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'inFausto'. A peça que questiona o lugar do teatro e a fantasia em época de fake news
Cultura 4 min. 21.05.2021

'inFausto'. A peça que questiona o lugar do teatro e a fantasia em época de fake news

'inFausto'. A peça que questiona o lugar do teatro e a fantasia em época de fake news

Cultura 4 min. 21.05.2021

'inFausto'. A peça que questiona o lugar do teatro e a fantasia em época de fake news

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
A companhia portuguesa Mala Voadora estreia hoje e amanhã, no Théâtre d'Esch, o monólogo 'inFausto', interpretado por Jorge Andrade. Ao Contacto, o ator levanta um pouco o véu sobre esta "viagem alucinada", em palco, pelo mundo das notícias falsas e das conspirações.

As fake news, a sua propagação nas redes sociais, numa altura em que estamos privados do convívio real com os outros, substituindo-o pela mediação dos ecrãs, convocam o artista a pensar e a reivindicar o seu papel na criação de fantasia, de ficção e de reinvenção da realidade. É esse exercício que a Mala Voadora leva ao palco na peça 'inFausto', esta sexta-feira e amanhã, no Théâtre d'Esch, em Esch-sur-Alzette.

Ao contrário das últimas apresentações no Luxemburgo, com 'Moçambique' e 'Wilder', este regresso da companhia portuguesa ao Grão-Ducado faz-se em monólogo, com interpretação a cargo de Jorge Andrade, ator e cofundador da mala voadora, que compara o espetáculo a uma  "viagem alucinada pelo mundo", conduzida por aqueles pressupostos. E apesar de ser um monólogo, não estará totalmente sozinho em palco.

"Os espetáculos que trouxemos das outras vezes, até cá, eram peças com várias pessoas em palco. Desta vez sou só eu, mas nem por isso o espetáculo deixa de ter dinâmica porque faço-me acompanhar de uma maquete onde estão mais de 500 "pessoas". Ou seja, eu recorro a figurinhas da minha maquete, que é uma grande mesa que eu uso para fazer este espetáculo, onde existem muito mais personagens do que aquelas que seriam possíveis caber num palco, ainda que seja aqui no palco do Grande Auditório do Teatro d'Esch", diz em entrevista ao Contacto.

'inFausto', explica o ator, "fala sobre os dias de hoje, sobre o que é verdade e o que é mentira, como é que o teatro se mistura com a vida", ao mesmo tempo que questiona onde fica o lugar do teatro "neste período que estamos a viver, em que as notícias são facilmente manipuláveis, através das redes sociais e se torna difícil perceber onde é que acaba a verdade e começa a mentira". "Nós no teatro, que costumamos trabalhar com a fantasia e a ficção,  onde é que fica o nosso lugar no meio disto? Como é que nós, artistas, podemos continuar a reivindicar o nosso lugar para contar histórias", questiona Jorge Andrade.


Companhia portuguesa Mala Voadora estreia peça no teatro de Esch-sur-Alzette
O monólogo 'inFausto' sobe ao palco do Théâtre d'Esch, na sexta-feira e no sábado, com interpretação em português e inglês.

O ponto de partida desta peça é uma outra, 'Fausto', levada à cena por Jorge Andrade, em 2018, no CCB, em Lisboa, a propósito dos 25 anos deste espaço cultural da cidade.

 "Era um espetáculo que tinha mais de 100 pessoas em palco: atores, músicos, bailarinos, figurantes, um rancho folclórico. E a história acabava com o espetáculo a sofrer de uma conspiração, que destruía o seu sucesso artístico, porque era um espetáculo que tinha a audácia de reivindicar para si um orçamento do Estado, para poder existir enquanto espetáculo artístico e isso tinha deixado muito gente desagradada e, portanto, houve uma conspiração a nível internacional para que o espetáculo não funcionasse", lembra o ator.

É a partir dessa ideia de conspiração que Jorge Andrade refaz esse espetáculo,  "mas agora com figurinhas em cima de uma mesa e procurando descobrir onde é que se deu essa conspiração", explica. 

"Depois começo com o público numa viagem delirante sobre o que é que é a realidade e o que é que é a ficção para tentar reivindicar o meu papel enquanto artista e não perder o meu trabalho. Porque quando essas pessoas, nas redes sociais, começam a brincar com a ficção e a fazerem-na passar por realidade estão, no fundo, a dar cabo do meu trabalho, porque isso é um trabalho que deveria ser eu a ter", resume, com humor. 

O público, reduzido a uma plateia de cerca de 30 pessoas, que permite também criar a ilusão e proximidade que se tem quando se está em frente ao ecrã, é convidado então a embarcar nessa viagem, "ainda mais delirante do que já era o Fausto com aquelas mais de 100 pessoas em palco", e em que é convocado "para mundos alternativos", mas que lhes permita "aumentar os seus horizontes e os leve a considerar, de uma forma lúdica, a forma como vivem as suas vidas". O que não acontece na fantasia criada pela distorção da realidade e dos factos. "Esta outra manipulação que temos através das fake news aquilo que procura é reduzir e não considerar a diversidade e pluralidade de mundos, para nós nos enriquecermos enquanto indivíduos, mas antes fechar-nos em relação ao outro e fazer-nos teme-lo, como se fossemos cobaias de experiências baseadas no medo e na desconfiança."

A peça 'inFausto' é apresentada em versão bilingue, sendo que o espetáculo de hoje é interpretado em português e o de amanhã em inglês.

Em ambos os dias os espetáculos começam às 20h e a duração é de 60 minutos. Os bilhetes custam entre 20€ (preço normal) e 9€, com desconto jovem.

Mais informações aqui.

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