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Jimmy P: Xeque-mate
Eles eram tão pobres que não podiam comprar uma gravata completa

Jimmy P: Xeque-mate

Eles eram tão pobres que não podiam comprar uma gravata completa
Cultura 3 min. 14.11.2013

Jimmy P: Xeque-mate

Dizer que a vida é como uma partida de xadrez é um daqueles lugares comuns que não gosto de repetir, mas comparar a relação que une os dois protagonistas de "Jimmy P" a esse tipo de jogo é tentador.

O encontro e a relação entre Jimmy (Benicio del Toro) e o doutor Georges (Mathieu Amalric) é o centro do filme de Arnaud Desplechin. O filme – presente em competição em Cannes – baseia-se no livro de um antropólogo, Georges Devereux, que relatou o tratamento que providenciou a um índio norte-americano depois da Segunda Guerra Mundial num livro intitulado "Reality And Dream: Psychotherapy of a Plains Indian".

O realizador francês, na sua primeira aventura americana, tem a sorte de contar com o excelente Del Toro e com um dos seus actores preferidos, Amalric, que assina uma das suas melhores prestações, que talvez só tenha paralelo no mais recente Polanski "Venus in fur".

Além dos actores, Desplechin tem ainda o experiente e excelente Howard Shore como compositor. Um conjunto que o realizador gaulês não desperdiça e que partilha com o público durante duas horas.O principal defeito de "Jimmy P" é porventura a duração. Desplechin podia, provavelmente, ter reduzido o seu filme à tradicional fórmula dos 90 minutos, mas o francês não aproveitou a oportunidade de rodar nos "States" para ser mais americano do que eles. O realizador optou por um filme francês no ritmo e americano na qualidade técnica.

Não há absolutamente nenhum risco de estragar o prazer de descobrir a história do índio Jimmy e do seu terapeuta, o doutor Georges. Não existe propriamente suspense ou dúvida sobre o desenlace da história (apostar em tal abordagem seria parvo, por se tratar de uma história real e documentada), mas o prazer de descobrir os dois homens é, mesmo assim, imenso. Tanto Jimmy como o doutor são pessoas interessantes e que, como todos nós, têm segredos a revelar e problemas a resolver.

Dado que o objectivo do terapeuta é curar o índio dos seus males "de alma", como ele próprio explica, espera-se que seja Jimmy a descobrir aquilo que o inquieta e a revelar o seu passado durante as sessões de psicanálise. Curiosamente, a terapia revela-se funcionar em dois sentidos. Georges Devereux tem uma bela lista de problemas pessoais que acabam por surgir discretamente durante as consultas. Esta é uma das mais belas dúvidas que lança o filme: afinal quem ajudou quem? E quem seria o mais necessitado?

A personagem do doutor Devereux é quase um fantoche, um exagero que o torna mais credível e empático. Amalric merece muitos dos louvores pela criação desta personagem ímpar. A oposição com o enorme Benicio del Toro faz da relação entre ambos uma eterna incerteza sobre quem domina quem e sobre a honestidade dos propósitos de ambos.

Uma conclusão fácil seria que ambos são dominados por mulheres, porque os dois as temem e têm dificuldades em enfrentá-las, mas essa seria uma tirada tão fácil como dizer que a relações entre os dois protagonistas é como uma partida de xadrez.

"Jimmy P: Psychotherapy of a Plains Indian", de Arnaud Desplechin, com Benicio del Toro, Mathieu Amalric, Gina McKee, Larry Pine e Misty Upham.

Raúl Reis