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Ida: Retrato a preto e branco
Nos anos 60, na Polónia, era muito mais frio que agora

Ida: Retrato a preto e branco

Nos anos 60, na Polónia, era muito mais frio que agora
Cultura 3 min. 19.02.2014

Ida: Retrato a preto e branco

O realizador Pawel Pawlikowski faz parte de uma longa tradição de cineastas polacos "expatriados" que exercem um pouco por todo o mundo. Neste caso, Pawlikowski foi para Oxford estudar literatura e filosofia e acabou por ficar por lá. Trabalhou para a televisão mas revelou-se na Sétima Arte nos documentários, tendo deixado as primeiras marcas com uma longa-metragem de ficção, "Last Resort". Pawlikowski aborda nessa obra o problema da migração ilegal.

O seu trabalho seguinte escolhe como protagonista a adolescência, seguindo duas improváveis amigas que, durante um curto Verão, se influenciam de forma marcante. Pawlikowski gosta de assinar também os seus argumentos, tendo a seguir adaptado "The Woman in the Fifth", onde teve a oportunidade de dirigir Ethan Hawke e Kirstin Scott Thomas.

"Ida" é um regresso do realizador polaco às suas origens e a um passado recente do seu país natal. Ida Lebenstein (Agata Trzebuchowska) é uma jovem que cresceu num convento e que o público descobre prestes a tornar-se freira. Antes desse passo, a madre superiora (Halina Skoczynska) propõe-lhe que visite uma tia, de que Ida desconhecia a existência.

A tia Wanda (Agata Kulesza) é uma juíza que vai permitir à jovem descobrir as suas origens familiares e religiosas: Ida vem de uma família judaica. O encontro entre as duas mulheres é, sobretudo, o choque entre duas épocas, entre duas formas de ver a vida, entre a esperança e o desespero de viver numa sociedade fechada. A tia de Ida tenta convencer a jovem a abandonar o convento. Trata-se de uma mulher descomplexada que não compreende as razões que podem levar Ida a tornar-se freira. A tia tenta convencê-la a aproveitar a vida e as suas oportunidades. Wanda não compreende como é possível que Ida esconda os seus belos cabelos com o hábito.

A relação entre Ida e Wanda cria uma espécie de microcosmos de confrontações que reflecte perfeitamente o mundo que as rodeia. Os debates entre as duas protagonistas são o perfeito reflexo das tendências e dos conflitos que nos anos 60 marcam a sociedade da Polónia: as sequelas da guerra e do nazismo, o regime comunista que abafa as consciências, a forte presença da Igreja Católica e a "guerra fria" entre polacos e judeus.

Apesar de o argumento ser construído do ponto de vista de Ida, o filme não adopta posições sobre estes temas. Pawlikowski nunca qualifica as suas personagens nem define quem são os bons ou os maus da fita. Essa será talvez a principal virtude desta obra.

A escolha do preto e branco e de um formato 4:3 é uma clara âncora no passado e ajuda a transportar o espectador para os anos 60, ajudando também a sentir os rigores do Inverno polaco e a frieza dos edifícios e dos espaços em que as personagens se movem.

Pawel Pawlikowski aposta nas expressões, em retratos estáticos dos seus actores que transmitem emoções fortes. Os diálogos são importantes mas frugais, sendo muitas vezes complementados pela música (de Coltrane a Bach, passando por Mozart, há lugar para vários géneros).

A preocupação estética é óbvia e cada plano revela muito trabalho, muito estudo. A montagem visual e sonora contribui para um resultado sublime que revela, a pouco e pouco, uma sociedade perturbada, que sofre. Contudo, o realizador abandona por vezes as emoções dos seus actores – talvez por pudor, talvez para evitar o excesso?

A protagonista, Agata Trzebuchowska, não é uma actriz profissional. A jovem foi descoberta num café e decidiu participar na aventura. A tia Wanda é um dos grandes nomes do cinema polaco: Agata Kulesza tem nesta película um dos seus melhores desempenhos.

"Ida", de Pawel Pawlikowski, com Agata Trzebuchowska, Agata Kulesza, Halina Skoczynska, Joanna Kulig, Dawid Ogrodnik e Jerzy Trela.

Raúl Reis