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Kingsman: The Golden Circle: James Bond tomou ecstasy
Um filme de agentes secretos sem um Jaguar não é natural.

Kingsman: The Golden Circle: James Bond tomou ecstasy

Um filme de agentes secretos sem um Jaguar não é natural.
Cultura 3 min. 04.10.2017

Kingsman: The Golden Circle: James Bond tomou ecstasy

Ando há dias a matutar nisto. Como é que eu posso gostar de “Kingsman: The Golden Circle”? Pior. Recordo-me de que já tinha gostado do primeiro.

Ando há dias a matutar nisto. Como é que eu posso gostar de “Kingsman: The Golden Circle”? Pior. Recordo-me de que já tinha gostado do primeiro.

Como é que alguém pode gostar de um derivado de James Bond de classe Z? Como é que alguém pode apreciar dois filmes em que a piada central e que liga o dois episódios é sobre sexo anal? E como é possível alguém engolir as improváveis cenas de ação ou as perseguições automóveis que cheiram a efeitos especiais por todo o lado? Sinceramente não sei; é preciso muita pachorra e extrema boa vontade, certamente.

Eu não costumo ter nem uma nem outra, mas a série dos dois filmes “Kingsman” fascina-me. O universo extremamente “british” de James Bond está todo lá, mas em versão exagerada, estilizada, excedida, extremada, excêntrica... e belíssima de se ver. Colocar na montra da loja Kingsman em Saville Row um casaco de veludo laranja tem pinta. E, no fundo, no fundo, aquilo é tudo muito inglês. Colocar os atores a beber uísque em todas as reuniões tem estilo, é muito “Mad Men”, e fica bem no filme.

Os guarda-chuvas pára-balas fazem parte de uma indumentária chique que só destoa porque os relógios dos heróis são eletrónicos. Adoro os sapatos, tão clássicos, tão clássicos, que até têm uma faca embutida. Os óculos “à Tom Ford” quase transformam a cara de cromo “cockney” de Eggsy (Taron Egerton) na de um cavalheiro. E os cowboys do Kentucky nunca foram tão excessivos e extraordinários como neste filme. Nem os meios dos agentes secretos foram alguma vez tão impressionantes.

Enquanto a saga James Bond envereda pelos caminhos da depressão e da limitação de meios dos agentes, em “Kingsman: The Golden Circle” os aviões privados e os jatos de combate são o meio de locomoção preferido dos homens de Kingsman e de Statesman. E depois tudo anda tão depressa que se piscarmos os olhos perdemos metade da ação. Tudo é um abuso de velocidade e de barulho, e de música. Tão bom! Os ouvidos podem doer, mas se estivéssemos lá, no meio das explosões, era muito pior.

Exagero, exagero, exagero é a receita de Matthew Vaughn para levar os espetadores de uma cena para a outra, como se estivéssemos numa mistura de “Fast and Furious” com “Austin Powers”. “Kingsman: The Golden Circle” acrescentou a ação à saga de Mike Myers e não poupou nos meios.

Nada é real nem realista, mas o que é que isso importa? “Kingsman: The Golden Circle” é puro entretenimento, ação e adrenalina. Mas é também cor, extravagância e humor. Para apreciar todas as nuances deste filme insano é necessário ter apreciado antes os melhores momentos de James Bond e similares. Os criadores desta saga cinematográfica, com raízes na banda desenhada, divertiram-se imenso e, provavelmente, foram acrescentando ideias e loucuras à medida que as rodagens avançavam.

E se estes argumentos não lhe chegam para ir a correr para o cinema, recordo que tem a oportunidade de ver, outra vez juntos, tal como em “The Big Lebowski”, a enorme Julianne Moore e o inigualável Jeff Bridges. Ah, e quase que me esquecia de Elton John, que desempenha o seu próprio papel, com direito a cenas de artes marciais e tudo. Um doce!

“Kingsman: The Golden Circle”, de Matthew Vaughn, com Colin Firth, Julianne Moore, Taron Egerton, Mark Strong, Halle Berry, Elton John, Channing Tatum e Jeff Bridges.

Raúl Reis

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