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La Cage Dorée: Passarinho na gaiola
Como toda a gente sabe, os portugueses fazem barulho e bebem "superboques"

La Cage Dorée: Passarinho na gaiola

Como toda a gente sabe, os portugueses fazem barulho e bebem "superboques"
Cultura 4 min. 10.09.2013

La Cage Dorée: Passarinho na gaiola

"La cage dorée" de Ruben Alves, com Joaquim de Almeida, Rita Blanco, Barbara Cabrita, Chantal Lauby, Maria Vieira, Jacqueline Corado e Roland Giraud.

Como toda a gente sabe, os portugueses fazem barulho e bebem "superboques"A família Ribeiro é uma família emigrada típica.

Vivem em Paris onde têm os seus hábitos e as suas relações; são trabalhadores e – como se diz nos países francófonos – estão perfeitamente integrados.

José (Joaquim de Almeida) trabalha nas obras (como todos os portugueses, não é verdade?) e é o braço direito do seu patrão (como todos os portugas, como sabemos).

A mulher do senhor José Ribeiro, chama-se Maria (Rita Blanco), como todas as portuguesas, aliás. Além disso, Maria é porteira, como uma enorme maioria, para não dizer todas, as portuguesas a trabalhar em Paris.

O casal tem obviamente filhos que estão totalmente integrados (como, recordo, se deve dizer) até porque têm relações com franceses.

Esta vida idílica de trabalho é perturbada quando o senhor Ribeiro recebe uma carta que lhe anuncia a morte do irmão que tem uma quinta no Douro, uma exploração que permitirá à família inteira de viver confortavelmente em Portugal.

Como qualquer português, os Ribeiro decidem guardar a notícia para eles para evitar invejas desnecessárias. Mas como é natural entre portugueses, e não só, o segredo vai ser conhecido mais rapidamente do que o estimado leitor possa dizer "herança".

Ruben Alves é filho de portugueses que emigraram para França. Trata-se de um desses portugueses como todos os outros, só que este faz cinema. Como dizem os críticos franceses desde que saiu "La cage dorée", "a minoria portuguesa em França não tem voz cultural na vida da pátria que adoptaram".

Mais um cliché, como todos os anteriores que fui apontando sobre os portugueses de França e da emigração.Apesar de a realidade dos portugueses estar longe destes lugares comuns, sobretudo em França onde já há uma terceira geração de portugueses, Ruben Alves opta, juntamente com os seus argumentistas, por uma abordagem "bacalhau, fado, bigodes".

Esta utilização de todos os clichés sobre os portugueses de França (e não só) é uma faca de dois gumes. É claro que ajuda a criar um humor fácil – inclusivamente para um público português – mas acaba por ancorar estas ideias feitas na mente de todos aqueles que vejam "La cage dorée".

E, infelizmente, esta obra será uma das referências sobre os lusitanos de Paris por ser um dos raros filmes sobre eles.A ignorância dos cinéfilos franceses – e mesmo dos críticos – sobre o cinema português é preocupante.

A maioria das recensões escritas em França sobre "La cage dorée" evitam toda análise e acabam por comparar o filme de Alves à comédia "à italiana" ou a "Bienvenue chez les Chti's".

Na verdade, "La cage dorée" é uma comédia "on ne peut plus" francesa. O realizador e os argumentistas optaram por soluções típicas do género cómico que vence nos ecrãs portugueses, baixando o nível para tornar o filme o mais simples possível, transformando-o num telefilme que vai fazer carreira nas televisões regularmente.

O tom satírico que, na verdade, nunca é corrosivo demais com as suas personagens, cria uma sátira social que mantém o espectador divertido, sem destruir a dignidade dos nossos compatriotas ou das outras personagens.

A família portuguesa beneficia de um capital de simpatia enorme mas a abordagem cai demasiado na humildade exagerada e em mais um cliché: "trop bons, trop cons".

O "buzz" à volta do filme tem sido imenso, graças à comunidade portuguesa de França mas também pelo efeito de novidade que provoca uma película sobre os portugueses.

Ruben Alves assina um filme divertido onde a narrativa é pouco desenvolvida e em que não há efeitos de surpresa. O realizador assume os clichés: "A minha mãe é porteira e o meu pai pedreiro, eu mesmo sou um cliché", disse em várias entrevistas.

No filme, o lusodescendente diz que pretendeu transmitir aos franceses uma imagem humana e sensível dos emigrantes portugueses e, nesse aspecto, consegue fazê-lo com, por vezes, uma bem imaginada ironia.

Mas a imagem, muito assente em França e em toda a Europa, do português bondoso, subserviente e inculto e de um Portugal país de porteiros e pedreiros poderá sair também reforçada.

"La cage dorée" de Ruben Alves, com Joaquim de Almeida, Rita Blanco, Barbara Cabrita, Chantal Lauby, Maria Vieira, Jacqueline Corado e Roland Giraud.

Raúl Reis

Publicado no CONTACTO em 02.05.2013