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La vie d'Adèle: Melhor que a meteorologia
Que amigos que eles eram em Cannes, mas o verniz estalou

La vie d'Adèle: Melhor que a meteorologia

Que amigos que eles eram em Cannes, mas o verniz estalou
Cultura 4 min. 16.10.2013

La vie d'Adèle: Melhor que a meteorologia

O festival de Cannes reuniu, em 2013, uma excelente lista de filmes. Foi um prazer partilhar tantas boas obras naqueles dias mágicos que, às vezes, o maior festival de cinema do mundo proporciona.

Uma tal variedade podia e deveria contribuir para o "suspense" da competição. Contudo, o festival mais visitado do mundo pela imprensa internacional é também um dos mais saloios e previsíveis.

"La vie d'Adèle" é um dos filmes que se integram na categoria "pescada". (Lembra-se da adivinha que partilhava com os outros colegas de escola: Qual é o peixe que antes de o ser já o era? Pois, é a pescada). Antes do festival terminar já se adivinhava uma grande distinção para o filme de Abdellatif Kechiche. Mais fácil do que adivinhar o tempo que ia fazer na Croisette.

"La vie d'Adèle" não recebeu só a Palma de Ouro como abarbatou o prémio para a melhor interpretação feminina, com um prémio "ex aequo" para as protagonistas Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux.Resumir o palmado de 2013 como um filme de quase três horas de duração com sexo explícito entre duas lésbicas é muito redutor, mas esta mesma descrição serviu para promover "La vie d'Adèle" junto dos "festival goers".

Afinal os jornalistas e outros profissionais do cinema são como a toda a gente e não resistem a um filmezinho mais chocante e que anuncia escândalo.A bandeira homossexual leva público ao cinema, mas Abdellatif Kechiche diz que não; que não queria marcar uma posição sobre a homossexualidade, mas que "La vie d'Adèle" aproveitou o "hype" à volta do assunto é indubitável.

O enredo resume-se facilmente. Uma jovem de 17 anos conhece uma artista um pouco mais velha e ambas vão viver um romance muito quente. Até aqui nada de novo. A história podia servir igualmente para fazer um filme pornográfico. Foi o que o realizador conseguiu: misturou géneros, inclui sexo, gemidos e duas belas actrizes, Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux.

O filme baseia-se na banda desenhada de Julie Maroh, "Le bleu est une couleur chaude". Um drama que explorou o despertar sexual de Adèle (Adèle Exarchopoulos), a personagem principal, entre os 16 e os 20 anos. A Adèle jovem até gosta de rapazes e tem mesmo um fraquinho por um colega de escola. Contudo, o encontro com Emma (Léa Seydoux) rapidamente transforma a vida de ambas.

A história de Adèle e Emma pode facilmente transpor-se para um relacionamento heterossexual. A força do filme de Kechiche é o realismo. As excelentes interpretações das protagonistas e o detalhe com que temos direito às emoções e à sua evolução permite praticamente viver com elas o seu romance.

Muitos críticos acusaram o filme de apostar demasiado nas cenas eróticas e de sexo explícito, o que acabaria por "distrair" o espectador da importância do relacionamento das duas mulheres. Em defesa de Kechiche pode dizer-se que é importante perceber que Adèle descobre uma relação mas também o sexo em novas e muitas dimensões.

Polémico? Sim, "La vie d'Adèle" é longo e propõe durante uma boa parte da película imagens que não se vêm todos os dias num ecrã sério de cinema. Interessante? Certamente, porque é um belo filme e bastante profundo.

A Palma de Ouro para "La vie d'Adèle" é um certificado que permite ao filme fazer uma carreira interessante e ser projectado, inclusivamente, nos Estados Unidos. As duas actrizes receberam também uma Palma que partilharam entre elas e com o realizador. Tudo parecia ir bem no melhor dos mundos até que as actrizes começaram a contar publicamente o lado negro da rodagem. Kechiche seria violento verbalmente, obrigando-as a repetir cenas, a implicarem-se sem limites.

O realizador terá forçado as actrizes a agredirem-se a sério quando tinha de protagonizar cenas de violência. Kechiche não se calou. Disse que elas eram vaidosas e meninas-bem. A polémica destas revelações tornou-se em mais um elemento de marketing. E "La vie d'Adèle" vai ter ainda mais espectadores e ainda mais distraídos porque, além do sexo, vão estar a perguntar-se se aquela bofetada terá sido de verdade ou apenas encenada.

"La vie d'Adèle", de Abdellatif Kechiche, com Adèle Exarchopoulos, Léa Seydoux, Jérémie Laheurte, Catherine Salée e Aurélien Recoing.

Raúl Reis