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João Penalva. “Ser estrangeiro é quase fundamental para ser artista”
Cultura 5 min. 15.03.2018 Do nosso arquivo online

João Penalva. “Ser estrangeiro é quase fundamental para ser artista”

Jãao Penalva.

João Penalva. “Ser estrangeiro é quase fundamental para ser artista”

Jãao Penalva.
Foto: Lex Kleren
Cultura 5 min. 15.03.2018 Do nosso arquivo online

João Penalva. “Ser estrangeiro é quase fundamental para ser artista”

Paulo Pereira
Paulo Pereira
A sua obra tem sido exposta um pouco por todo o mundo e esteve em várias Bienais (São Paulo, Veneza, Berlim e Sydney). Radicado em Londres há mais de quatro décadas, João Penalva recorda os tempos de bailarino, como foi trabalhar com Pina Bausch e Gerhard Bohner, mas também a transição para as artes visuais. Aos 69 anos tem a primeira exposição individual no Luxemburgo com obras que ficam até setembro no Mudam. E fala do regresso à dança como diretor artístico e da relação com Portugal.

Esta é a sua primeira exposição no Luxemburgo...

É a minha primeira exposição individual no Luxemburgo, mas a primeira vez que o meu trabalho foi apresentado foi quando o Mudam adquiriu o que está

agora no auditório (trabalho em filme sobre o Japão) e isso creio que foi em 2002. Depois houve a exposição “Portugal Agora” de que também fiz parte. E agora venho para esta exposição individual.

Que ideia tem do Mudam?

O Mudam é um espaço muito interessante e muito difícil. É um espaço muito arquitetónico e está sempre em conflito com aquilo de que os artistas precisam. Todos nós precisamos de espaços muito simples e flexíveis e este não é, portanto, tem de se lhe dar a volta. E isso é parte do trabalho que nós tivemos, eu e o Clément [curador da exposição], em transformar duas salas, uma octogonal e outra com uma parede redonda, no espaço de que precisávamos para pôr as peças que queríamos. Não foi fácil.

Na visita guiada que fez com a imprensa, Clément Minighetti, o curador da exposição, referiu-se a si como um contador de histórias, designação que subsiste ao longo do seu percurso artístico. Revê-se nessa identificação?

Revejo, apesar de ser muito perigosa, porque parece que não faço mais nada [risos]... Não é bem assim... A verdade é que há sempre história, pode é não haver narrativa, mas, no geral, há história como naquela fotografia quando se entra na exposição e que diz “par de calças puídas pela traça – nunca foram usadas”, aí já há uma história completa com duas frases. Há uma história que não está definida, mas é definida por cada um de nós. Por que razão nunca foram usadas? O que aconteceu ali?

Faz-se a construção a partir daí?

Sim...

Como é melhor que os públicos o conheçam? Não tanto como contador de histórias?

[pausa] Não, até acho que é uma boa maneira, mas as minhas histórias têm um lado muito visual e não só literário e espero agarrar o espectador por um lado, pelo outro ou pelos dois. Mas há sempre um mecanismo de sedução do público, portanto, se me chamarem contador de histórias... Quer dizer, eu penso em mim como um artista visual contemporâneo e uso tudo aquilo que é possível: tanto pode ser uma porta encontrada na Internet como podem ser modos de chapéus dos anos 30, os objetos têm uma carga emocional muito grande, percebe-se de onde aquilo vem, têm logo história.

Outra referência à exposição diz respeito ao facto de ser orquestrada/coreografada e com um ritmo próprio...

Sim, isso é uma coisa que nasce com o trabalho de curadoria das exposições. Por vezes é muito imprevisível porque estamos a pensar numa peça, depois noutra que seria compatível, de repente temos um caminho pensado e aí já será mais normal ir buscar uma terceira que seja compatível com as outras duas e sucessivamente acabamos com um tipo de exposição. Porque, se tivéssemos começado com um outro tipo de peça, ia levar-nos a outras peças e seria uma exposição completamente diferente. Esta exposição é assim, mas eu poderia ter outras muito diferentes. Seriam todas muito baseadas na narrativa e todas com objetos, mas seriam muito diferentes.

Foto: Lex Kleren

Por que razão se interessa pela questão de colocar o espectador entre a realidade e a ficção?

É uma situação em que o espectador é muito livre de construir as suas próprias formas de ligar narrativas, de reescrever a história, de reinterpretar a história e, em todas essas situações, é um espectador ativo e colaborador. Nesse sentido, sinto que conduzi o espectador a ser muito criativo, porque é como se tivesse dado uma deixa e o espectador faz o resto.

Esse jogo com a imaginação do espectador é algo fundamental para si?

Isso é algo que me interessa muito, muito, muito. Digo sempre que as pessoas são muito mais imaginativas, criativas e artísticas do que pensam. Todos nós somos artistas, porque temos essa capacidade. Não é só por se ter estudado na escola de Arte que as pessoas são artistas, todos nós o somos. E isso vê-se, de repente, numa coisa que a nossa avó fez em que olhamos e dizemos que parece trabalho de um artista sem que tivesse havido qualquer intenção artística. E isso é algo de muito natural em toda a gente.

Assume a direção artística do espetáculo que encerra a exposição...

O espetáculo foi criado no ano passado e fui surpreendido com o convite para a direção artística de um bailado quando já estava afastado há muitos anos. Comecei pela dança, mas isso foi algo que ficou feito e, depois, desenvolvi outros interesses. Quando me convidaram fiquei um pouco hesitante, porque não estava a ver-me voltar. Mas voltei numa posição tão diferente e tão criativa que me deram a liberdade de ser diretor artístico. Trabalhei com o coreógrafo e dei-lhe uma espécie de guião ou mapa sobre o tempo para que pudesse fazer a coreografia; forneci todo o material à pessoa que estava a construir o som; colaborei com quem cuidou das luzes; trabalhei com quem fazia os figurinos, ou seja, estou completamente envolvido. É, realmente, uma peça minha, não estou por fora, pelo contrário, estou muito envolvido e foi fantástico! Foi uma ideia do Clément Minighetti, criou-se uma oportunidade para a Companhia Nacional de Bailado vir cá, é uma ótima forma de terminar a exposição e também cá estarei a acompanhar os ensaios. Sinto-me muito feliz com esta ideia!

Tem exposto um pouco por todo o mundo: das experiências que tem vivido, há algum espaço, país ou cidade onde se sinta mais bem acolhido?

Não. À partida, quando me convidam, é porque gostam do meu trabalho, tanto faz ser aqui como em Budapeste, Turim, na Irlanda ou em Lisboa e no Porto... Convidaram-me porque me querem, já me sinto bem recebido. Claro que há exposições mais felizes do que outras e situações mais complicadas. Esta aqui não o foi porque a equipa é fantástica, muito competente e simpática, tinha a vantagem de já conhecer o museu e o Clément, senti-me muito em casa aqui e, sobretudo, foi algo como: finalmente fazemos qualquer coisa! Porque esta exposição estava para ser há muito tempo...

(Leia a entrevista na íntegra no jornal Contacto desta semana)


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