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Ler Saramago em voz alta
Opinião Cultura 4 min. 18.11.2021
Literatura

Ler Saramago em voz alta

A Fundação José Saramago, na Casa dos Bicos, em Lisboa.
Literatura

Ler Saramago em voz alta

A Fundação José Saramago, na Casa dos Bicos, em Lisboa.
Foto: Inácio Rosa/Lusa
Opinião Cultura 4 min. 18.11.2021
Literatura

Ler Saramago em voz alta

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
No centenário do Nobel português, importa menos discutir a "dificuldade" da sua obra, do que lê-la e celebrá-la em voz alta, precisamente como José Saramago a sonhou.

Hesitei se deveria escrever sobre as espantosas declarações de patrões indignados sobre "falta de mão-de-obra", que pretendem "importar" trabalhadores (escravizados?), porque os salários são indigentes, acrescento eu. Mas decidi escrever sobre o centenário de José Saramago, cujas celebrações agora se iniciam até 16 de Novembro de 2022. Porque me parece que Saramago seria o primeiro a escolher falar sobre os abusos dos patrões, a mão-de-obra escravizada: sobre os invisíveis, os sem-voz, os "de baixo", os que nunca chegam aos livros de História (com maiúscula) apesar de a escreverem todos os dias.

Exceptuando a cobertura dos eventos "do dia" (a visita de António Costa à Azinhaga, terra onde nasceu o escritor há 99 anos), e o texto Lusa replicado em todo o lado, pouquíssimos media se dedicaram ao lançamento do centenário do Prémio Nobel português (o Público, o Jornal de Notícias e o jornal lisboeta A Mensagem tinham trabalhos interessantes).

Quando leio que Saramago é um "autor difícil", como dizem professores ao Público, pergunto-me de onde vêm as inúmeras resistências à sua obra, os clichés que sobre ela se reproduzem por pessoas que pouco a leram, apesar de, como disse o vice-presidente da Associação de Professores de Português, ela hoje ser absolutamente canónica.

O mito do "escritor difícil", aquele que "escreve sem pontuação" ou "parágrafos muito longos" é cada vez mais a desculpa para não se ler (em voz alta) um autor incómodo, que traz à luz uma galeria de condenados da terra típica do neo-realismo mas com uma voz coral mergulhada na oralidade que desafia o leitor culto, habituado à estilística e ao trabalho de linguagem artificiais; perturba as regras de uma certa gramática; ataca convenções da inscrição; incomoda os poderosos e a história dos vencedores para nela inscrever uma justiça até ali invisível, silenciosa, de resgate.

Como dizia José Saramago, "a literatura pode viver de forma conflituosa com a ideologia. O que não pode é viver fora da ideologia". Não admira por isso que ter sido comunista continue a incomodar tanto, mesmo depois da sua morte. Não admira que Lobo Antunes dele dissesse, com desdém, que era uma espécie de "escritor latino-americano". Não admira que Sousa Lara o tivesse vetado para o Prémio Literário Europeu. Não admira que Cavaco Silva não tenha ido ao seu funeral. Não admira que os comentários dos leitores sejam sobre uma obra que não leram.


José Saramago (1922-2010).
Comemorações do centenário de Saramago arrancam esta terça-feira. Nobel faria 99 anos
Ao longo do ano, várias iniciativas vão ser realizadas em diferentes países do mundo para evocar a obra e a vida do escritor português, único Nobel da Literatura em língua portuguesa.

Saramago sabia quem eram os seus mestres, dos quais ele era apenas o mero "aprendiz", como explicou no discurso do Nobel, em 1998, homenageando aqueles que trouxe consigo para a literatura e a quem serviu de porta-voz: "Escrevendo pela primeira vez sobre este meu avô Jerónimo e esta minha avó Josefa (...) tive consciência de que estava a transformar as pessoas comuns que eles haviam sido em personagens literárias e que essa era, provavelmente, a maneira de não os esquecer, desenhando e tornando a desenhar os seus rostos com o lápis sempre cambiante da recordação (...) como quem vai recriando, por cima do instável mapa da memória, a irrealidade sobrenatural do país em que decidiu passar a viver."

Não sei quem teve a excelente ideia de lançar o centenário do escritor com uma leitura simultânea em voz alta do conto "A maior flor do mundo", em 300 escolas do país, a que se juntaram escolas em Espanha e na América Latina. É a melhor maneira de se continuar a desafiar a ideia do "escritor difícil de ler" por causa da "pontuação", quando, dos jornais aos posts de facebook, pontuação é o parente pobre dos revisores. Porque Saramago não é difícil quando se lê em voz alta, respirando nas vírgulas e nos pontos, pausando antes de uma maiúscula que, sabemos, abrirá um discurso directo. Lendo-o precisamente como ele o ouviu e escreveu. Quando finalmente nos confrontamos com a voz do povo que se ouve a si mesmo no espelho da história.

(Autora escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.)

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