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José Filipe Costa. "O passado é algo que está sempre a ser reescrito"
Cultura 13 min. 31.05.2021

José Filipe Costa. "O passado é algo que está sempre a ser reescrito"

José Filipe Costa. "O passado é algo que está sempre a ser reescrito"

Cultura 13 min. 31.05.2021

José Filipe Costa. "O passado é algo que está sempre a ser reescrito"

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Quando a revolução portuguesa se junta com a vinda de estrangeiros para as terras ocupadas pelos trabalhadores, a vida muda para além da propriedade dos meios de produção, e dá-se uma revolução sexual. Esta é a matéria do filme “Prazer, camaradas”.

José Filipe Costa regressa à região das quintas ocupadas do Ribatejo e à revolução. Se em “Linha Vermelha” era a memória das ocupações, entre iconografia e história, que estava em análise, em “Prazer, camaradas” é o impacto da revolução e da vinda de estrangeiros - para ajudar a reforma agrária – na sexualidade que é alvo de atenção. O novo filme é um objecto estranho: é real como um documentário, os seus actores foram protagonistas do sucedido, mas ao mesmo tempo é uma ficção quase cómica dos costumes e da sua mudança. O Contacto falou com o realizador José Filipe Costa sobre as suas duas idas a essas terras, e a essas histórias

Tanto o “Linha Vermelha” como o “Prazer, Camaradas” decorrem no mesmo espaço, e com personagens comuns, e ambas revelam intervenções exteriores durante um processo revolucionário da ocupação de terras: no primeiro, mostra-se o efeito que a câmara têm no decorrer dos acontecimentos na Torre Bela. No outro, apresentam-se as mudanças a nível de sexualidade que a vinda de estrangeiros para as cooperativas provoca.

Este é o elemento conflitual tanto num filme como no outro. A ideia, no “Prazer, Camaradas”, veio dos relatos que os estrangeiros fizeram das ligações deles com os locais, com as pessoas que faziam parte das cooperativas. As reações andavam entre o encanto pela revolução e a decepção pela manutenção de alguns aspectos do passado. Continuava, por exemplo, a existir a figura do macho latino. Por exemplo, a Helga Novak, que é uma alemã que esteve na Torre Bela, fala muito disso.

Esses testemunhos são escritos na altura ou agora?

Alguns na altura e outros agora. O livro da Helga Novak em que ela fala da brancura que tanto a cega, por ter de lavar a roupa toda e toda ela ser branca, é da altura. Os jovens, vindos dos países mais desenvolvidos da Europa, não estavam habituados a esse tipo de trabalhos. Há também, da altura, um diário de uma alemã médica, cujos excertos aparecem no filme. Mas também existem histórias que me foram contadas hoje.

Não pode haver uma espécie de contágio da forma como hoje os personagens vêem a vida, em relação à forma como a viam na altura? Por exemplo, o feminismo nos anos 70 estava muito focado em questões de poder, mas também do direito ao prazer e liberdade sexual das mulheres. O feminismo actual põe questões como as levantadas pelo  #MeToo, ou seja, o assédio sexual  e a denúncia da dominação masculina. 

Eu jogo com essa dupla memória e têm interesse as suas contra fições. Mas era já notória uma dimensão deste tipo de problemas, não apenas sexuais como afectivos. Na altura, a forma como se viviam as questões afectivas em Portugal era estranha. Há até um subcapítulo do livro de Francis Pisani sobre a Torre Bela que se chama ´miséria afectiva´. Ele queria mostrar que a miséria não era só dada pela falta de recursos económicos, mas também pela falta de recursos internos e da vida. Fala muito sobre os solteirões. No filme, a cena da roda com os pernetas, e os afectados pela Guerra Colonial é retirada desse capítulo do livro. Essas pessoas eram postas de lado até na praça da jorna, e acabavam por nunca se casar. 

O dispositivo que escolheu foi utilizar as pessoas que viveram a realidade a fazerem de si próprios enquanto jovens. Tem vantagens e desvantagens. Há uma certa estranheza e efeito de comicidade imediato. Isso não pode desviar-nos do que ali é relatado em troca desse efeito de comédia? 

Não tinha orçamento para colocar actores a fazer aquilo. Nem queria, porque os actores iriam soar muito falsos. Seria uma reconstituição e eu não queria isso. Pretendia fazer uma dramatização. Eles com as suas memórias, confrontados com as provocações que eu fazia, irem, eles próprios, reinventando as suas memórias. Tinha interesse nesse lado passado e na sua relação com o presente. Não acredito que seja possível ter uma imagem fiel do passado. Não se pode ter uma imagem tal e qual do que aconteceu, porque o passado é algo que está sempre a ser reescrito. As pessoas iriam inevitavelmente no exercício do filme colocar a marca de hoje, e isso também me interessava.  

No “Prazer, camaradas” abordo o problema de saber até que ponto era possível fazer uma reforma ou revolução sexual dos costumes. Até que ponto é que isso seria possível? E foi, de alguma maneira. As pessoas naqueles contextos fizeram pequenas revoluções. Houve ligações, lembro-me que homens portugueses se casaram com estrangeiras. O que nunca aconteceu foi portuguesas casarem com estrangeiros, o que é também significativo.

E houve aquela reação das mulheres locais em relação às estrangeiras, como apareceu em relação às brasileiras em Bragança?

 Chegou a haver numa história que me contaram na Torre Bela. Não assinalei em que sítio se passava cada uma das histórias e coloquei-as nas respectivas cooperativas, para destruir a ideia que tudo se passava na herdade da Torre Bela. Houve, em vários sítios, histórias muito interessantes, como no caso da Comuna de Aveiras, em que se fez um grande esforço para que as mulheres fossem às reuniões e começassem a falar.  Há um episódio do filme em que uma delas se queixa das outras mulheres, dizendo: “vocês estão aqui, mas não falam nada”.  

Quis destruir um pouco a ideia que era na Torre Bela que acontecia tudo. As coisas aconteceram na Torre Bela, em Aveiras de Cima, etc....

Mas não pode haver algumas diferenças políticas e geográficas? A zona situa-se no Ribatejo, e as cooperativas de que fala têm maior influência da extrema-esquerda do que as alentejanas em que o papel do PCP era maior? Isso não pode implicar diferenças do ponto de vista das mudanças de comportamento sexual e moral? 

Provavelmente, sim. Mas não consigo fazer ligações partidário-sexuais. Havia muita gente do PCP, também.

Aliás, no “Linha Vermelha”, coloca um cartaz da CDU, em que o candidato era um dos elementos da cooperativa da Torre Bela. 

 Sim, um dos elementos vai fazer parte da lista da CDU. As proveniências partidárias são diversas à esquerda, mas eu acho que aquelas ocupações ali eram, regra geral, mais ligadas à esquerda desalinhada. 

As revoluções têm obrigatoriamente explosões e mudanças a nível sexual? Há um célebre texto de Hobsbawm em que ele diz que infelizmente os revolucionários são normalmente ascéticos, e que as ditaduras até podem ser favoráveis ao sexo, porque isso permite às pessoas estarem ocupadas de uma forma relativamente barata. O sexo seria uma espécie de ópera dos pobres. Em Portugal houve de facto uma libertação sexual com a revolução?

Naquela época era impossível isso não acontecer. A chegada dos estrangeiros vinha fazer faísca, atritos, mas também encontros e novas cumplicidades. Não vinha só criar choques. São esses elementos que são os motores da diferenciação e da mudança. Elas tinha de vir de algum lado. As cooperativas nem sempre foram muito bem sucedidas, não se espalharam por todo o lado. Mas quando se fala com as pessoas que estiveram nas cooperativas e as que não estiveram nota-se uma diferença. No início, quando fui fazer estes filmes até pensei que essas pessoas tinham actualmente uma situação social e económica diferente. Mas não. Quando falei com elas para a “Linha Vermelha”, pensei inicialmente que quem participou nas cooperativas devia ser gente que estava muito arrumada na vida. Verifiquei que não era assim.

Há uma cena no filme em que algumas estrangeiras confessam não conseguir aguentar muito mais tempo em Portugal. Era um choque muito grande para quem vinha de fora? Mas apesar disto, também mudou a vida dessas pessoas?

Bastante. Há uma nostalgia, não sei se é a palavra mais correcta, muito forte. Saudades também, porque na altura eram jovens. Vinham de contextos muito diferentes destas aldeias. Faziam amizades com as pessoas dali. A médica, que no filme dá aquela lição de como fazer ligaduras, e que mede a tensão, revela, num diário, a complexidade da coisa. Pode parecer que estavam muito perto, mas também muito longe, porque vinham de uma realidade completamente diferente. Às vezes não percebia muito bem porque estava ali e se as pessoas beneficiavam ou não com a presença dela. No diário, escrito na altura, interroga-se sobre isso e sobre as incompreensões que sucediam. 

Qual as razões que o levaram a voltar àquela época e território do “Linha Vermelha”?

Porque li escritos daquele casal alfabetizador em que falavam sobre a questão dos abortos e sobre a realidade do ponto de vista sexual nos sítios onde estiveram. No caso do “Linha Vermelha” foi porque vi o filme da “Torre Bela”, que achei muito interessante. Interpela uma série de coisas: o que é o cinema? O que é a verdade? No caso do “Prazer, camaradas”, o que me levou ao filme foi este conjunto de testemunhos sobre o aborto e sobre a vida sexual, escritos por pessoas que vieram do estrangeiro ajudar na ocupação de terras. Pensei que queria fazer alguma coisa sobre isso, contando através de um filme de uma outra maneira. Eu até tinha querido fazer isso em teatro, mas não é o meu meio e não se concretizou, e por isso filmei.

Voltando ao “Linha Vermelha”, que aborda “A Torre Bela”. Um filme não é verdade, mas também não é mentira?

Não é nada mentira. Para mim o “Torre Bela” é um documento importantíssimo. Eu tento não usar a palavra encenação no “Linha Vermelha”, por que é dúbio, dá ideia que eles foram directamente encenados. E aquilo que vemos não são encenações, são induções do próprio realizador, Thomas Harlan, a participar nos acontecimentos. Ele achava que era importante participar. Era o próprio que dizia que era importante ocupar a casa e não se coibia de o dizer. 

Mas a forma como vemos hoje essa cena da ocupação não é muito diferente da leitura que tinha nos tempos da revolução?  

Na altura foi também muito polémica. Houve alguns cineastas portugueses que se manifestaram contra. Achavam que aquela cena não revelava o que verdadeiramente se tinha passado na revolução. Thomas Harlan disse-me que, por causa disso, o Instituto Português de Cinema não quis dar nacionalidade portuguesa ao filme. Depois tentei confirmar isso junto de vários ex-presidentes, mas nunca consegui nenhuma confirmação, nem nenhum documento em que isso estivesse escrito. Mas o Harlan queixava-se disso. 

Na equipa de filmagem houve várias opiniões sobre se a cena devia ser filmada ou exibida. 

O produtor, que era do PCP, não queria que fosse filmada. Por isso naquele dia não participou nas filmagens, por que acreditava se lá fosse não iria cumprir a vontade do Thomas Harlan. Enquanto no caso do montador, nem sempre concordou com a montagem do filme. Este teve várias versões. Segundo o montador, a versão do filme mais longa era a  mais fiel à complexidade do assunto, daria a dimensão do conflito, mas a cena da ocupação da casa não seria tão importante no filme. Essa primeira versão tinha quatro horas. Mas como o Harlan foi seleccionado para o festival de Cannes, e disseram-lhe que se o filme fosse mais curto poderia ser projectado numa sala melhor e num horário melhor, ele quis cortar. Esse montador saiu, e ele teve que recorrer a outro para editar o filme para a duração pretendida. 

Foi uma pena o conjunto das filmagens em bruto ter acabado por se queimar num incêndio. 

Sim, até porque ele filmou muitas coisas em Portugal e não foi só a ocupação da herdade da Torre Bela. Fez, por exemplo, uma entrevista ao Arcebispo de Braga. Filmou, também, as cerimónias da proclamação da independência de Moçambique.  

Há muitos filmes sobre o processo revolucionário e as ocupações?

Há alguns. Por exemplo, as imagens dos personagens novos no final do “Prazer, Camaradas” são de um filme que ainda está inédito e que só recentemente foi depositado no ANIM. Só feitos por alemães sobre ocupações naquela zona há quatro filmes. Dava para fazer uma mini mostra só sobre as ocupações na região. 

E qual foi a herança desses tempos?

Eu gostava de dizer que mudou muito com o que lá aconteceu. Mas quando andava em busca de actores, e falei com mais pessoas da região, estive com muitas pessoas que não tinham participado directamente nas ocupações. Apercebi-me que aquilo tinha tido sobretudo influência sobre as pessoas que tinham participado. Até porque havia muitas pessoas que estavam emigradas, muitas delas em França. Em Manique do Intendente verifica-se isso. 

As pessoas da região já viram o “Prazer, Camaradas”? Qual foi a reação delas, gostaram?

Acho que se sentiram bem, por que me continuaram a cumprimentar… e algumas já vieram ver o filme mais do que uma vez. E depois eu tive mais pruridos do que eles quando estava a filmar. Naquela cena em que elas e eles se sentam no selim da bicicleta, enquanto é lido um texto de William Reich sobre a abertura do ânus e o movimento pélvico, tinha que lhes dizer porque estava a filmar aquilo e explicar o conteúdo do texto que estava a ser lido com as imagens. Mostrei-lhes o texto e eles não se importaram nada, e continuaram a cena.

Com a vinda dos estrangeiros, as mulheres começaram a pressionar os homens para lavarem a loiça e para participarem nas tarefas domésticas, como conta no filme? 

É baseado no testemunho das mulheres que diziam que finalmente eles já levantavam o prato. Eu criei essa cena. Há outras, como a das botas sujas, que correspondem a uma passagem de Francis Pisani. Fui fazendo uma mescla de elementos reais com algumas liberdades ficionais. Fui combinando as coisas. Mas as pessoas da terra quando viram perceberam muito bem a que me referia. Depois há também a história daquelas duas estrangeiras que viviam juntas e que, por isso, as mulheres da terra aceitavam que ficassem na cooperativa ao fim de semana, ao contrário das outras que pretendiam que elas fossem embora. Foi uma alemã que me contou isso num debate, na Alemanha, sobre o “Linha Vermelha”.    

E os participantes gostaram? Sentiram-se devidamente representados no filme? É que há passagens muito íntimas e duras, quando, por exemplo, uma mulher confessa ter abandonado o marido porque ele era bruto, dizendo que no corpo dela manda ela.

É tudo verdadeiro naquele diálogo entre as mulheres sobre sexo, quando estão a lavar a roupa. Quem proferiu isso, disse-o para que ficasse registado e tinha toda a consciência do facto. Tenho sempre a preocupação que percebam que aquela conversa vai ficar registada, e vai ter consequência para além daquela filmagem. Nem sempre é fácil. Até agora nunca tive nenhum reparo.

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