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Jean Portante vence Prémio Servais: "O meu francês tem o pulmão da língua materna"
Cultura 13 min. 02.06.2016 Do nosso arquivo online

Jean Portante vence Prémio Servais: "O meu francês tem o pulmão da língua materna"

Jean Portante obteve pela segunda vez o prémio Servais, o Goncourt luxemburguês

Jean Portante vence Prémio Servais: "O meu francês tem o pulmão da língua materna"

Jean Portante obteve pela segunda vez o prémio Servais, o Goncourt luxemburguês
Foto: PPL
Cultura 13 min. 02.06.2016 Do nosso arquivo online

Jean Portante vence Prémio Servais: "O meu francês tem o pulmão da língua materna"

Jean Portante venceu pela segunda vez o prémio Servais, o maior galardão literário no Luxemburgo. O escritor luxemburguês é filho de imigrantes italianos mas gosta de dizer que os seus antepassados remontam à pré-história. Tal como as baleias, mamíferos terrestres que migraram para o mar e regressam à tona para respirar, Portante escreve em francês com "pulmão italiano".

CONTACTO: Esta é a segunda vez que recebe o prémio Servais, depois de "Mrs Haroy ou la Mémoire de la baleine", em 1994, que já era uma crónica da imigração.

Jean Portante: A imigração está sempre em pano de fundo em todos os meus livros, tanto na poesia como nos meus romances. A imigração está intimamente relacionada com a história do Luxemburgo no séc. XX e também no séc. XXI, a começar pela imigração italiana. Diz-se que três milhões de italianos passaram pelo Luxemburgo. Nem todos ficaram no país, porque na altura vinham como trabalhadores sazonais. Tudo isto está nos meus livros, pela simples razão de que eu também faço parte desta história da imigração.

Há quem diga que nesse livro evoca a sua infância como filho de imigrantes no Luxemburgo. É assim?

A relação entre a realidade e a ficção é complexa. Não podemos escrever sobre o que não conhecemos, e o que conhecemos melhor somos nós mesmos. Ao mesmo tempo, quando se transpõe isto para um romance, deixa de ser a realidade. E por isso, em "Mrs Haroy", a personagem de Claude podia ser o filho de qualquer imigrante – e aliás houve muitas pessoas que se identificaram com esta personagem –, mas ao mesmo tempo sou eu. Este vaivém entre o que é inventado e o que é real é próprio da literatura.

Neste seu novo romance premiado, "L’Architecture des Temps Instables", o 'leitmotiv' volta a ser a imigração, com a história de várias gerações de imigrantes italianos no Luxemburgo.

O pano de fundo é a história migratória de Itália para o Luxemburgo, e há uma das personagens que também vai para a Alemanha de Leste e Cuba. A imigração é normalmente difícil, no início, e depois há uma adaptação ao novo país e deixamos de poder distinguir. É aliás o meu caso: ninguém dirá que eu sou italiano, toda a gente me conhece como um escritor luxemburguês. A esta imigração vai misturar-se a grande tragédia do séc. XX, que foram as duas guerras mundiais. .

Escreve em francês, mas prefere dizer que escreve em 'língua-baleia'. Quer explicar o que quer dizer com isso?

Eu não escrevo em francês. Ortograficamente, parece francês: as frases são construídas segundo a gramática francesa, mas ao mesmo tempo é uma língua que funciona como a baleia na água. Inicialmente, a baleia não era um animal aquático, era um animal terrestre. Em determinado momento da sua evolução decide emigrar para a água, e tem, como todos os imigrantes, de se adaptar a este novo meio. Perde as patas, ganha barbatanas, mas não sacrifica uma coisa essencial para viver, que são os pulmões. Por causa disso, não vive propriamente como peixe na água, mas também não pode regressar a terra firme. É uma metáfora que traduz a situação dos imigrantes, que chegam a um lugar a que ainda não pertencem e ao mesmo tempo deixam de pertencer ao lugar de onde vêm. Para mim, o francês funciona como a baleia: porta-se como se fosse um peixe, mas tem lá dentro o pulmão da língua italiana, a minha língua materna. E isto dá uma outra língua, que ainda não é o francês, mas também já não é o italiano.

De que forma é que isso é visível?

Posso dar-lhe um exemplo: nos meus livros há muitas pás ['pelle', em francês], um instrumento que é de certa forma um elemento autobiográfico, porque os meus avós a usavam para trabalhar a terra e a usaram também quando vieram trabalhar nas minas do Luxemburgo. Ora, quando eu escrevo 'pelle' [pá], penso na palavra italiana 'pelle', que quer dizer a pele do corpo – não sei como se diz em português...

Da mesma forma, pele.

Eu, quando digo 'pelle' [pá] em francês, penso em pele. Todas as metáforas da minha poesia partem desta ideia. E isso permite-me contar um elemento biográfico neste romance, que é verdadeiro: o meu avô paterno perdeu a pele [em francês, morrer] quando usava a 'pelle' [pá], porque morreu num acidente de trabalho no Luxemburgo, em 1932.

É uma imagem forte para ilustrar uma tragédia na sua biografia.

Sim. Eu insiro-me numa corrente de imigração que vem de muito longe, porque faço remontar a origem à baleia [risos], e com esta imagem podemos englobar todas as migrações do mundo. Com a particularidade de que hoje temos também novamente este elemento de tragédia, porque a maior parte das pessoas que estão a chegar às portas da Europa fogem à guerra.

Há uma canção de Paolo Conte, "Naufragio a Milano", sobre um emigrante que naufraga, para quem a imigração também significa terror, como no caso do seu avô ou dos refugiados. Ele também diz que integração é uma "palavra amarga". Há uma frase sua que me faz lembrar essa canção: "Quando me falam de integração, mudo de passeio" – isto é, vira costas. De resto, fala sempre em adaptação e não em integração. O que é que lhe desagrada nesta palavra?

Para começar, em integração há 'integrismo' e 'desintegração’, palavras que me desagradam. E a integração é o que os outros exigem de nós, enquanto a adaptação é aquilo que nós próprios fazemos. O ser humano, quando vai a qualquer lado, mesmo de férias, adapta-se, ou não seria capaz de viver nesse lugar.

Para retomar a imagem da baleia, sem barbatanas, ela não poderia viver no mar, teve de se adaptar à vida aquática. E é isto que faz cada imigrante: adapta-se o melhor que pode, mas tem a tendência de preservar dentro de si o pulmão, isto é, a memória da sua vida anterior. A integração – há uma palavra ainda pior, que é assimilação – é pedir ao imigrante que retire o pulmão e seja como os que o rodeiam. Mas se ele for igual aos outros, não traz nada de novo: só pode enriquecer o país a que chegou se for diferente dos outros.

De certa forma também estamos a falar de uma impossibilidade ontológica, alguém ser quem não é. Mas há cada vez mais apelos à integração no Luxemburgo, sobretudo após o referendo sobre o voto dos estrangeiros, e uma preocupação com a perda da identidade nacional. Acha que há mais crispação entre luxemburgueses e estrangeiros?

Quando as coisas vão bem, e há trabalho para todos, ninguém se queixa. Os italianos viviam em guetos, havia partes do Luxemburgo que se chamavam Itália, como em Dudelange ou no Brill, em Esch. Ninguém via isto com maus olhos. A partir do momento em que a situação económica piora, e que o trabalho distribuído pelo sistema capitalista não chega para todos, a rivalidade instala-se entre trabalhadores e surgem questões de identidade: passa a acusar-se o outro de ser diferente e a dar-se preferência aos nacionais.

No Luxemburgo isto acontece a vários níveis, a começar pelos trabalhadores fronteiriços, que vêm para trabalhar no Luxemburgo e subitamente se convertem em seres ameaçadores e são acusados de ficar com o trabalho dos outros. Mas a culpa de a situação estar mais crispada não é dos estrangeiros, mas sim de um sistema económico que, para acumular riqueza nas mãos de uns poucos, tenta poupar no custo de trabalho. Aumentam os despedimentos, há mais desemprego, e surgem as crispações.

Sobre a outra questão que refere, as discussões sobre a identidade nacional – bem, identidade é uma palavra que me faz mudar cinco vezes de passeio [risos].

Porquê?

Porque quer-se sempre reduzir a identidade ao pequeno território onde se nasceu ou onde se vive há não sei quantas gerações. Mas eu pergunto: quando alguém bebe café no Luxemburgo, o café faz parte da identidade do país? O café historicamente vem de África. Se eu me puser a fazer cálculos e utilizar o zero – bem, o zero não nasceu no Luxemburgo, é um número árabe, mas preciso dele e faz parte da minha identidade. O tabaco, o tomate, vêm da América.

A identidade não está ligada a um pedaço de terra, mas sim ao globo terrestre. Nenhum de nós estaria aqui se não tivesse havido todas estas migrações humanas a partir de África, porque foi em África que nasceu a vida, e não no Luxemburgo. As pessoas utilizam o termo identidade de forma demasiado restritiva: é como se fosse uma bandeira espetada no meio do território e tudo o que está à volta não fizesse parte da identidade. Se fosse assim, seríamos muito pobres, sobretudo no Luxemburgo, que é um país tão pequeno. Nem sequer teríamos batatas, que vieram da América, e que fazem parte dos pratos nacionais luxemburgueses.

No Luxemburgo também assistimos a uma onda de francofobia, como se o francês não fizesse parte das línguas nacionais e estivesse a colonizar o país. Paradoxalmente, os estudos indicam que o francês é a língua mais utilizada no país, mas também perdeu prestígio: era a língua das elites e passou a ser vista como a língua dos imigrantes italianos e portugueses. O que é que sente quando a língua em que escreve é atacada como um idioma alienígena?

Eu digo sempre que não escrevo em francês, visto-me de francês. Teria gostado de me vestir de italiano, mas não seria capaz de o fazer. Mas é apenas um envelope, porque dentro do meu francês há o italiano que ’pulmona’, para usar um neologismo.

Dito isto, é verdade que a língua francesa perde terreno, porque a França deixou de ser uma grande potência económica e cultural. Enquanto o foi, também era colonizadora: a exportação do francês fez-se muitas vezes ao som dos canhões. Se hoje em dia o francês perde terreno, é porque a França perdeu força económica, tal como o inglês se expandiu porque os Estados Unidos se converteram numa grande potência.

Historicamente há sempre línguas que perdem força e são substituídas por outras que se impõem, e isso não me parece problemático. O que já me parece problemático é que se ataque uma língua como forma de atingir os estrangeiros, como se faz no Luxemburgo. E aqui os luxemburgueses têm a memória curta, porque se esqueceram que em 1839 o Luxemburgo perdeu metade do seu território no Congresso de Londres e ficou reduzido ao Luxemburgo belga, uma parte exclusivamente francófona, onde se falava o dialecto frâncico, de origem germânica [de onde deriva o luxemburguês].

No pêndulo da história, as línguas dos nossos vizinhos alemães e franceses têm tido grande influência no país. Mas é curioso que ninguém pense que o intruso no país é a língua alemã, quando na II Guerra Mundial os alemães fizeram horrores no Luxemburgo. Os franceses também, sob Napoleão...

Quando o Luxemburgo se transformou no Departamento de Florestas francês...

Sim, mas o problema não era a língua, mas sim quem colonizava o país. Acho que quando se atacam as línguas para nos protegermos de alguma coisa que vem de fora chegamos à intolerância e à injustiça, e afastamos a possibilidade de ficar mais ricos. É uma felicidade nascer num país que tem tantas línguas.

Vive em Paris desde 1983. Por que decidiu deixar o Luxemburgo?

Comecei a escrever em 1983. Até aí era professor no Luxemburgo, ganhava bem, a vida corria-me bem. E depois, não sei porquê, escrevi um livro de poemas e decidi deixar o ensino, porque não se pode fazer este trabalho pela metade. Deixei o ensino de um dia para o outro e decidi também sair do país, de forma radical.

Nessa altura ainda não tinha percebido que escrevia em “língua-baleia”, achava que escrevia em francês, e decidi ir para França, para um local onde pudesse aproximar-me da língua que eu utilizava. Não teria ido para Berlim nem para Nova Iorque, era Paris que me atraía. E depois no Luxemburgo, como certamente já reparou, se fizermos bem as coisas, tornamo-nos rapidamente alguém: dizem-nos ‘você é um grande escritor’, atribuem-nos prémios – já em 1994 me deram o Servais –, e é muito fácil acreditar que fizemos alguma coisa boa. Eu sentia necessidade de emulação e de me misturar com outras pessoas da literatura no estrangeiro, para ver o que valia realmente o que eu fazia. E tive a felicidade de receber também em França alguns prémios.

Entre eles, o prémio Mallarmé.

Sim. Não vou agora pôr-me a dar palmadinhas nas costas ou coroar-me de louros, mas eu tinha necessidade de me confrontar com alguma coisa maior do que eu.

Queria fugir da gaiola dourada?

Sim. Senti que estava a ficar sem espaço no Luxemburgo e que consegui de forma muito rápida a consagração. E a seguir à consagração, o que é que vem? Em Paris sinto que sou pequeno no grande oceano da escrita, e tento nadar e não me afogar, banhando-me ao mesmo tempo no que os outros fazem. Isso dá-me todos os dias vontade de continuar.

Apesar de viver em Paris, o seu trabalho está muito ligado ao Luxemburgo, da fundação da Primavera dos Poetas ao trabalho de jornalista no Le Jeudi, onde foi chefe de redacção.

Em 1983, pus a escrita no centro da minha vida, mas era preciso pagar a renda, comer e ter meios de subsistência. Trabalhei para a rádio France Culture, nos anos 1980, e quando a Rádio Sócio-Cultural foi criada no Luxemburgo, em 1993, fiz parte da equipa inicial. Continuo aliás a fazer parte da rádio, porque retomei uma emissão que fala de literatura francesa, em francês, numa rádio que é praticamente toda em luxemburguês.

Também estive presente na criação do Jeudi, em 1997, onde cheguei a ser chefe de redacção. Mas rapidamente percebi que se continuasse a ser chefe de redacção, a escrita literária deixaria de estar no centro da minha vida, porque ser chefe de redacção de um jornal toma-nos a energia toda. Para isso, mais valia ter continuado a ser professor... Decidi fazer o que sei fazer, que é escrever, e continuo a escrever dois ou três artigos por semana para o Jeudi. Tudo isso faz parte da minha vida de escritor: as crónicas, os livros e poemas, até a tradução. Neste momento também dou aulas de escrita criativa na Universidade do Luxemburgo. São tudo tons da mesma paleta.

Vai estar no Luxemburgo a 4 de Julho para receber o prémio Servais. Tem alguma conferência planeada para apresentar o livro?

Já tive ocasião de o apresentar no Centro Nacional de Literatura, em Mersch, e na minha terra natal, Differdange, e também na Universidade de Belval e na capital. Mas se me convidarem, estarei sempre presente.

Paula Telo Alves