em que foram escritas sete letras em maiúsculas, evocando aquilo de que os bárbaros atacantes em Paris quiseram privar-nos: "LIBERTÉ".

Subir ao palco é uma prova para a fadista, uma forma de conseguir ultrapassar a impotência em que a triste notícia dos atentados em Paris a mergulhou, ela que actuou tantas vezes na mítica sala de concertos do Bataclan onde na sexta-feira morreram 89 pessoas, como recordaria durante o concerto.

Vestida de negro durante a primeira parte, Mariza acabaria por admitir mais tarde estar "triste", agradecendo os aplausos do público, "um bálsamo para o coração", e sublinhando o carácter universal da música, "capaz de unir as pessoas".

"Não foi só Paris que foi atacada, é um ataque à nossa liberdade. Esta noite, a música permitiu-me abstrair-me deste medo profundo que sinto pelo futuro dos nossos filhos", disse a fadista, que tem um filho nascido em 2011.

"VIVER, VIVER E SEM TI"

Actuar menos de 24 horas depois dos atentados que ocorreram em Paris e custaram a vida a mais de uma centena de pessoas é submeter-se a um exercício interpretativo infinitamente delicado. Como dar a conhecer as pérolas do seu "Mundo" musical, o título do seu novo álbum, quando o mundo está a ferro e fogo? Mariza, que admitiu que a tristeza lhe dificultava a respiração, conseguiu superar as difíceis circunstâncias deste concerto... em nome da liberdade.

A fadista abriu o concerto 'a cappella', interpretando o tema "Fadista louco" com uma potência vocal de arrepiar, voltando a repetir essa mesma alma e força de fraseado com "Fado Primavera".

Se o início e o final do concerto estiveram sob o signo da compaixão e da solidariedade, Mariza conseguiu mesmo assim partilhar um "Mundo" rico em influências musicais, expandindo um pouco mais o fado que defende com grande audácia.

Tal como o álbum "Terra" (2008), "Mundo", o novo disco de originais de Mariza produzido pelo mesmo espanhol, Javier Limón, é irrigado pelas raízes africanas da fadista e pelos impulsos inspirados nos seus novos encontros artísticos. Tango, flamenco, crioulo são convocados sem medo para criar uma música sem fronteiras ("Sem ti", "Saudade solta", "Adeus", "Missangas", "Melhor de mim", "Paixão", "Padoce do céu", "Alma"), fugindo ao fado tradicional de vertente clássica para embarcar em versões mais contemporâneas, nas quais a guitarra portuguesa fica surpreendentemente bem ancorada.

CASA (DES)ANIMADA

A cenografia do palco é sóbria: um pano de fundo monocromático variável sobre o qual oito reflectores produzem belos efeitos, simbolizando um 'naïf' cenário floral. Moldada num vestido vermelho aos folhos, cabelo platinado cortado rente, Mariza dança, esbelta e airosa, cantando o seu novo repertório de braços abertos, com uma delicada coreografia de mãos, como que para sublinhar o sentido da partilha.

Uma "Dona Rosa" afro-ibérica fiel a si mesma, que nessa noite soube conquistar, comover e divertir um público que entrou consternado e saiu com o coração mais leve. "Rosa branca" foi um momento muito divertido, durante o qual Mariza converteu a Philharmonie em verdadeira casa portuguesa, desafiando a ala da direita e da esquerda a cantar, num engraçadíssimo concurso digno de uma paródia de "The Voice".

No final, e após duas horas de concerto intenso, Mariza agradeceu aos espectadores com um "até já". "Espero ver-vos em breve, e se não for aqui no Luxemburgo, vamos ver se não é lá em casa", disse, premiando o público com os indispensáveis clássicos "Há uma música do povo" e "Ó gente da minha terra", descendo até meio da sala para um palpável momento de fraternidade.


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