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Inside Llewyn Davis: Mad Men
Se os “Mad Men” fossem cantores seriam assim

Inside Llewyn Davis: Mad Men

Se os “Mad Men” fossem cantores seriam assim
Cultura 4 min. 27.11.2013

Inside Llewyn Davis: Mad Men

Será que uma semana pode mudar a vida de alguém? Certamente que sim. Se os astros estiverem favoráveis podemos ganhar o Euromilhões. Se estivermos em forma somos capazes de bater o nosso recorde pessoal no “jogging”. Se trabalharmos bem o patrão até é capaz de nos presentear com uma promoção. Mas com um ou dois azares numa semana a vida pode complicar-se seriamente.

O último filme dos irmãos Coen, escrito e realizado por ambos, Joel e Ethan, propõe ao público passar uma semana com o músico Llewyn Davis. No caso de Llewyn, passar uma semana com ele, é entrar num estranho mundo de dificuldades que surgem sem razão, de azares que se sucedem, de problemas que, aparentemente, vão caindo do céu como a chuva e a neve nova-iorquina num dia de Inverno.

Os Coen fizeram de propósito e colocaram a acção de “Inside Llewyn Davis” no Inverno. A semana que o público partilha com o protagonista passa-se no início dos anos 60. Kennedy acaba de ser eleito e a América é uma terra de oportunidades onde tudo é possível, inclusivamente ir à Lua.Llewyn Davis (Oscar Isaac) toca num pequeno bar de Nova Iorque para amealhar uns trocos.

Cedo se percebe que Davis tem muitas dificuldades financeiras e que nem sequer tem casa. O músico “invade” os pobres e diminutos apartamentos de outros músicos que têm pouco mais dinheiro que ele, à excepção da família Gorfein (Ethan Phillips e Robin Bartlett). Os Gorfein gostam de acolher Llewyn durante jantares sociais para o mostrarem aos seus convivas como “o nosso amigo cantor folk”.

Depois de uma noite em casa dos Gorfein, Llewyn sai e deixa acidentalmente fugir o gato da família. A semana de dificuldades que o protagonista vai viver está intimamente ligada ao gato Ulisses que Llewyn vai procurar incessantemente. O gato dos Gorfein é uma bela metáfora para o êxito que persegue o jovem músico. Mesmo quando tem o gato na mão, ele parece escapar-lhe, e os Coen decidem também filmar o animal quase sempre por trás para que o símbolo fique bem claro.

Llewyn Davis acumula dificuldades. Será culpa dele ou uma conjugação de elementos adversos, numa odisseia sem fim?Seja qual for a razão da falta de sorte, Llewyn persegue o êxito durante uma semana mas não sai do sítio. Mais uma vez, muito simbolicamente, os irmãos Coen fazem a sua personagem atravessar metade dos Estados Unidos para o colocarem de novo no mesmo local onde a acção se inicia: um bar de Nova Iorque onde o cantor se produz há algum tempo sem ninguém reparar nele.

A realização de Joel e Ethan Coen é, como de costume, precisa e elegante. A recriação da Nova Iorque e dos interiores dos anos 60 é fabulosa e, só por isso, “Inside Llewyn Davis” já mereceria toda a atenção dos cinéfilos. A fotografia, toda em tons de cinzento e pastel, propõe imagens lindíssimas de que convém disfrutar num ecrã de cinema. Com a acção situada na mesma época, este trabalho dos Coen não pode deixar de recordar a série televisiva da HBO, “Mad Men”.

A música – muita dela original e com a mãozinha de T-Bone Burnett – é outra atracção deste filme com momentos agradáveis de bela criação mas também com muito humor. A presença de Justin Timberlake – cada vez melhor actor – constitui algumas das pérolas desta película.

O mundo é visto pelos olhos do protagonista e Llewyn tem opiniões bem definidas sobre os outros músicos que considera, em geral, pirosos e maus. E esta é outra das virtudes da câmara do Coen: não é necessário ouvir o parecer de Llewyn pois a forma como são apresentados os seus “concorrentes” ridiculariza-os de forma evidente.

Diga-se em abono da verdade que a música do final dos anos 50, princípio dos 60, não constitui um dos melhores momentos da criação nesse domínio. Os Coen transmitem bem essa falta de talentos, de opções e mesmo de criatividade. No final do filme há um piscar de olho àquilo que será o futuro da música e, na realidade, uma confirmação irónica de que Llewyn ia pelo bom caminho, mas...

“Inside Llewyn Davis” é um daqueles filmes dos Coen em que a base dramática é atenuada com sorrisos regulares e momentos de humor muito à maneira dos dois irmãos. Não se trata de uma obra-prima como, por exemplo, “Fargo” mas os novos elementos que os realizadores introduzem provam que ainda há muita criatividade na família.

“Inside Llewyn Davis” de Joel e Ethan Joen, com Oscar Isaac, Carey Mulligan, Justin Timberlake, Ethan Phillips, John Goodman, Robin Bartlett, Max Casella e Adam Driver.

Raúl Reis