Lázaro Ramos, o ator que quis morar numa favela

"A arte e o amor transformam"

Lázaro Ramos é o protagonista do filme "Tudo o que aprendemos juntos", que encerra o Festival de Cinema Brasileiro, no sábado. Inspirado num caso verídico passado numa favela de São Paulo, o filme conta a história da criação da Orquestra Sinfónica de Héliopolis e o poder redentor da arte. No filme, Lázaro Ramos é o professor de música que chega à favela contrariado mas acaba por revolucionar a vida dos jovens problemáticos. Ao Contacto, o ator brasileiro contou como foi a experiência de filmar numa favela.

Foto: Jorge Bispo

Filmada em 2012, a longa-metragem, que está a ser um sucesso no Brasil e no estrangeiro, conta a história da formação da Orquestra Sinfónica de Heliópolis, atualmente uma favela pacificada.

Laerte (Lázaro Ramos) é um jovem músico com uma carreira promissora, mas uma falha numa audição faz com que não consiga uma vaga numa das maiores orquestras da América Latina. Revoltado e a precisar de emprego, vai dar aulas de música para a favela, onde encontra uma realidade violenta bem diferente daquela a que estava habituado. Mas é ali que o professor redescobre a música e a dá a conhecer, tornando-se numa inspiração para os jovens moradores, como Samuel.

Esta poderia ser apenas a sinopse de mais um filme, mas a longa-metragem foi filmada na mesma favela em que a história verídica aconteceu, em plena Heliópolis. Os jovens alunos de Laerte vieram de programas de reabilitação e são hoje exemplos a seguir.

No âmbito do Festival de Cinema Brasileiro, o Contacto entrevistou Lázaro Ramos, o protagonista de "Tudo o que aprendemos juntos", o filme que encerra o certame a 26 de novembro, no cinema Starlight, em Dudelange.

Os atores que interpretam dois alunos do projeto social de Heliópolis vão estar no Luxemburgo no âmbito do Festival de Cinema Brasileiro
Os atores que interpretam dois alunos do projeto social de Heliópolis vão estar no Luxemburgo no âmbito do Festival de Cinema Brasileiro
Foto: Beatriz Lefevre


Contacto: "Tudo o que aprendemos juntos" é um filme baseado em histórias verídicas, passadas numa favela, em São Paulo. Sei que pediu para interpretar o Laerte, a personagem do professor que dá a conhecer novas formas de expressão aos alunos problemáticos. Porque razão fez tanta questão de interpretar esse papel?

Lázaro Ramos: É um filme baseado numa história real, que conheço pessoalmente e que me emociona muito. É a relação de um professor severo com seus alunos. O Sergio Machado (o realizador) chamou-me para fazer o melhor amigo do Laerte. Li o roteiro e identifiquei-me com o Laerte: tudo que ele dizia se identificava comigo e com um mestre que tive na infância, que me deu toda uma formação artística. Por já termos trabalhado juntos, em "Madame Satã", um dos filmes mais importantes da minha vida, e também em "Cidade Baixa", e termos sido imensamente felizes, era um desejo mútuo voltarmos a trabalhar juntos.  E por trabalhar  com uma história destas, que mostra a importância da arte na vida de uma pessoa.

E quem é o Laerte?

A personagem tem esse viés de função educativa, de transformação da vida das pessoas. Mas ao mesmo tempo, como eu gosto de contar, o Laerte é uma pessoa que reeduca o seu olhar para a realidade. Ele entra numa favela sem a menor vontade de estar ali porque ele tem outros planos para a sua vida. Ele vai convivendo e vai encontrando a beleza e o talento, naquele lugar cheio de precariedades. Para mim esse olhar do personagem que se reeduca é o lado de que mais gosto dele.

Houve uma troca, eu ofereci conhecimento e aprendi muita coisa com eles.

O filme aborda a realidade das favelas e filmaram dentro dessa mesma favela. Como foi essa experiência?

Foi um trabalho muito intenso com os atores, muitos deles moradores das favelas também. Foi uma experiência muito enriquecedora. Mas conseguimos, mesmo não tendo muitos atores experientes. Houve uma troca: eu ofereci conhecimento e aprendi muita coisa com eles. Isso percebe-se na tela, que todos se enriqueceram mutuamente.

Lázaro Ramos é um dos atores brasileiros mais reconhecidos da televisão e do cinema
Lázaro Ramos é um dos atores brasileiros mais reconhecidos da televisão e do cinema
Foto: Jorge Bispo

E dividir cenas com jovens que são dessa realidade?

Jovens talentosíssimos que espero que o mercado de trabalho incorpore. Passámos por um grande período de ensaio e compreendemos num dado momento que para o filme dar certo,  não podíamos apenas obedecer às palavras do roteiro. Há uma intensidade genuína e uma relação muito sincera entre nós.

Enquanto artista profissional, esses programas são uma forma de captação de talentos?

Acho que sim, é uma forma de captar talentos, com certeza. Gosto muito de pensar que a arte é para todos. 

Qual a mensagem do filme?

Que a arte é fundamental e transforma. O amor transforma.

Por último, o filme faz parte do programa do Festival do Filme Brasileiro. Como está o panorama da sétima arte no Brasil?

Eu acho muito importante estes festivais, porque dão a oportunidade de mostrar filmes que às vezes não são tão exibidos no circuito tradicional. O "Tudo que aprendemos juntos" fez uma carreira diferente, está em cartaz em 18 países nesse momento, com boa bilheteria, inclusive. Mas isso é uma coisa rara. Há uma quantidade grande de cineastas e de pessoas que precisam ser vistos.

Vanessa Castanheira

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